Eleições somam mais de mil denúncias contra a Meta, que censura os críticos da ultradireita. Debates reais ficam à margem. Organizações lançam manual de três estratégias para jornalistas e perfis progressistas ampliarem seu conteúdo sem as travas das big techs
Nos últimos meses, jornalistas, sindicatos, veículos independentes e movimentos sociais têm denunciado uma escalada de remoções de conteúdo, bloqueios de perfis e restrições de alcance nas grandes plataformas digitais. Somente a organização CTRL+Z reuniu mais de mil denúncias envolvendo as redes da Meta. Decisões judiciais controversas e algoritmos opacos estão, na prática, limitando a circulação de informações e silenciando vozes críticas. E quanto mais perto do dia de votação nas eleições, essas restrições aumentam.
O problema não é apenas a desativação arbitrária. Todos os dias, influenciadores, organizações e governos têm suas contas canceladas ou seu engajamento reduzido por decisões unilaterais das grandes plataformas, sem aviso e sem recurso. Ocupar essas mídias é necessário, mas depender exclusivamente delas é um risco.
Os algoritmos não são neutros. Operam pelas diretrizes comerciais das próprias plataformas e tendem a engajar o discurso polêmico, empurrando temas complexos para as margens e comprometendo a qualidade do debate público. Quando uma única empresa pode decidir o que milhões de pessoas podem ver, compartilhar ou dizer, a própria democracia fica vulnerável. Diante desse cenário, não basta reagir caso a caso. É preciso um Plano de Contingência Digital para a
democracia.
A Alquimídia, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao fomento de uma Cultura Digital mais livre, ética e sustentável elaborou com o apoio de coletivos do Fediverso uma proposta de um Plano de Contingência Digital com o objetivo de reunir tecnologias de comunicação abertas e boas práticas para que quem defende a democracia não fique refém de infraestruturas que não controla. A base desse plano é a autonomia: a capacidade de governos, instituições, coletivos e cidadãos gerirem sua própria infraestrutura tecnológica, mantendo controle pleno sobre seus dados, comunicações e identidade digital, sem depender de plataformas privadas centralizadas. Essa independência é estratégica e garante soberania informacional, continuidade dos serviços e proteção contra mudanças unilaterais de regras ou políticas de terceiros. Já existe tecnologia livre, de código aberto e descentralizada, construída por comunidades ao redor do mundo, que permite criar redes sociais, sistemas de mensagens e plataformas de compartilhamento de arquivos com total soberania.
Para colocar esse plano em prática, existe uma estratégia simples e poderosa chamada POSSE — uma abreviação de Publish on your Own Site, Syndicate Elsewhere (Publique no seu Próprio Site, Distribua em Outro Lugar). A ideia é publicar o conteúdo primeiro no seu próprio site e depois compartilhar em plataformas de mídia social com links para as postagens originais. Assim, você mantém o controle sobre sua produção e sua identidade, enquanto usa as redes comerciais apenas como canais de distribuição. Se uma plataforma fechar sua conta ou bloquear seu conteúdo, seu site continua no ar, e sua comunidade pode continuar acessando o que você produz. Esse princípio vale para comunicação interna de organizações com protocolos como XMPP ou Matrix, compartilhamento de arquivos no Nexcloud, reuniões virtuais no Jitsi e até mesmo a criação de redes sociais próprias, integradas a um ecossistema aberto conhecido como Fediverso, a Web Social Aberta.
A estratégia se resume a três movimentos: ocupe as plataformas fechadas, preserve nas mídias abertas e organize-se nas redes seguras. Isso significa estar presente onde o público está, mas nunca depender exclusivamente desses espaços. O conteúdo publicado nas mídias sociais abertas deve ser o espelho do que vai para as fechadas, e todo canal deve divulgar sua versão nas redes da Web Social Aberta.
Um Plano de Contingência Digital também exige cuidados com a segurança. Senhas fortes e únicas, verificação em duas etapas, backups regulares e comunicações sensíveis criptografadas são práticas essenciais.
A concentração de poder nas mãos de poucas empresas de tecnologia é uma ameaça concreta ao pluralismo, à diversidade e à própria democracia. Não podemos aceitar que o debate público seja mediado por interesses corporativos. A boa notícia é que as ferramentas para a liberdade já existem. Elas são construídas por pessoas, para pessoas, com base em princípios de autonomia, transparência e governança compartilhada. O que falta é difundir esse conhecimento e ocupar esse espaço.
Se você quer entender melhor como dar os primeiros passos rumo à autonomia digital, conhecer as tecnologias disponíveis e se conectar com uma comunidade que luta por uma internet mais livre, ética e sustentável, acesse alquimidia.org. Lá você encontrará guias, tutoriais e formas de participar dessa transformação. Não espere ser silenciado para buscar alternativas. A liberdade se constrói com infraestrutura própria, comunidade organizada e ação coletiva. Um Plano de Contingência Digital não é apenas uma defesa: é um passo essencial para garantir que a democracia sobreviva também no ambiente digital.