Debates presidenciais deveriam servir para que os eleitores conhecessem as propostas dos candidatos e compreendessem os projetos de país em disputa. Mas, pelo visto, transformaram-se em campeonatos de provocações, nos quais vale mais uma frase de efeito do que uma resposta consistente.
Em artigo publicado nesta segunda-feira (19), intitulado “Debate (sic) ocorreu e, como previsto, deu lama. Pronto, estão satisfeitos?”, o jornalista Leonardo Sakamoto questionou o próprio formato dos debates eleitorais, que continuam privilegiando o espetáculo em detrimento da informação. O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no domingo (18), na Band, é um exemplo disso. Os candidatos se enfrentam, as redes sociais se abastecem de cortes e memes, as emissoras conquistam audiência. E o eleitor? Continua esperando respostas.
O problema é ainda mais grave quando mentiras são utilizadas como estratégia política. Enquanto jornalistas se limitam a controlar o cronômetro, informações falsas podem circular diante de milhões de espectadores sem qualquer contestação. E não estamos falando apenas de opiniões divergentes. As checagens realizadas pelo Aos Fatos identificaram afirmações falsas, imprecisas e distorcidas durante o confronto, evidenciando a necessidade de mecanismos que permitam ao público distinguir fatos de discursos de campanha.
Não por acaso, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em nota oficial publicada nesta segunda-feira (19), criticou o formato do debate da Band e cobrou mudanças nas regras, defendendo uma mediação jornalística mais ativa, respostas objetivas dos candidatos e intervenções diante de informações comprovadamente falsas. Para a entidade, o compromisso com a verdade e o direito da população à informação não podem ficar subordinados à audiência e aos interesses comerciais das emissoras.
E um abaixo-assinado na plataforma Change.org, criado por Rafael Brito nesta segunda-feira (19), já reunia centenas de milhares de assinaturas nesta terça-feira (20) e cobra que a Globo implemente a checagem de fatos em tempo real no próximo debate presidencial, marcado para sexta-feira (23). A proposta é que profissionais especializados verifiquem as declarações dos candidatos durante a transmissão, permitindo que os espectadores identifiquem informações falsas ou distorcidas sem precisar esperar pelo encerramento do programa.
E não estamos falando de algo impossível. O Aos Fatos realizou a checagem em tempo real do debate da Band, publicando os resultados à medida que as apurações eram concluídas. A Agência Lupa também verificou ao vivo a entrevista de Lula e a entrevista de Flávio Bolsonaro à TV Globo. A própria Band anunciou uma parceria com a Lupa para ampliar a verificação durante sua cobertura eleitoral. O que ainda falta é fazer com que essas informações cheguem de maneira clara e integrada ao público que acompanha a transmissão.
É claro que a checagem de fatos exige critérios transparentes, rigor jornalístico e tempo para verificar afirmações complexas. Nem tudo pode ser confirmado instantaneamente. Mas isso não justifica a ausência de mecanismos de verificação. Pelo contrário, reforça a necessidade de desenvolver formatos capazes de informar ao espectador o que já foi comprovado, o que está sendo investigado e o que não pode ser verificado naquele momento.
Mas a mudança precisa ir além da checagem. É necessário rever o próprio formato dos debates, garantindo uma mediação jornalística ativa, perguntas que exijam respostas concretas e mecanismos que impeçam a desinformação de circular livremente.
E aqui cabe uma reflexão que considero fundamental: será que o confronto direto entre candidatos é sempre a melhor maneira de informar a população?
Eu defendo que as entrevistas individuais, conduzidas por jornalistas preparados, deveriam ocupar um espaço muito maior nas campanhas eleitorais. Especialmente quando não existem condições de garantir a verificação das informações ou quando um dos participantes utiliza sistematicamente provocações, ataques pessoais e afirmações falsas para desviar das perguntas.
O contraste entre o debate da Band, no domingo (18), e a entrevista de Lula ao SBT, realizada na segunda-feira (19), ajuda a compreender essa diferença. Enquanto o primeiro foi marcado por provocações, interrupções e disputas pessoais, a sabatina conduzida pelas jornalistas Basília Rodrigues, Marina Demori e Simone Queiroz ofereceu condições para uma conversa mais aprofundada sobre questões de interesse público. Em vez de disputar a palavra com o adversário, o presidente precisou responder diretamente às perguntas das entrevistadoras.

Na ocasião, o próprio Lula criticou o formato dos debates, afirmando que eles já não servem para discutir o Brasil. “Empobreceu o debate, na verdade apodreceu”, declarou ao SBT, lembrando os confrontos eleitorais dos quais participou ao longo de sua trajetória política.
A diferença entre os dois programas reforça uma questão fundamental: não é necessário colocar dois candidatos frente a frente para que exista contraditório. Em uma entrevista bem conduzida, jornalistas podem insistir em perguntas não respondidas, confrontar declarações com dados verificáveis e exigir explicações sobre propostas e contradições. E isso vale para qualquer candidato, independentemente de sua posição política.
Entrevistas também precisam de rigor, independência editorial e checagem de fatos. Mas oferecem uma possibilidade que os debates atuais frequentemente desperdiçam: substituir a disputa por quem consegue provocar mais pelo compromisso de esclarecer o que realmente importa à população.
Não se trata de impedir o confronto político. Pelo contrário. Democracia pressupõe divergência, contraditório e disputa de ideias. Mas há uma diferença enorme entre confrontar projetos de sociedade e transformar uma eleição presidencial em um espetáculo de ataques pessoais.
A televisão não pode se eximir de sua responsabilidade na formação da opinião pública. Afinal, debates e entrevistas eleitorais não são apenas produtos de entretenimento. São espaços de informação e formação política.
Se queremos eleitores capazes de fazer escolhas conscientes, precisamos de programas que esclareçam, em vez de confundir.
Porque, no fim das contas, a pergunta que deveria importar não é quem venceu o debate, mas o que a população conseguiu aprender com ele.