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Terráqueos e marcianos têm encontro cósmico em Floripa

Memorial Meyer Filho abre portal para obras de nove artistas da Acap, em um mergulho no universo criado pelo “embaixador marciano junto à Terra”

 

 

E se Marte não fosse tão longe assim? E se o planeta vermelho estivesse escondido no centro de Florianópolis, esperando ser redescoberto? A resposta está no Memorial Meyer Filho, onde a imaginação decola e os marcianos finalmente encontram seu lugar na Terra.

O espaço, junto à praça 15 de Novembro, recebe a partir desta sexta-feira (26) a exposição “Meyer Filho – O Calculista Delirante”, da Acap (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos). A coletiva traz criações de nove associados em uma releitura do legado de um dos oito fundadores da entidade – Ernesto Meyer Filho, o autoproclamado “Embaixador de Marte Junto ao Planeta Terra”.

Com curadoria de Meg Tomio Roussenq, que assinou as seis exposições do cinquentenário da Acap, participam Audrey Laus, Gelsyr Ruiz, Larissa Arpana, Maria de Minas, Maria Esmênia, Onildo Borba, Ricardo do Rosário, Rodrigo Gonçalves e Silvia Da Ros.

“O Calculista…” já integrou coletiva realizada em setembro de 2025 no BRDE, na série de eventos em homenagem aos 50 anos da Acap, em que também foram exaltadas as trajetórias de Martinho de Haro e Rodrigo de Haro

Agora, a convite da filha, Sandra Meyer, as obras ficarão até 24 de julho no memorial que leva o nome do homenageado. Para a curadora Meg, a figura de Meyer Filho emerge como um catalisador da força dos processos artísticos contemporâneos, permitindo explorar territórios limítrofes entre realidade e fantasia, com o uso dos seres antropomórficos revelando a própria condição humana, em permanente transformação.

Maria Esmenia com O Encontro dos Abduzidos
Atual presidente da Acap, Maria Esmênia usa a delicadeza para uma forte crítica social – Foto Mario Oliveira/Divulgação Acap

 

As críticas sociais por meio das fantasias cósmicas

A atual presidente da Acap, Maria Esmênia, introduz a dimensão social que marca sua obra e as ações a que se dedica no voluntariado no encantador “O Encontro dos Abduzidos”, onde José, pessoa em situação de rua, encontra Meyer Filho em Marte. O endereço utópico – Rua Lua Branca, Planeta Marte – revela como as fantasias cósmicas podem atuar como crítica às distribuições desiguais de direitos e territórios na sociedade terráquea.

Outra obra que traz boa dose de pesquisa e misticismo é a de Ricardo do Rosário, com um personagem constante em suas criações. “Coruja Cósmica” materializa o processo de transmutação da poética de Meyer Filho com um pássaro interestelar. A pintura conecta a Ilha do Desterro ao cosmo e ao artista: um ser que respira em mundos alheios.

A lenda, há muito esquecida, diz sobre um ser do espaço vindo de um local fantástico com seres exóticos e formatos que variavam desde galos até bernunças. Ao chegar na Terra, o ser transmutou-se em coruja, mas como não conseguia respirar no nosso planeta, passou a usar um capacete cósmico, vivendo escondido nas florestas da Ilha. A última pessoa que o viu teria enlouquecido e se jogado da Pedra do Frade, na Lagoa.

Maria de Minas desloca Marte para a Terra por meio de uma fotografia infravermelha captada no Deserto do Atacama. Para a artista, “Marte é Aqui” demonstra que as possibilidades de transfiguração do real florescem a partir de tecnologias perceptivas, tornando visível o invisível.

Onildo Borba o associado mais antigo e tesoureiro da Acap ha 30 anos com DNA de Criaturas Cosmicas Foto Mario Oliveira
Onildo Borba, o associado mais antigo e tesoureiro da Acap há 30 anos, com “DNA de Criaturas Cósmicas” – Foto Mario Oliveira/Divulgação Acap

Feminilidade traz contraponto às representações falocêntricas

Larissa Arpana propõe outro movimento em “Ser Ostra de Vênus”. A obra traz feminilidade ao universo marciano de Meyer, em contraponto às representações falocêntricas da obra do artista. A sobreposição de tecidos de voil cria uma dramaturgia visual. E a ostra, como símbolo do feminino precioso, inverte a lógica da penetração masculina, propondo a continência transformadora como princípio estético.

Gelsyr Ruiz e Onildo Borba aprofundam o panorama ao explorarem, respectivamente, as dimensões queer e genéticas do imaginário de Meyer. Ruiz delira em “corpos e paisagens em estado de metamorfose” que desafiam normatividades de gênero e sexualidade, enquanto Borba investiga o “DNA de Criaturas Cósmicas”.

Rodrigo Gonçalves traz uma instalação usando corrente e filó em torsões lentas, para construir uma “presença vibrátil, quase animal, quase vegetal”, atravessada por luminosidades e resíduos da fauna noturna da Ilha. A estrutura lembra antigos seres fantásticos tentando encontrar corpo pelos tecidos.

Audrey Laus expande a figura do galo para além do quintal de origem com a urgência da crise climática. Com colagem e bordado sobre fotocópias, “Além do Quintal” desloca a potência criadora do cosmos particular de Meyer para o macrocosmo, respondendo às urgências que a arte dele já prenunciava.

Silvia Da Ros fecha a constelação com “qui omnia videt” (o que tudo vê), uma narrativa que recoloca o “calculista” em sua própria paisagem: a Lagoa da Conceição, onde as criaturas de seus desenhos e pinturas parecem ter ganhado vida e saído em busca do criador. “Marte é aqui? Marte não é aqui?” suspende a fronteira entre o imaginário marciano e a realidade terráquea, devolvendo o artista ao seu próprio universo, como espectador deslumbrado diante da beleza que ele mesmo inventou.

Ricardo do Rosario e a Coruja Cosmica
Ricardo do Rosário explora a lenda da Coruja Cósmica que habitou a Ilha – Foto Mario Oliveira/Divulgação Acap

Serviço

  • O quê: Exposição “Meyer Filho – O Calculista Delirante”
  • Quando: Visitação até 24/7/2026, de segunda a sexta, das 12h às 18h
  • Onde: Memorial Meyer Filho — Praça 15 de Novembro, 180, Centro, Florianópolis

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Rosana Ritta

Rosana Ritta é jornalista, formada com orgulho pela universidade federal de sua cidade natal, Santa Maria (RS), mas desenvolveu sua carreira profissional nos maiores grupos de comunicação catarinense. Tem mais de 40 anos de experiência em redações como repórter, editora e gestora. Atua também como assessora de imprensa. E revela ser uma profissional incansável.

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