sexta-feira, 16 outubro , 2026

Flávio Bolsonaro defende escolas cívico-militares, enquanto Lula prioriza ensino integral; confira propostas dos presidenciáveis para a educação

por Duda Amaral
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Escolas Brasileiras

As propostas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a educação brasileira apresentam diferenças na forma de enfrentar os desafios da rede pública, da formação profissional e do ensino superior. Enquanto o presidente e candidato à reeleição pretende ampliar as matrículas em tempo integral e fortalecer programas de permanência escolar, o senador aposta na expansão das escolas cívico-militares e em mudanças na relação entre educação, famílias e mercado de trabalho.

A educação aparece com destaque nos planos de governo dos dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. Apesar de compartilharem temas como alfabetização, qualificação profissional e conectividade, as propostas indicam prioridades distintas para a próxima gestão.

Lula apresenta a educação como instrumento de desenvolvimento econômico, inclusão e mobilidade social. Entre as medidas previstas estão a construção de creches e pré-escolas, a valorização dos professores, a ampliação do ensino integral e o fortalecimento do Pé-de-Meia.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, associa a educação ao fortalecimento das famílias e à preparação dos jovens para o mercado de trabalho. O plano inclui a ampliação das escolas cívico-militares, a criação de vouchers para acesso a creches privadas quando faltarem vagas públicas e a reformulação do ensino técnico em parceria com empresas.

EDUCAÇÃO INFANTIL E ALFABETIZAÇÃO

Na educação infantil, os dois candidatos apresentam propostas para ampliar o acesso às creches e melhorar a aprendizagem das crianças, mas adotam caminhos diferentes.

Flávio Bolsonaro pretende priorizar o método fônico na alfabetização, abordagem que trabalha a associação entre letras e sons. Para a primeira infância, o plano prevê mais vagas em creches de período integral, alimentação de qualidade e atividades voltadas ao desenvolvimento infantil.

Quando não houver disponibilidade na rede pública, a proposta é conceder um voucher-creche para que as famílias possam matricular as crianças em instituições privadas credenciadas. O documento, entretanto, não especifica a origem dos recursos que financiariam esse benefício.

Lula estabelece como objetivo alcançar, até 2030, a alfabetização de 80% das crianças na idade adequada, por meio do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

Na infraestrutura, o presidente pretende dar continuidade às obras de 3.562 creches e pré-escolas distribuídas por 2.360 municípios, dentro do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC). A proposta também prevê recursos para estados e municípios e a retomada de construções educacionais que ficaram paralisadas.

FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA

O modelo de distribuição de recursos para a educação também diferencia os planos apresentados pelos candidatos.

Flávio Bolsonaro propõe vincular os repasses orçamentários destinados a estados e municípios ao cumprimento de metas de aprendizagem. A ideia é associar parte do financiamento aos resultados educacionais alcançados pelas redes de ensino.

Lula, por outro lado, pretende manter a política de reajuste do Piso Salarial Profissional Nacional do Magistério, referência obrigatória para o vencimento inicial da carreira docente.

As propostas refletem abordagens distintas para a gestão dos recursos públicos: de um lado, a ênfase no desempenho escolar como critério para repasses; de outro, a continuidade de políticas de valorização profissional e financiamento da educação.

REFORÇO ESCOLAR E APRENDIZAGEM

Para enfrentar dificuldades de aprendizagem, Lula propõe instituir uma estratégia nacional permanente de recomposição e aceleração do ensino, com atenção especial aos anos finais do ensino fundamental, do 6º ao 9º ano, e ao ensino médio.

O plano também prevê ampliar o catálogo da plataforma digital MEC Livros e incorporar novos idiomas ao MEC Idiomas, com o objetivo de oferecer acesso gratuito a conteúdos literários e ao aprendizado de línguas estrangeiras.

Flávio Bolsonaro apresenta o Programa Acolher como alternativa para apoiar estudantes com dificuldades. A iniciativa prevê remunerar alunos com bom desempenho para que eles ofereçam reforço escolar aos colegas que precisam de ajuda.

A proposta busca estimular a colaboração entre estudantes e aproveitar o conhecimento de quem apresenta melhores resultados acadêmicos.

ESCOLAS CÍVICO-MILITARES E PAPEL DAS FAMÍLIAS

A organização das escolas é um dos pontos de maior contraste entre os candidatos.

Flávio Bolsonaro defende uma instituição de ensino voltada à transmissão de conhecimentos e contrária ao que classifica como doutrinação político-partidária. O plano também atribui papel central às famílias na formação dos valores de crianças e adolescentes.

