Governador xingou indígenas e ironizou cacica durante agenda na Barragem Norte
O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação inicial para apurar a conduta do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), após ofensas proferidas contra indígenas do povo Laklãnõ-Xokleng. O episódio ocorreu no dia 8 de julho, durante uma visita oficial às obras da Barragem Norte, em José Boiteux, e transformou uma agenda de anúncios governamentais em uma crise institucional que agora envolve a Procuradoria-Geral da República (PGR).
A apuração do MPF tramita como uma “notícia de fato” — primeiro passo legal para avaliar se a denúncia evolui para um inquérito ou Ação Civil Pública. A medida foi provocada após o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) acionar a PGR, argumentando que a postura do chefe do Executivo catarinense violou a dignidade coletiva da comunidade Xokleng.
Durante a visita ao território, que é palco de uma disputa histórica entre o Estado e os indígenas, Jorginho Mello reagiu a cobranças da comunidade com hostilidade. Em vídeos que registraram o momento, o governador discute com os indígenas e dispara: “vai para a puta que o pariu”. Posteriormente, fora das câmeras de entrevista, ao ser abordado por uma mulher que se identificou como cacique, Mello respondeu de forma desdenhosa: “e eu com isso?”.
A fala gerou imediata reação das lideranças tradicionais, evidenciando o contraste entre a liturgia esperada do cargo e o tratamento dispensado à comunidade. “Não vou chegar na casa dele mandando”, declarou a cacica Antônia Xokleng ao Brasil de Fato.
Violência institucional e passivo do Estado
A gravidade do episódio, na avaliação de órgãos de controle e de direitos humanos, reside na inversão de papéis institucionais. A Barragem Norte foi construída durante a ditadura militar, resultando no alagamento das terras mais férteis da Terra Indígena Laklãnõ-Xokleng. O Estado de Santa Catarina carrega, portanto, um passivo histórico e social com a comunidade.
Ao comparecer ao local e ofender as lideranças, o representante máximo do Estado não apenas ignorou a dívida histórica da instituição que comanda, como endossou a escalada de tensionamento. Em nota de repúdio, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) classificou as falas como uma “agressão à dignidade indígena” e prestou solidariedade ao povo Laklãnõ-Xokleng.
