Repetiremos a barbárie em outubro de 2026? – Artigo por Jéferson Dantas

O neofascismo vem se expandindo de maneira perigosa e vertiginosa em várias partes do mundo, por meio do ‘Projeto 2025’ capitaneado pelo Napoleão de hospício – como diria o jornalista Mino Carta -, Donald Trump. Tal projeto internacional de fascistização em larga escala ganhou guarida em três continentes. Na América Latina seus mais acólitos adeptos são representados pelas lideranças delirantes de Argentina, El Salvador e Paraguai. Numa conjuntura onde a ordem internacional foi para as calendas gregas e em que a ONU se mostra totalmente inoperante e incompetente para conter a sanha imperialista e belicista dos EUA e Israel, o mundo se vê em maus lençóis e caminhando para a estruturação de autocracias/teocracias lá e acolá. O Tribunal Penal Internacional (TPI), que julga crimes de lesa-pátria e de lesa-humanidade, também se mostra frágil e apequenado diante destes dois criminosos de guerra reincidentes, sádicos e tiranos!
Se a história não se repete tal e qual em diferentes dimensões contextuais, ela pode nos ensinar a não reprisarmos situações que coloquem em risco a humanidade, algo que a dupla Trump & Netanyahu vêm fazendo de maneira sistemática e sem peias. O historiador liberal estaduniense Timothy Snyder, estudioso sobre o holocausto, alerta-nos de que a “história tem o poder de familiarizar e também de advertir. (…). No começo do século XX, tal como no começo do XXI, essas esperanças foram ameaçadas por novas visões políticas de massa em que um líder ou um partido afirmavam representar diretamente a vontade do povo. As democracias europeias descambaram para o autoritarismo de direita ou para o fascismo nas décadas de 1920 e 1930. (…). A história europeia do século XX nos mostra que as sociedades podem ruir, que as democracias podem ruir, que as democracias podem entrar em colapso, que a ética pode ser aniquilada e que os homens comuns podem se ver diante de valas comuns com armas nas mãos”. E são esses homens e mulheres atravessados pela alienação religiosa e encharcados de ‘senso comum’, que decidem um certame eleitoral!
Os temas concernentes aos processos civilizatórios estão, assim, em contínua discussão e disputa. Além disso, as instituições públicas precisam ser preservadas e respeitadas para que não ocorra um verdadeiro colapso social, tendo em vista a nefasta e crescente concentração de riqueza e, consequentemente, a elevação da pobreza em termos de dezenas de milhões de pessoas no Brasil. Algo que só piora quando os neofascistas assumem o poder político. A professora Rachel Gouveia Passos da UFRJ em novembro de 2022 nos alertava em relação à última eleição presidencial brasileira de que “a derrota do mito” não seria engolida de maneira tranquila pelos seus apoiadores. Um dia após a aleição que elegeu Lula da Silva em seu terceiro mandato, estradas foram fechadas e apologetas do nazismo fizeram questão de demonstrar a sua contrariedade. Afinal, são mais de quinhentas células nazistas espalhadas pelo Brasil, o que dá bem a medida do avanço da extrema-direita. Tais manifestações desembocaram numa tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023, que culminou com a prisão do ‘mito’ e de vários de seus seguidores.
Os 57 milhões de brasileiros/as que votaram em Bolsonaro em 2022 podem ter um reforço de novos/as eleitores/as. A mídia corporativa hegemônica, amiúde, vem desempenhando o seu papel espurco ao incorporar pautas jornalísticas controversas em seus editoriais em defesa da diminuição da maioridade penal (como se isso resolvesse por si só o problema da violência social, que tem como origem e desdobramentos a sociabilidade capitalista como força motriz), desidratando as lutas da classe trabalhadora por mais direitos, priorizando pautas identitárias frágeis e de fácil apelo nas redes sociais sem o reconhecimento epistêmico da interseccionalidade entre classe, gênero e raça, além de tratar o filho do ‘mito’ como um político ‘moderado’.
Os desafios são enormes! E os avanços só podem ocorrer com a reorganização da classe trabalhadora e dos movimentos sociais. Não há mais tempo e espaço para reformismos e políticas conciliatórias. O capital sempre deseja mais! E os neofascistas sabem disso!