Nesse contexto, o candidato propõe ampliar as escolas cívico-militares, modelo que marcou a política educacional do governo de seu pai, Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.

Outra medida prevista é a aplicação efetiva da política nacional de atendimento a estudantes com altas habilidades.

Lula, por sua vez, concentra suas propostas na ampliação do acesso, no fortalecimento da estrutura educacional e em políticas de inclusão e permanência dos alunos. A expansão do ensino integral e a melhoria das condições de aprendizagem estão entre os principais eixos de seu programa.

FORMAÇÃO E VALORIZAÇÃO DOS PROFESSORES

A formação docente também aparece nos dois planos, embora com diferentes níveis de detalhamento.

Lula pretende fortalecer iniciativas para atrair estudantes para os cursos de licenciatura e estimular o ingresso na carreira. Entre as medidas está a continuidade do Pé-de-Meia Licenciaturas.

O candidato também propõe reforçar o programa Bolsa Mais Professores, com a intenção de atrair e manter profissionais nas redes públicas de educação básica, especialmente em áreas que enfrentam escassez de docentes.

Flávio Bolsonaro defende a formação continuada dos professores com base em evidências científicas. O plano, porém, não apresenta detalhes sobre como a capacitação seria organizada ou financiada.

EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL

A ampliação da jornada escolar está entre as prioridades do plano de Lula. A proposta é expandir a educação em tempo integral para todas as etapas e modalidades da educação básica.

Nesse modelo, os estudantes permanecem na escola por pelo menos sete horas diárias ou 35 horas semanais. Entre 2023 e 2025, o país registrou 1,8 milhão de novas matrículas nessa modalidade, e a meta do candidato é avançar além do patamar de 25,8% das matrículas da educação básica.

Flávio Bolsonaro também apoia a ampliação do tempo de permanência dos estudantes nas escolas. A proposta prevê atividades durante as férias, incluindo esportes, artes, música e literatura, para manter os espaços escolares disponíveis mesmo nos períodos de recesso.

O candidato também pretende recorrer a vouchers educacionais para permitir matrículas em instituições privadas quando não houver vagas suficientes na rede pública.

ENSINO MÉDIO E QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL

No ensino médio, Lula pretende aperfeiçoar o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro destinado a estudantes dessa etapa da rede pública inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).

Criada em 2024, a iniciativa alcançou 7,3 milhões de estudantes em todo o Brasil, segundo os dados apresentados no material de referência. O programa busca incentivar a permanência na escola e a conclusão dos estudos.

O candidato também propõe ampliar as oportunidades de formação técnica de nível médio, conectando a educação profissional às transformações do mercado de trabalho.

Uma das estratégias é expandir a rede dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. O plano prevê a criação de 111 novos institutos, com campi em 106 municípios de diferentes estados, priorizando o interior, as periferias urbanas e as localidades com pouca oferta de cursos técnicos.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, pretende aproximar a formação profissional das necessidades das empresas e da indústria. A proposta prevê parcerias com o setor produtivo para financiar bolsas e cursos de qualificação técnica, com foco em inovação e empregabilidade.

A intenção é preparar os jovens para ocupar vagas que exigem competências específicas e facilitar a transição entre a escola e o mercado de trabalho.

TECNOLOGIA E CONECTIVIDADE NAS ESCOLAS

A inclusão digital também faz parte das propostas dos dois candidatos.

Flávio Bolsonaro pretende priorizar o acesso a computadores, tablets, internet e robótica nas escolas. O plano inclui a preparação dos estudantes para utilizar novas tecnologias, entre elas a inteligência artificial, além de desenvolver conhecimentos relacionados a finanças pessoais e empreendedorismo.

Lula propõe universalizar a conectividade das escolas brasileiras, com internet de qualidade e ações voltadas à cidadania digital. A expansão deverá contar com recursos do Novo PAC.

A meta apresentada pelo presidente parte de um cenário em que 75% das escolas possuem conectividade considerada adequada, com a intenção de ampliar progressivamente essa cobertura.

ENSINO SUPERIOR E FINANCIAMENTO ESTUDANTIL

No ensino superior, Flávio Bolsonaro propõe transferir a gestão da área do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A justificativa é aproximar as universidades das atividades científicas e tecnológicas.

