Saúde

Manter os idosos em movimento é essencial para um envelhecimento com saúde no Brasil

Uma especialista em geriatria explica por que o exercício físico é fundamental para a qualidade de vida na terceira idade

O Brasil está envelhecendo — e depressa. Em pouco mais de duas décadas, a parcela da população com 60 anos ou mais quase dobrou, passando de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. E se os dados do IBGE estiverem certos, em 2070, mais de um terço dos brasileiros terá entrado na terceira idade. Mas será que estamos prontos para esse novo Brasil? Viver mais é um avanço, mas viver bem é um desafio que exige planejamento, consciência e ação.

Para especialistas em saúde e longevidade, o segredo não está apenas nos hospitais ou remédios, mas na prevenção — especialmente por meio do movimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que manter-se fisicamente ativo é uma das formas mais eficazes de garantir saúde durante o envelhecimento. E a boa notícia? Atividade física não é sinônimo de maratona: pode começar com passos leves, com prazer, com vínculo.

O CORPO EM MOVIMENTO, A MENTE EM EQUILÍBRIO

De acordo com a médica geriatra Isadora Zaniboni, professora de Medicina da UniSul/Inspirali, os benefícios da prática regular de exercícios na terceira idade vão muito além do físico. “A socialização tem um papel muito importante na saúde do idoso, no nosso processo de envelhecimento”, explica.

Zaniboni destaca estudos que associam o convívio social à redução de doenças cardiovasculares, do estresse e até da mortalidade. Um dos exemplos é a famosa pesquisa de Harvard, que acompanha homens há mais de 80 anos e apontou relações sociais estáveis como fator-chave para o bem-estar na velhice.

O DESAFIO NÃO É SÓ FÍSICO — É SOCIAL

E quando o assunto é colocar isso em prática, a médica é categórica: cada idoso precisa ser respeitado em sua individualidade. “Não adianta mandar um idoso sedentário direto para a musculação. A gente começa com caminhada leve, com prazer, com vínculo. Isso faz diferença”, orienta.

A dica, segundo ela, é transformar o exercício em algo prazeroso, não em obrigação. Atividades em grupo, como dança, pilates ou caminhadas com amigos, fortalecem laços e aumentam a adesão. “Encontrar as amigas no pilates, na dança, nos bailes, tudo isso é estímulo.”

Mas nem todos têm as mesmas oportunidades. E é nesse ponto que entra o papel do poder público. “Na Inglaterra, criaram até o Ministério da Solidão. Isso mostra o quanto a socialização é um fator determinante. Aqui, deveríamos fazer o mesmo”, defende Zaniboni. Para ela, políticas públicas precisam levar em conta realidades diversas: acesso a espaços públicos, tempo para o autocuidado, alimentação saudável e segurança.

MOVIMENTO É AUTONOMIA

Subir escadas, varrer o quintal, caminhar até o mercado — tudo isso conta. Mas é o exercício de força, como a musculação adaptada, que realmente faz diferença para manter a autonomia funcional. “É o que vai garantir que o idoso consiga subir uma escada, carregar compras, ir ao banheiro sozinho”, explica a professora.

Além da mobilidade, os ganhos se estendem à mente. Diversos estudos associam a atividade física regular à redução de demência e melhora da memória, reforçando que o bem-estar não está só nos músculos, mas também na cabeça e no coração.

COMO ESTIMULAR OS IDOSOS A SE MOVIMENTAREM?

Confira orientações práticas para transformar a atividade física em parte da rotina:

  • Comece leve e sem pressa: caminhadas curtas, alongamentos e atividades simples ajudam a criar o hábito.

  • Respeite os gostos pessoais: dança, jardinagem, ioga — o importante é que seja prazeroso.

  • Inclua o fator social: exercícios em grupo criam laços e aumentam o comprometimento.

  • Envolva a família: o apoio de filhos e amigos pode ser decisivo para manter a motivação.

  • Adapte à rotina: tarefas domésticas e deslocamentos a pé também contam.

  • Busque orientação especializada: profissionais com experiência em geriatria são os mais indicados.

  • Fuja das comparações: cada corpo tem seu tempo e limites.

  • Valorize cada conquista: elogios e reconhecimento motivam e aumentam a autoestima.

  • Priorize a constância: 15 minutos por dia valem mais que 1 hora por semana.

Num país que envelhece rapidamente, olhar para o futuro é cuidar do presente. Estimular o movimento na terceira idade é uma forma concreta de promover saúde, reduzir internações, prevenir doenças e, acima de tudo, garantir que os anos a mais venham acompanhados de mais qualidade de vida.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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