Terça-feira, 1 Setembro , 2026

Brasil cria plano para preparar o SUS para impactos do El Niño e das mudanças climáticas

por Duda Amaral
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O governo federal apresentou um novo planejamento para preparar o sistema público de saúde diante do aumento dos riscos provocados por eventos climáticos extremos. O Plano Setorial de Saúde – AdaptaSUS, elaborado pelo Ministério da Saúde, reúne estratégias para fortalecer a preparação e a resposta do SUS aos impactos do clima, com atenção especial ao fenômeno El Niño previsto para o ciclo 2026-2027.

O documento foi apresentado na quarta-feira (26), durante a 7ª Assembleia do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), em Brasília. A proposta considera que alterações no padrão de chuvas, temperaturas e eventos extremos podem aumentar a pressão sobre os serviços de saúde em diferentes regiões do país.

“O principal risco para a saúde e para os serviços de saúde relacionados à mudança do clima é o potencial de aumento da ocorrência de doenças (morbidade), de óbitos (mortalidade), e de ampliação da demanda pelos serviços de saúde”, explicita o plano de adaptação.

PLANO PREVÊ PREPARAÇÃO DO SUS PARA EVENTOS CLIMÁTICOS

O AdaptaSUS foi estruturado para orientar a atuação federal e estabelecer diretrizes que também possam ser adotadas por estados e municípios. A intenção é reduzir os impactos das mudanças climáticas tanto sobre a população quanto sobre a estrutura de atendimento do sistema público.

O planejamento parte do princípio de que os efeitos dos eventos climáticos não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Comunidades em situação de vulnerabilidade socioambiental e com menor acesso aos serviços de saúde tendem a sofrer consequências mais severas.

Por isso, o Ministério da Saúde defende respostas integradas, considerando fatores econômicos, sociais, culturais e as desigualdades existentes no acesso às políticas públicas.

CINCO EIXOS ORIENTAM A ESTRATÉGIA

A preparação para os impactos associados ao El Niño está dividida em cinco frentes principais.

  • Governança federativa, com a criação de uma Sala de Situação de Emergências Climáticas;
  • Governança interna, por meio da Sala de Situação Saúde e Clima;
  • Recursos e kits emergenciais para assistência farmacêutica;
  • Atuação da Força Nacional do SUS (FN-SUS), com bases regionais preparadas para deslocar equipes em até 48 horas;
  • Organização dos serviços e protocolos técnicos, considerando as características de cada bioma brasileiro.

Além das medidas emergenciais, o plano estabelece um cronograma de médio prazo. São 27 metas e 93 ações previstas até 2035, ampliando a estratégia de adaptação do setor de saúde aos efeitos das mudanças climáticas.

CISTERNAS E SEGURANÇA HÍDRICA ESTÃO ENTRE AS AÇÕES

A segurança hídrica também aparece entre as prioridades do planejamento, especialmente em locais que enfrentam períodos prolongados de seca e estiagem.

Nesse contexto, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) contratou 18,8 mil cisternas em 397 municípios de sete estados. O investimento previsto chega a R$ 226,6 milhões, destinados a iniciativas de melhoria sanitária.

A medida busca ampliar a capacidade de comunidades afetadas pela falta de água de enfrentar períodos críticos e reduzir possíveis impactos sobre as condições de saúde.

MONITORAMENTO USA PAINÉIS E SISTEMAS DE ALERTA

O monitoramento das condições climáticas e dos riscos à saúde será apoiado por diferentes ferramentas. Entre elas estão o Painel Nacional de Excesso de Calor, o VigiAR, voltado às populações expostas a poluentes atmosféricos, e o GeoRisk, desenvolvido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

O AdaptaSUS também prevê os Centros de Informação em Saúde e Clima (Cisc), iniciativa-piloto implantada em oito cidades distribuídas pelas cinco regiões brasileiras.

Outra frente importante é a integração dos sistemas utilizados pelo Ministério da Saúde para identificar e acompanhar problemas de saúde pública. A estratégia inclui plataformas como e-SUS Notifica, Sivep-Gripe e Sinan, permitindo reunir informações para a detecção precoce, o registro, o monitoramento e a investigação de surtos.

Na Amazônia, o planejamento leva em conta ainda as dificuldades de acesso enfrentadas por parte da população. A organização da rede deverá considerar equipes de saúde e Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF), importantes para atender comunidades localizadas em áreas de difícil acesso.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS PODEM AUMENTAR DOENÇAS E MORTES

O documento aponta que os efeitos das mudanças climáticas vão além dos danos causados diretamente por tempestades, enchentes, secas ou ondas de calor. A alteração das condições ambientais também pode modificar a ocorrência e a distribuição de diferentes doenças.

Entre os principais riscos identificados estão:

  • doenças relacionadas a temperaturas extremas, tanto calor quanto frio;
  • enfermidades associadas à falta de acesso adequado à água, saneamento e higiene;
  • doenças transmitidas por vetores e zoonoses;
  • problemas respiratórios;
  • doenças relacionadas à poluição atmosférica;
  • ferimentos e mortes provocados por eventos climáticos extremos;
  • desnutrição;
  • doenças não transmissíveis;
  • impactos sobre a saúde mental e psicossocial.

Além dos efeitos sobre a população, os eventos extremos podem comprometer o próprio funcionamento do sistema de saúde. Unidades podem ter a infraestrutura danificada ou ficar temporariamente sem condições de atendimento, ao mesmo tempo em que a procura pelos serviços aumenta.

EL NIÑO PODE TER PERÍODO MAIS CRÍTICO ENTRE 2026 E 2027

O El Niño é um fenômeno climático natural associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração influencia a circulação atmosférica e pode modificar os regimes de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

No Brasil, a previsão utilizada no planejamento considera o fenômeno em intensidade forte, com possibilidade de atingir uma condição muito forte em setembro de 2026. A janela considerada mais crítica vai de outubro de 2026 a março de 2027.

Os impactos esperados não são iguais em todo o território nacional. No Norte e no Centro-Oeste, a preocupação envolve principalmente seca, estiagem e queimadas. No Nordeste, o cenário pode significar agravamento da seca acompanhado de temperaturas elevadas.

Já no Sudeste, a tendência é de maior irregularidade, com possibilidade de ondas de calor e temporais. No Sul, a atenção está voltada para a ocorrência de chuvas intensas e o consequente risco de inundações.

PLANO FAZ PARTE DA ESTRATÉGIA CLIMÁTICA DO GOVERNO

O AdaptaSUS integra o Plano Clima Adaptação do governo federal, elaborado para ampliar a capacidade do país de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

A construção da estratégia envolveu 25 ministérios, além de contribuições da sociedade civil, do setor empresarial e da comunidade científica. O planejamento federal também reúne outros 15 planos setoriais e temáticos, abrangendo áreas como segurança alimentar e nutricional, energia, transportes e cidades.

A proposta para a saúde, portanto, não se limita à resposta depois que um desastre acontece. O objetivo é fortalecer a prevenção, o monitoramento e a capacidade de atendimento do SUS para que o sistema esteja mais preparado diante de um cenário de eventos climáticos cada vez mais capazes de pressionar os serviços públicos.


Com informações de Agência Brasil

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