O domínio das grandes empresas de tecnologia sobre redes sociais, aplicativos e outros espaços digitais tem provocado uma discussão que vai além da forma como as pessoas usam a internet. No centro do debate estão questões como soberania digital, concentração de poder, proteção de direitos e a possibilidade de construir ambientes online menos dependentes das chamadas big techs.
É nesse cenário que atua a organização social Ctrl+Z, que busca questionar práticas das gigantes do setor e, ao mesmo tempo, estimular a formação de comunidades que utilizem ferramentas digitais abertas e transparentes.
Em entrevista ao programa Tarde Nacional SP, da Rádio Nacional, o jornalista Henrique Sampaio, coordenador de redes sociais da organização, afirmou que empresas sediadas no Vale do Silício acumulam influência suficiente para entrar em conflito com iniciativas nacionais de regulação do ambiente digital.
“As grandes empresas do Vale do Silício concentram muito poder e estão numa batalha para impedir que países como o Brasil tenham sua própria soberania digital. Querem que seus termos estejam acima das nossas leis.”
SOBERANIA DIGITAL ENTRA NO CENTRO DO DEBATE
A discussão levantada pela Ctrl+Z parte da relação cada vez mais intensa entre sociedade e plataformas privadas. Redes sociais, aplicativos de mensagens, mecanismos de busca e serviços digitais passaram a ocupar espaços importantes na comunicação, no consumo de informação e nas relações cotidianas.
Para a organização, essa presença também amplia o poder exercido pelas empresas responsáveis por essas plataformas. A Ctrl+Z se propõe, por isso, a investigar e tornar públicas práticas consideradas abusivas, recorrer ao Judiciário quando necessário e mobilizar usuários em torno de direitos no ambiente digital.
Um dos trabalhos recentes da entidade identificou dezenas de perfis que apresentavam falsos médicos criados com inteligência artificial no YouTube. O levantamento resultou em denúncia sobre esse tipo de conteúdo na plataforma.
A organização é comandada pela executiva Daniela da Silva, que já esteve à frente da área de Políticas Públicas do WhatsApp, da Meta, no Brasil. A equipe de direção também inclui a jornalista investigativa Tatiana Dias, diretora de Programas e ex-editora executiva do Intercept Brasil, e Luã Cruz, diretor de Litigância, especialista em direitos digitais e políticas públicas e ex-coordenador do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec).
ALTERNATIVAS ÀS REDES CONTROLADAS PELAS BIG TECHS
Além da investigação e da atuação jurídica, a Ctrl+Z tenta desenvolver uma frente voltada à criação de outros espaços de convivência e organização.
A proposta é aproximar pessoas com diferentes perfis e estimular o uso de plataformas de código aberto, cuja estrutura pode ser examinada e desenvolvida de maneira mais transparente do que ocorre nos sistemas proprietários das principais redes sociais.
“Queremos levar as pessoas para fora das telas e criar uma comunidade que não seja mediada pelas empresas de tecnologia”, afirma Henrique Sampaio.
A iniciativa parte do princípio de que a internet não precisa necessariamente estar concentrada nos serviços oferecidos por algumas das maiores empresas do mundo. Ferramentas abertas já fazem parte da história da rede, mas disputam espaço com plataformas que concentram bilhões de usuários e grandes estruturas financeiras e tecnológicas.
CÓDIGO ABERTO É APONTADO COMO CAMINHO PARA UMA INTERNET MAIS LIVRE
Para Sampaio, um dos obstáculos para ampliar o uso dessas alternativas está justamente na capacidade das grandes plataformas de manter os usuários dentro de seus ecossistemas.
“As plataformas de código aberto sempre existiram, mas as big techs têm um poder muito grande para nos convencer a usar os produtos delas. É viciante”, pondera o jornalista.
A Ctrl+Z pretende utilizar essas tecnologias para demonstrar que outros modelos de interação digital são possíveis. Em vez de depender exclusivamente de ambientes administrados por empresas privadas, a proposta é estimular espaços nos quais regras, funcionamento e desenvolvimento tecnológico possam ser mais transparentes.
“Quando a gente propõe algo que foge a essa lógica, as pessoas lembram que existe uma internet mais livre”, completa Henrique.
DISCUSSÃO SOBRE BIG TECHS VAI ALÉM DO TEMPO DE TELA
O debate promovido pela organização também desloca a discussão sobre tecnologia de questões individuais — como quantidade de horas diante do celular ou uso excessivo das redes sociais — para aspectos estruturais da internet.
Nesse campo entram temas como quem estabelece as regras dos espaços digitais, quais empresas controlam a infraestrutura utilizada diariamente, como decisões tomadas pelas plataformas afetam usuários e até que ponto países conseguem aplicar suas próprias legislações a companhias globais.
A ideia de soberania digital aparece justamente nesse contexto: a capacidade de uma sociedade e de suas instituições estabelecerem regras e desenvolverem estruturas tecnológicas sem ficarem integralmente subordinadas às decisões comerciais de grandes corporações estrangeiras.
Ao apostar simultaneamente em investigação, atuação jurídica, mobilização social e experimentação com plataformas abertas, a Ctrl+Z busca colocar essa discussão também nas mãos dos próprios usuários — e mostrar que o modelo de internet hoje predominante não é necessariamente o único possível.