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Elson Pereira aponta falhas em projeto urbanístico dinamarquês para o Centro de Florianópolis

A apresentação de um novo estudo urbanístico para o Centro de Florianópolis, baseado em referências internacionais e voltado à valorização dos espaços públicos, mobilidade ativa e convivência urbana, passou a provocar reações no meio acadêmico e técnico. Elaborado pelo escritório dinamarquês Gehl Architects e entregue à Prefeitura, o projeto propõe mais de 70 diretrizes para tornar a região central mais acessível, sustentável e orientada às pessoas.

Modelo global de urbanismo orienta mudanças no Centro de Florianópolis
Foto: Divulgação

A iniciativa, construída em parceria entre o poder público e entidades empresariais, surge como uma tentativa de reposicionar o Centro da capital catarinense diante de desafios históricos, como mobilidade, uso do espaço urbano e desenvolvimento econômico. No entanto, apesar da recepção positiva por parte de gestores e representantes do setor produtivo, o modelo também tem sido alvo de críticas quanto à forma como foi concebido e à leitura da realidade local que embasa suas propostas.

Nesse contexto, o professor e doutor em Urbanismo Elson Pereira tornou pública uma carta direcionada ao urbanista dinamarquês Jan Gehl, fundador do escritório responsável pelo estudo. No documento, o pesquisador reconhece a relevância internacional do trabalho de Gehl, mas aponta preocupações estruturais sobre o projeto desenvolvido para Florianópolis, especialmente no que diz respeito à ausência de uma análise mais profunda das desigualdades urbanas e dos conflitos territoriais da cidade.

A seguir, a carta é apresentada na íntegra:

Prezado Jan Gehl,

Escrevo-lhe com respeito à sua trajetória e à inegável contribuição que o seu
trabalho trouxe ao debate internacional sobre cidades mais humanas,
caminháveis e orientadas às pessoas. É justamente por reconhecer essa
relevância que me sinto na responsabilidade de compartilhar uma preocupação profunda em relação ao projeto desenvolvido por seu escritório para o centro de Florianópolis.

A questão central não é apenas o conteúdo técnico do projeto, que, em muitos aspectos, dialoga com princípios contemporâneos de qualificação do espaço público, mas sobretudo as condições em que ele foi concebido e os limites do diagnóstico que o fundamenta.

Florianópolis é uma cidade marcada por fortes desigualdades sócio-espaciais, por uma histórica captura das políticas urbanas por interesses imobiliários e por conflitos intensos em torno do uso e da apropriação do território. No entanto, esses elementos estruturais não aparecem de forma consistente no projeto, o que sugere que o seu escritório não teve acesso a uma leitura crítica e abrangente da realidade local.

Ao contrário, o processo parece ter sido conduzido a partir de uma agenda
induzida por entidades empresariais; uma escuta restrita a “atores”
selecionados e uma participação pública que não atende aos princípios de
gestão democrática previstos na legislação brasileira.

Isso resultou em um projeto que, ainda que bem-intencionado, opera sobre
uma leitura parcial da cidade.

Alguns pontos merecem destaque:

1. Invisibilização da desigualdade urbana
O projeto trata o centro como espaço homogêneo, desconsiderando conflitos
sociais, usos populares e a presença de grupos historicamente marginalizados. A cidade real, com suas tensões e disputas, é substituída por uma narrativa de harmonia urbana.

2. Recorte territorial seletivo
A escolha de intervir apenas em uma parte do chamado “Centro” ignora a
totalidade do município e, sobretudo, sua dimensão metropolitana. Em uma
cidade profundamente dependente de fluxos pendulares e marcada por
segregação territorial, essa fragmentação compromete a efetividade de
qualquer proposta.

3. Projetos-piloto socialmente enviesados
A definição da “zona escolar” como área prioritária evidencia um problema grave: a concentração de investimentos em áreas com presença significativa
de escolas privadas, enquanto as principais escolas públicas, que atendem
grande parte da população, permanecem fora do escopo. Trata-se de uma
inversão de prioridades que reforça desigualdades ao invés de combatê-las.

4. Risco de gentrificação e exclusão
Propostas como o “reposicionamento” de atividades populares e a valorização de determinados usos urbanos apontam para processos de reconfiguração do espaço que podem resultar na expulsão de populações e práticas já existentes, em nome de uma estética urbana voltada ao consumo e ao turismo.

5. Fragilidade institucional e ausência de mediação pública
O fato de o projeto não ter sido mediada com uma estrutura pública, articulada com os instrumentos legais de planejamento urbano, fragiliza sua legitimidade e abre espaço para que ele opere como vetor de interesses privados.

Diante disso, a questão que se coloca não é apenas sobre o projeto em si, mas sobre o risco de que abordagens centradas no desenho urbano, quando
descoladas das dimensões políticas e sociais do território, acabem sendo
apropriadas por agendas que reforçam desigualdades.

É verdade: Florianópolis precisa de espaços públicos mais qualificados. Mas,
precisa, antes, de um projeto de cidade comprometido com o direito à cidade, com a justiça territorial e com a inclusão social.

Tenho convicção de que, se essas dimensões tivessem sido plenamente
apresentadas e incorporadas ao processo, o resultado poderia ser outro.
Por isso, esta carta é também um convite: que seu escritório possa revisitar
criticamente esse projeto à luz das contradições urbanas locais, ampliando o
diálogo com a sociedade civil, incluído as universidades aqui instaladas, os
movimentos sociais, os técnicos públicos alijados do processo e a população
que vive e produz cotidianamente a cidade.

Cidades para pessoas não podem prescindir de todas as pessoas.
Atenciosamente,

Prof Elson Pereira
Dr. em Urbanismo

A manifestação explicita um tensionamento relevante no debate sobre o futuro urbano de Florianópolis: de um lado, propostas alinhadas a tendências globais de qualificação dos espaços públicos; de outro, a cobrança por maior aderência às dinâmicas sociais, econômicas e territoriais locais.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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