O que acontece quando o conhecimento deixa de ser propriedade e vira possibilidade?
Lembro-me do meu primeiro emprego, aos 18 anos. Num banco. Eu trabalhava no setor de talão de cheques. Para entregar os talões, precisávamos checar se não havia nada de errado com o titular da conta. Quando havia alguma coisa, consultávamos então um outro setor, que avaliava se o talão poderia ou não ser entregue.
O chefe desse outro setor era um senhor mais velho e um tanto rabugento. Ele fazia uma coisa que eu achava muito esquisita: monopolizava o conhecimento.
Não adiantava perguntar nada a ele sobre o processo de trabalho. Ele não abria. Era conhecido por isso.
Esse era o seu trunfo: não poderia ser demitido porque ninguém por ali sabia fazer o que ele fazia.
Na minha vida profissional encontrei muitas pessoas assim.
Pessoas que não compartilhavam seus conhecimentos porque, de alguma maneira, acreditavam que o conhecimento lhes garantia um lugar. Seriam protegidas, valorizadas, talvez até endeusadas. Enquanto os outros não soubessem, elas seriam necessárias.
Pra mim, sempre foi um contrassenso. Um conhecimento que só serve para manter alguém indispensável é um conhecimento que, de certa maneira, fica preso.
Pula para 2026.
O conhecimento está a um teclado de distância. Podemos aprender quase qualquer coisa sem precisar conhecer pessoalmente quem sabe. Podemos ensinar alguém que está do outro lado do mundo. Podemos encontrar, em poucos minutos, informações que antes levariam anos para chegar até nós.
Isso é extraordinário.
Naquele tempo, conhecimento era poder justamente porque não circulava. Quem sabia guardava. Quem não sabia precisava daquele que sabia. Quase cinquenta anos depois, a tecnologia mudou radicalmente a distância entre uma pergunta e uma resposta. Mas uma coisa continua dependendo de nós: o que fazemos quando descobrimos alguma coisa? Guardamos para garantir nosso lugar ou colocamos à disposição de outros para que possam ir além?
Na semana passada meu filho me mandou um vídeo muito interessante que contava esta história:
No ano 79, o Vesúvio entrou em erupção e soterrou uma cidade chamada Herculano. Entre as coisas atingidas estava uma biblioteca, a Vila dos Papiros, com centenas de rolos de papiro.
O calor carbonizou os rolos.
Quando foi descoberta, tínhamos diante de nós uma biblioteca inteira da Antiguidade, mas não conseguíamos ler seus livros. Se tentássemos desenrolá-los, provavelmente os destruiríamos.
Durante quase dois mil anos aquele conhecimento permaneceu ali. Preservado e, ao mesmo tempo, inacessível.
Até que a tecnologia começou a encontrar uma maneira de olhar para dentro daqueles cilindros sem precisar abri-los.
Tomografia, reconstrução tridimensional, computação, inteligência artificial. Gente de diferentes áreas trabalhando sobre um problema que parecia pertencer a especialistas.
E aqui está a parte da história que tanto me interessou.
Em 2023, os pesquisadores abriram os dados para o mundo. Disponibilizaram imagens tridimensionais dos papiros, ferramentas e parte da tecnologia que haviam desenvolvido.
Em vez de guardar o problema e o possível prestígio de resolvê-lo, fizeram o contrário: compartilharam o que tinham e convidaram outras pessoas a ajudar.
E um estudante encontrou uma palavra. Outro pesquisador chegou a resultados semelhantes. Programadores aprimoraram os algoritmos. Especialistas em papirologia ajudaram a interpretar os textos. Físicos trabalharam nas imagens.
Cada um acrescentou alguma coisa.
E foi assim que a Vila dos Papiros começou, finalmente, a ser decifrada.
É difícil não pensar que existe aí uma lição que vai muito além da tecnologia.
O problema deixou de pertencer a uma pessoa.
E a solução passou a pertencer a todos.
A grande diferença entre acumular conhecimento e fazê-lo circular é que um conhecimento guardado pode preservar o poder de quem o possui. Um conhecimento compartilhado pode aumentar o poder de muitas pessoas.
É claro que existem conhecimentos que precisam de cuidado, limites, responsabilidade. Mas há uma diferença entre proteger um conhecimento e escondê-lo para preservar uma posição de poder.
Quando o conhecimento circula, ele não apenas informa. Dá às pessoas condições de perguntar, discordar, criar alternativas e participar das decisões que afetam suas vidas.
Penso nisso quando olho para a crise climática, por exemplo.
Não faltam informações sobre o que está acontecendo com o planeta. O que ainda falta é que esse conhecimento circule de maneira compreensível e acessível, e que mais pessoas tenham condições reais de participar das decisões que dizem respeito ao futuro de todos.
As decisões capazes de afetar rios, florestas, cidades, oceanos e modos de vida estão concentradas nas mãos de governos, grandes empresas e grupos econômicos. Enquanto isso, a maior parte das pessoas recebe os efeitos dessas decisões, muitas vezes sem sequer compreender como elas foram tomadas.
E aqui está uma das formas mais sofisticadas de poder: não apenas decidir pelos outros, mas restringir o acesso ao conhecimento que permitiria aos outros compreender, questionar e participar dessas decisões.
É o velho conhecido senhor do meu primeiro emprego, só que agora em uma escala assustadoramente maior. Quanto menos gente souber, mais difícil será questionar quem sabe.
Compartilhar conhecimento é muito mais do que ensinar alguma coisa a alguém.
É distribuir possibilidades.
É permitir que uma ideia encontre outra, que uma descoberta seja aperfeiçoada, que uma resposta encontre novas perguntas.
É fazer com que aquilo que aprendemos não termine em nós.
O senhor do banco se protegia tornando único dono de alguma coisa que os outros precisavam. O mercado, sempre o mercado… rsrsrsrs.
Mas transformar conhecimento em instrumento de proteção individual talvez seja uma das maneiras mais pobres de utilizá-lo.
Conhecimento é uma dessas raras coisas que, quando divididas, não diminuem. Aumentam.
Uma pessoa ensina outra. A outra modifica. Uma terceira acrescenta alguma coisa. E, pouco a pouco, aquilo que começou com alguém já não pertence a ninguém em particular.
Pertence a todos.
É aí que a evolução encontra seu sentido mais amplo: não naquilo que uma pessoa consegue descobrir sozinha, mas naquilo que muitas pessoas conseguem fazer com o que uma delas descobriu.
Afinal, nenhuma grande transformação da humanidade aconteceu porque alguém resolveu guardar para si aquilo que sabia.
A humanidade avança quando o conhecimento deixa de ser um lugar de poder de poucos e se transforma em possibilidade para muitos.
Por isso, lutar pelo direito ao conhecimento sobre todas as coisas é também lutar por uma humanidade capaz de escolher melhor os seus próprios caminhos.