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Especialistas alertam para impactos da inteligência artificial sobre a inteligência humana

A expansão acelerada da inteligência artificial no cotidiano brasileiro reacende um debate que vai além da tecnologia e alcança o campo da cognição humana. Em um contexto no qual cuidar do corpo já é compreendido como necessidade básica, especialistas e pesquisas recentes apontam que o cuidado com a inteligência — entendida como a capacidade de pensar criticamente, analisar e criar — precisa ocupar lugar central nas prioridades para os próximos anos.

Dados da Pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), indicam que cerca de 50 milhões de brasileiros já utilizam inteligência artificial generativa. O número representa 32% das pessoas com acesso à internet no país e demonstra o grau de penetração dessa tecnologia na vida cotidiana.

A INTELIGÊNCIA HUMANA DIANTE DA IA GENERATIVA

A incorporação da inteligência artificial generativa ocorre de forma inédita na história das tecnologias digitais. Diferentemente de ferramentas anteriores, esse tipo de sistema não apenas executa tarefas mecânicas, mas participa da construção de raciocínios, sínteses e textos completos. Especialistas alertam que o uso indiscriminado pode gerar efeitos colaterais relevantes sobre a inteligência humana, especialmente quando não há critérios claros de utilização.

O risco não está em “ficar mais burro”, mas em um processo descrito como atrofia cognitiva. A pesquisa Soberania Cognitiva, da White Rabbit, define o fenômeno como “um entorpecimento silencioso, em que a expansão tecnológica convive com o esvaziamento da atenção e do pensamento crítico”.

ATRITO COGNITIVO E DESENVOLVIMENTO DA INTELIGÊNCIA

Comparações frequentes entre a inteligência artificial e a calculadora são consideradas imprecisas por pesquisadores da área. Enquanto a calculadora executa cálculos a partir de uma lógica definida pelo ser humano, a IA generativa pode assumir parte da própria elaboração do raciocínio, reduzindo o chamado atrito cognitivo — elemento fundamental para o aprendizado e o desenvolvimento da autonomia intelectual.

Esse cenário se torna ainda mais desafiador quando se considera o funcionamento do cérebro humano, naturalmente orientado à economia de energia. Ao mesmo tempo, grandes empresas de tecnologia investem em soluções que prometem eliminar esforços mentais, criando um ambiente propício à dependência cognitiva.

CRITÉRIOS PARA PRESERVAR A INTELIGÊNCIA EM 2026

Diante desse contexto, especialistas apontam caminhos possíveis para o uso consciente da inteligência artificial, sem comprometer o desenvolvimento intelectual. Entre as principais recomendações estão a definição de critérios pessoais para o uso da IA, a transparência na adoção dessas ferramentas e a busca por aplicações que ampliem — e não substituam — o valor do trabalho humano.

Estabelecer limites claros sobre o que pode ou não ser delegado à IA ajuda a preservar o núcleo criativo e analítico das atividades profissionais. A transparência, por sua vez, eleva o nível de exigência, estimula a revisão crítica e fortalece a confiança nos processos. Já o uso estratégico da tecnologia deve priorizar a criação de novas possibilidades e soluções relevantes, evitando automatizações vazias de sentido.

COMPETÊNCIAS HUMANAS E INTELIGÊNCIA NO USO DA TECNOLOGIA

O uso responsável da inteligência artificial exige competências humanas consideradas superiores, como pensamento analítico, sistêmico, crítico e criativo. Habilidades relacionais, como comunicação assertiva e escuta ativa, também ganham relevância, assim como a dimensão ética, voltada ao impacto coletivo e de longo prazo das decisões tecnológicas.

Nesse contexto, preservar a inteligência humana é compreendido como um ato de resistência. O antropólogo Michel Alcoforado alerta que “pensar é luxo” e que a desigualdade contemporânea é, cada vez mais, cognitiva. Segundo ele, o diferencial deixou de ser apenas o acesso a bens e passou a ser a capacidade de compreender e interpretar a realidade.

Em um cenário de avanços rápidos da inteligência artificial, especialistas defendem que o desafio para 2026 será manter viva a capacidade humana de pensar, questionar e criar, sem abrir mão da autonomia intelectual construída ao longo de toda a vida.

Com informações da NIC.br

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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