O candidato também defende um novo modelo de financiamento estudantil baseado no Empréstimo Contingente à Renda. Nesse sistema, o pagamento da dívida começaria após a entrada do estudante no mercado de trabalho, com parcelas proporcionais aos rendimentos e prazo mais longo para quitar o financiamento.

A proposta se aproxima do princípio de vincular a capacidade de pagamento à renda obtida pelo profissional após a formação.

Lula pretende continuar destinando recursos ao custeio e à infraestrutura das universidades federais, incluindo laboratórios, restaurantes universitários, salas de aula e novas instalações.

Entre os projetos citados estão a implantação de uma unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará, a criação da Universidade Indígena e o desenvolvimento da Universidade Federal do Esporte, ambas previstas para Brasília.

O plano também contempla a expansão dos hospitais universitários vinculados à rede HU Brasil e a articulação com o programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde. A proposta busca ampliar a oferta de atendimentos especializados gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo exames, consultas e cirurgias.

PESQUISA CIENTÍFICA E PÓS-GRADUAÇÃO

As propostas para ciência e tecnologia também apresentam diferenças de orientação.

Flávio Bolsonaro defende aproximar a formação acadêmica das necessidades de inovação e do mercado de trabalho. O plano prevê uma Política Nacional de Formação de Talentos, voltada à identificação de habilidades dos estudantes e ao desenvolvimento de competências consideradas estratégicas para o futuro.

O candidato também propõe direcionar os recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para pesquisas com impacto produtivo, inovação e transferência de tecnologia. Para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a proposta é fortalecer cursos de pós-graduação conectados às demandas empresariais.

Lula pretende ampliar os investimentos na pós-graduação, especialmente em áreas e regiões com menor acesso a essa formação. O plano também prevê continuidade dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação para estimular o desenvolvimento econômico.

A estratégia inclui aproximar universidades, empresas e setores produtivos, além de apoiar a modernização industrial e a qualificação de pequenas e médias empresas.

O HISTÓRICO DAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS

As propostas dos candidatos também podem ser analisadas à luz das medidas adotadas em governos anteriores.

No terceiro mandato de Lula, o Pé-de-Meia se tornou uma das principais iniciativas educacionais. Criado em 2024, o programa oferece incentivos financeiros a estudantes do ensino médio público para estimular a permanência e a conclusão dos estudos.

O presidente também declarou recentemente que pretende criar uma versão universitária do benefício caso seja reeleito, embora a iniciativa não esteja detalhada no plano de governo apresentado.

Na alfabetização, o Brasil alcançou, em 2025, o índice de 66% de crianças aptas a ler e escrever ao final do segundo ano do ensino fundamental, superando a meta estabelecida para aquele ano.

A pandemia de covid-19, por sua vez, deixou consequências importantes para a educação brasileira. Em novembro de 2020, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos estavam sem acesso à educação no país, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O fechamento prolongado das escolas também agravou as dificuldades de alfabetização. Estudos citados no material de referência apontaram que o percentual de crianças de até 8 anos que não sabiam ler e escrever chegou a 30% em 2023, o dobro do registrado em 2019.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, uma das principais iniciativas para a área foi o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares. O modelo combinava a participação das secretarias estaduais de Educação na gestão pedagógica com a atuação de militares em aspectos disciplinares e administrativos, conforme a organização adotada em cada unidade.

No ensino superior, o governo Bolsonaro anunciou, em 2019, um bloqueio de 30% das verbas discricionárias das universidades federais, medida que gerou críticas e mobilizações no setor.

A expansão das universidades federais também apresenta diferenças entre as gestões. De acordo com os números reunidos no material de referência, Lula criou oito universidades em seu primeiro mandato, seis no segundo e três no terceiro. Durante o governo Bolsonaro, foi criada uma universidade federal.

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE OS PLANOS?

A comparação mostra que Lula prioriza a ampliação da educação integral, o fortalecimento da rede pública, a valorização dos professores e a continuidade de programas de assistência estudantil. O candidato também pretende expandir a infraestrutura educacional e os investimentos em ciência e tecnologia.

Flávio Bolsonaro concentra suas propostas na expansão das escolas cívico-militares, na participação das famílias na formação dos estudantes e na aproximação entre escolas, universidades e mercado de trabalho. O plano também inclui vouchers para ampliar o acesso à educação privada quando faltarem vagas públicas.

Na prática, a escolha entre os projetos envolve diferentes visões sobre o papel do Estado na educação, os critérios de financiamento, a organização das escolas e a relação entre formação acadêmica e desenvolvimento econômico.
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Com informações de Agência Brasil

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