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Ao lançar livro, artista pede que ele não vire elemento decorativo

Inspirado em frase de Clarice Linspector, “Todo momento de achar é um perder-se a si própria”, da artista Ruchita, é uma espécie de exposição impressa e ao alcance da mão, com um convite à reflexão sobre quem se é em tempos de mudanças constantes

Uma exposição artística ao alcance da mão no momento que o leitor/observador quiser. Esta é a proposta da artista multimídia Ruchita, nome artístico de Juliana Stringhini, com o livro “Todo momento de achar é um perder-se a si própria, lançado no dia 23 de julho na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis.

A obra reúne trabalhos produzidos entre 2017 e 2025 em diferentes técnicas, como videoarte, performance, instalação e fotografia. Ansiosa para que seu trabalho alcance o objetivo de provocar, encantar e questionar, Ruchita fez um apelo aos leitores durante a sessão de autógrafos: que o livro não se torne um elemento decorativo.

“A obra traz fotografias que mostram grande parte da produção da artista e os suportes em que trabalhou, propondo uma reflexão sobre identidade, memória, corpo, silêncio e o desafio de não permanecer da mesma forma”, sintetiza a curadora, organizadora e coordenadora editorial do livro, Kamilla Nunes, ao destacar os meses de trabalho minucioso para se chegar ao formato final de 220 páginas.

Nascida em Curitiba e radicada em Florianópolis, Ruchita vive um momento especial na carreira. Além do livro, acabou de estrear sua primeira exposição individual, “Território de Passagem”, no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo. Um reconhecimento que ultrapassa sua trajetória e ajuda a ampliar o espaço para produções de outras regiões do país nos grandes circuitos de arte. 

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Ruchita (à direita) ao lado de Sandra Meyer, no lançamento da obra na Fundação Cultural Badesc, com tradução em Libras

Sempre atenta às transformações aceleradas e à pressão constante para construirmos versões estáveis de quem se é, Ruchita opta por questionar o que acontece quando cada ser humano aceita que sua identidade também está em constante transformação.

Kamilla explica que foi a partir desse questionamento que nasceu o livro, resultado de pesquisa artística construída a partir de experiências pessoais e da compreensão de que encontrar a si mesmo talvez dependa justamente da disposição de abandonar certezas. “Nos trabalhos escolhidos para o livro, Ruchita sugere a possibilidade de nos permitirmos perdermos-nos a nós mesmos”, observa.  

Nos trabalhos, o corpo deixa de ser apenas suporte para se tornar território de investigação, transformando inquietações íntimas em questões universais, realçando a pressão social pela identidade coerente, estável e permanentemente “pronta”. “Como se tudo, o tempo todo, fosse perfeito, e a imperfeição fosse um erro”, reflete.

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Ruchita na abertura de sua exposição individual no MIS/SP – Foto Lucas Nogueira/Divulgação

Vivências muito pessoais

Outro trabalho recente, a série “Alternar-se”, desenvolvida após a descoberta da diabetes, passou a integrar a pesquisa não como experiência biográfica, mas como metáfora da vulnerabilidade humana e da necessidade permanente de adaptação. 

Embora originada em experiências pessoais, a pesquisa dialoga com a dificuldade de aceitar que pessoas, corpos e histórias estão em permanente mudança. “Existe um apego à ideia de estabilidade, que acaba produzindo sofrimento, e minha pesquisa nasce desse conflito”, explica. 

Ações educativo-culturais

Além do livro, o projeto envolveu a realização de oficinas práticas de arte e escrita com Kamilla Nunes, realizadas na própria Fundação Badesc – “Paisagem São as Lembranças que Guardamos na Memória Após Termos Cessado o Olhar (ou como editar paisagens)” e “Geografias Mínimas” (ou como modelar uma paisagem)”, consolidando o caráter educativo da iniciativa.  

“Todo momento…” convida o leitor a desacelerar, contemplar e abrir espaço para perguntas que nem sempre exigem respostas imediatas. A obra traz ainda textos produzidos pela pesquisadora e professora Sandra Meyer e pelo fotógrafo, curador e artista canadense Scott Macleay. Também contempla uma versão digital gratuita e a produção de um audiobook voltado a deficientes visuais. A preocupação com a acessibilidade também é revelada nas atividades públicas, todas com interpretação em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, ampliando o acesso ao conteúdo e reforçando o compromisso com a democratização cultural.

O projeto é realizado com apoio do município de Florianópolis, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Tem patrocínio do Grupo Femina e Naijus Administração e Participações Ltda.

Espaço nacional para “Território de Passagem”

Em “Território de Passagem”, concebida especialmente para o MIS-SP, as investigações de Ruchita trazem dois eixos curatoriais – O Corpo Inacabado e O Corpo é Tempo –, com videoartes e séries fotográficas, abordando temas como vulnerabilidade, transcendência, repetição, impermanência e dissolução. 

No MIS, referência nacional e na América Latina, com mais de 5 mil títulos produzidos e catalogados desde os anos 1970, a exibição, gratuita, continua até o dia 24 de agosto.  

Mais informações: @art.ruchita