Na semana passada, vi no Instagram um post engraçado sobre aquela gaveta que toda casa tem.
Uma gaveta que abriga tudo aquilo que não merece ficar sobre os móveis, mas também não encontrou destino melhor.
A tesoura de cabo amarelo? Está lá.
O comprovante de pagamento do gás de agosto de 2024? Está lá.
O fio do carregador antigo do celular da filha que não mora mais em casa? Está lá.
Pilhas usadas, que ninguém sabe se estão usadas. Pilhas novas, que ninguém sabe se estão novas. Cadeado sem chave, uma ventosa, o manual do espremedor de frutas que já estragou faz tempo, uma mola pequena, uma peça de Lego, três tampas de caneta, uma receita médica de 2018. Um lápis roxo e outro verde, os dois sem ponta. Tudo está lá!
É quase um buraco negro doméstico. Lá cabe de tudo.
A sua casa também tem uma, não tem?
Colocamos as coisas ali porque, na maioria das vezes, não sabemos exatamente o que fazer com elas. Não sabemos onde guardar, não queremos jogar fora ou simplesmente não precisamos resolver aquilo naquele momento.
Depois eu vejo. Quem sabe um dia eu precise disso? E assim empurramos para a gaveta.
É como se essas gavetas fossem uma espécie de arquivo das decisões adiadas.
A gaveta pode ser justamente isso: um hiato. Um pequeno território onde o tempo parece ficar suspenso.
O que está ali não pertence exatamente ao presente, mas também não foi definitivamente entregue ao passado. Fica à espera de alguma coisa: uma decisão, uma necessidade, uma lembrança, uma ocasião.
Não pude deixar de pensar que talvez essa gaveta seja apenas a forma mais visível de um comportamento que também praticamos com a própria vida.
Como se tivéssemos, por dentro, uma gaveta semelhante. Só que imaginária.
E nela deixamos aquilo que ainda não sabemos onde colocar: conversas que precisam acontecer, decisões que precisam ser tomadas, projetos que gostaríamos de começar, relações que já não sabemos exatamente o que são.
Coisas que não resolvemos, mas também não abandonamos.
Que não pertencem mais inteiramente ao presente, mas que ainda não conseguimos entregar ao passado.
Ficam ali, em suspensão.
Não necessariamente por negligência. Também não por desorganização. Na maioria das vezes, por ainda não estarmos prontos para mexer com aquilo.
Algumas dessas coisas pertencem ao modo “vai que”.
Quantas coisas mantemos na vida pelo mesmo motivo?
Vai que eu precise dessa relação.
Vai que esse projeto ainda dê certo.
Vai que eu queira voltar.
Vai que um dia eu use.
Vai que eu me arrependa.
Há outras que pertencem ao campo da escolha. E escolher implica perdas.
Quando decido que algo fica, outras coisas ficam de fora. Quando decido jogar fora, abro mão da possibilidade de precisar daquilo amanhã. Quando decido terminar, perco a possibilidade de continuar. Quando escolho um caminho, renuncio aos outros.
Outras ainda pertencem ao campo da memória: histórias, vínculos, versões de nós mesmos que não sabemos se estamos prontos para deixar para trás.
Algumas lembranças permanecem não porque ainda façam sentido no presente, mas porque nos ligam a alguém, a algum lugar, a uma época ou a quem fomos.
Despedir-se delas pode parecer, por um instante, uma forma de apagar também aquilo que representam.
Se eu deixar isso para trás, o que de mim vai junto?
Por isso, algumas histórias permanecem tanto tempo. Não porque ainda precisemos vivê-las, mas porque ainda não sabemos se estamos prontos para deixá-las ir.
E ainda há outras que permanecem por uma razão menos evidente: a energia. Ou, melhor dizendo, a falta dela.
Permanecem porque não tivemos energia para fazer o movimento necessário.
Há mudanças que sabemos que já deveriam ter começado. Mas saber não é o mesmo que conseguir.
Toda mudança exige alguma disponibilidade interna. É preciso atenção, disposição, coragem. Às vezes, até mesmo um pouco de esperança.
E há momentos da vida em que estamos ocupados demais tentando dar conta do que já existe para conseguir mexer no que precisa mudar.
Então adiamos. Não por falta de consciência, mas por falta de energia.
O mais interessante é não transformar nenhuma dessas razões em vilã. A gaveta existe justamente porque somos humanos: precisamos de tempo, preservamos possibilidades, tememos perdas, carregamos histórias e não damos conta de tudo a qualquer momento.
Não se trata, portanto, de defender aquela versão simplificada do desapego segundo a qual bastaria esvaziar a casa para colocar a vida em ordem. Algumas coisas precisam mesmo de tempo. Precisam de distância, de maturação, de novas informações. Nem toda espera é adiamento.
Importante é perceber a diferença entre aquilo que ainda está esperando o seu tempo e aquilo que já sabemos que precisa ser resolvido, mas continuamos empurrando para depois.
A espera pode ser necessária. O problema é quando transformamos a espera em destino. Quando o provisório se torna definitivo.
O problema não é ter uma gaveta bagunçada. O problema começa quando ela se torna o único lugar possível para aquilo que não conseguimos enfrentar.
A pergunta pode ser simples: isto ainda precisa de tempo ou eu estou apenas adiando?
E, se em algum momento percebermos que já não queremos adiar, talvez seja hora de abrir a gaveta.
Sem método milagroso. Sem promessa de uma vida mais leve em cinco passos. Apenas a possibilidade de transformar o “ainda não” em alguma coisa: uma escolha, um começo, uma despedida.
Abrir.
Olhar.
Mexer.
Ver se a tesoura não precisa ser afiada.
Jogar fora a receita de 2018.
Procurar uma chave para o cadeado.
Testar as pilhas e separá-las.
Apontar os lápis e dar para quem precisa.
E, quem sabe, alegremente, encontrar no fundo alguma coisa que nem lembrávamos que tínhamos e que precisamos de verdade.
Arrumar uma gaveta não é só colocar cada coisa no seu lugar. É, antes de tudo, decidir quais coisas ainda precisam de um lugar.


