A criança cósmica
O encantamento não como fuga da realidade, mas como forma de habitá-la sem endurecer.

Hoje, se eu tivesse uma capa azul de estrelas prateadas, juro que procuraria me sentar à proa de um navio vermelho, numa floresta encantada e acionaria um portal intergaláctico para um espaço só de travessuras, gargalhadas, levezas, brigadeiros e cajuzinhos, nuvens aconchegantes, bonitezas, morangos doces e bolachas em formato de bicho.
E chamaria os amigos.
E, se o coelho da Alice passasse correndo apressado, eu jogaria uma rede para capturá-lo e confiscaria seu relógio de bolso. Lhe daria um chá de camomila, um livro do Mia Couto e lhe diria: “Senta aí, coelho. Lê para chegares na tua reunião com a Rainha de Copas com mais argumentos e poesia sobre a vida.”
Mas neste momento o que tenho é um casaco verde muito discreto e um monte de coisas de adulto careta para resolver.
Crescer talvez tenha sido, em alguma medida, aprender a dobrar nossas capas mágicas e guardá-las no fundo de uma gaveta.
Boletos, planilhas e compromissos parecem exigir das mãos um tipo de seriedade incompatível com estrelas prateadas.
Como se maturidade fosse sinônimo de endurecimento, criamos a ideia de que ser adulto implica abandonar a travessura, a doçura e o espanto.
Como se responsabilidade exigisse o sacrifício definitivo do encantamento.
Como se, ao dobrarmos a capa, fôssemos perdendo a capacidade de demorar, de nos maravilharmos, de fazer algo sem finalidade, de deixar a imaginação fluir sem imediatamente perguntar: “para quê?”
O que mais se perde ao crescer, além da fantasia, é a permissão para habitar o inútil. Adultos gostam de justificar tudo. Se leem, precisa servir para aprender. Se descansam, precisa ser para produzir melhor depois. Se caminham, talvez contem passos, calorias, desempenho. Aos poucos, até o encantamento precisa apresentar utilidade para ser tolerado.
A vida passa a ser medida pela utilidade.
Como se o coelho da Alice nem precisasse ser capturado, porque ele já mora em nós.
Correndo de um compromisso para outro, repetindo mentalmente listas, horários, prazos e respostas pendentes.
“Estou atrasado, estou atrasado.”
E talvez a Rainha de Copas moderna nem precise gritar “Cortem-lhe a cabeça!”. Basta que ela nos convença de que parar é fracassar.
Corremos, é claro.
Há urgências que não existiam quando alguém preparava nosso café da manhã e pagava as contas da casa.
Mas a magia pode precisamente morar naquilo que impede a adultez de se transformar em endurecimento.
Talvez crescer não tenha sido perder a capa.
Talvez tenha sido esquecer que ela continua ali, por baixo do casaco verde muito discreto.
Invisível para quem olha de fora.
Mas intacta e pulsante.
Esperando apenas que, entre um boleto e outro, a gente se lembre de vesti-la de novo.
Para se perder olhando o vapor do café subindo em espiral como quem vê uma pequena galáxia doméstica.
Para perceber que alguém perguntar “chegou bem?” continua sendo uma forma sofisticada de amor.
Para entender a ternura que há em gestos minúsculos como lavar uma xícara para quem vem depois, cortar uma fruta ao meio para dividir, guardar o último brigadeiro para alguém.
Para ver o sol ou a chuva batendo na janela.
Para sorrir sem querer quando alguém querido manda uma mensagem boba.
A magia adulta pode até ser menos espetacular, mas não necessariamente menor.
O adulto talvez já não escute estrondos nem veja luzes brilhantes quando um portal intergaláctico se abre.
Mas perceber quando ele se abre silenciosamente dentro de nós talvez seja justamente escolher não endurecer.
Toda vez que, em meio à pressa, ainda sobra espaço para o espanto, algo em nós se salva.
O adulto careta baixa a guarda.
E a criança cósmica ri.
Nota de rodapé:
Coincidentemente essa criança querida aí da foto faz dezesseis anos hoje. Meus votos de felicidade incluem o desejo que ela tenha guardado sua capa azul de estrelas prateadas em local bem seguro e acessível.





