Presidente preferiu conceder entrevista a podcast, enquanto Flávio Bolsonaro desistiu poucas horas antes do programa; decisões judiciais também alteraram as condições do debate
A última quinta-feira antes das eleições presidenciais terminou de uma maneira bastante diferente da prevista. O debate da TV Globo, que seria o último encontro entre candidatos à Presidência antes do primeiro turno, foi cancelado após uma sucessão de desistências e decisões judiciais que modificaram as condições inicialmente estabelecidas para o programa.
Lula prefere o Flow
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia informado à emissora que não participaria do debate. Em vez disso, decidiu conceder uma entrevista ao Flow Podcast, marcada para começar às 20h45, pouco antes do horário previsto para o confronto na televisão.
A decisão partiu do próprio presidente e não foi consenso entre seus aliados. Segundo a CNN Brasil, integrantes da campanha defendiam sua participação, enquanto outro grupo avaliava que o formato poderia transformá-lo no principal alvo dos demais candidatos.
Durante a entrevista ao Flow, Lula voltou a explicar sua decisão. “Acho que esses debates não produzem nada”, afirmou. Para o presidente, o atual formato dos debates eleitorais brasileiros deixou de proporcionar uma discussão produtiva entre os candidatos.
A opção pelo podcast também colocou em evidência uma transformação na comunicação política brasileira. Em vez de participar de um dos eventos mais tradicionais da televisão aberta durante uma eleição presidencial, Lula escolheu uma conversa de longa duração transmitida pela internet.
Assista como foi:
Flávio se preparou para o debate, mas desistiu horas antes
A ausência de Lula inicialmente não impediria a realização do programa. Flávio Bolsonaro (PL), que disputa a Presidência, havia confirmado sua participação e chegou a se preparar para o confronto.
Durante o dia, a CNN informou que Flávio treinava com assessores para responder a temas considerados sensíveis para sua campanha e pretendia apresentar uma postura mais moderada e propositiva durante o programa.
O cenário mudou no início da noite.
Por volta das 19h20, Flávio anunciou que também não participaria.
Decisões judiciais mudaram debate de última hora
Outra disputa envolveu a participação de Renan Santos (Missão).
Depois de decisões anteriores contrárias à sua presença, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou na noite desta quinta-feira que a Globo incluísse Renan no programa.
A decisão foi tomada poucas horas antes do horário previsto para o início do debate e alterou novamente a composição do encontro.
Com Lula ausente, Flávio Bolsonaro desistindo da participação e mudanças determinadas judicialmente às vésperas da transmissão, a Globo decidiu cancelar o programa.
“Flávio desmaiou”?
Em meio à repercussão da desistência, uma expressão também provocou confusão nas redes.
Uma coluna de Josias de Souza, publicada pelo UOL, utilizou a expressão “Flávio ‘desmaia’ antes do debate”. O termo foi empregado de maneira figurada para comentar a desistência do candidato e não significa que Flávio Bolsonaro tenha sofrido um desmaio nesta quinta-feira.
O jogo de palavras remete a um episódio real ocorrido em 2016, quando Flávio disputava a Prefeitura do Rio de Janeiro. Na ocasião, ele passou mal durante um debate da Band, precisou ser amparado por outros candidatos e deixou o programa.
Uma eleição sem o último grande debate
O episódio também chama atenção para as mudanças na forma como candidatos se comunicam com os eleitores.
Durante décadas, o último debate da televisão aberta foi um dos principais acontecimentos das campanhas presidenciais brasileiras. Em 2026, o encontro acabou substituído por uma combinação de entrevistas, podcasts, transmissões digitais e manifestações individuais dos candidatos.
No caso de Lula, a escolha pelo Flow colocou um podcast transmitido pela internet diretamente no espaço que tradicionalmente seria ocupado pelo debate televisionado.
A decisão não permite, por si só, concluir qual formato produz maior efeito eleitoral. Mas evidencia uma disputa cada vez mais clara pela atenção do público entre os tradicionais meios de comunicação e os novos ambientes digitais, justamente nos últimos dias antes da votação.