A composição do Congresso Nacional para o período de 2027 a 2031 indica um cenário desafiador para a defesa do meio ambiente no Brasil. Segundo levantamento do Observatório do Clima, cerca de sete em cada dez deputados federais e senadores eleitos apresentam pouca ou nenhuma convergência com propostas voltadas à preservação ambiental e ao enfrentamento das mudanças climáticas.
O estudo considera o posicionamento dos parlamentares e seus votos em temas relacionados à proteção dos ecossistemas, à política climática e à sustentabilidade. Os resultados apontam para um Legislativo que pode impor obstáculos à aprovação de medidas ambientais nos próximos quatro anos.
LEVANTAMENTO APONTA DISTANCIAMENTO DA PAUTA AMBIENTAL
A análise utiliza o índice de convergência ambiental, desenvolvido a partir de uma metodologia do Instituto Democracia e Sustentabilidade. O indicador classifica os parlamentares conforme o grau de alinhamento de suas atuações com as pautas climáticas e socioambientais.
A avaliação é dividida em quatro níveis: muito baixo, para índices entre 0% e 25%; baixo, de 26% a 50%; bom, de 51% a 69%; e muito bom, de 70% a 100%.
Entre os 594 parlamentares considerados no levantamento, 409 estão nas duas faixas de menor alinhamento, o equivalente a 68,9% do total. Desse grupo, 201 congressistas, ou 33,8%, aparecem na categoria muito baixa, enquanto outros 208, correspondentes a 35%, estão na faixa baixa.
No sentido oposto, 185 parlamentares demonstram maior convergência com a agenda ambiental. Desse total, 52 foram classificados na faixa boa, representando 8,75%, e 133 alcançaram o nível muito bom, o equivalente a 22,4%.
Para o Observatório do Clima, a distribuição dos resultados sinaliza dificuldades para a manutenção e o avanço de políticas públicas de proteção ambiental.
OBSERVATÓRIO DO CLIMA ALERTA PARA POSSÍVEIS RETROCESSOS
A coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, avalia que o cenário pode comprometer conquistas importantes na área ambiental brasileira.
Entre os riscos apontados estão o enfraquecimento da atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental, a possibilidade de anistia a grileiros e a redução da proteção destinada às florestas e aos diferentes biomas do país.
A preocupação também envolve a capacidade do Congresso de aprovar iniciativas para reduzir os impactos das mudanças climáticas e preparar cidades e comunidades para eventos extremos.
Ao comentar as perspectivas para a próxima legislatura, Suely Araújo destacou a dimensão dos desafios que deverão ser enfrentados por organizações, especialistas e representantes da sociedade civil.
“Este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática”, destaca Suely Araújo.
SENADO TERÁ MAIORIA COM BAIXA CONVERGÊNCIA AMBIENTAL
No Senado Federal, a tendência de distanciamento da agenda socioambiental aparece de maneira ainda mais acentuada. Dos 81 integrantes previstos para a próxima legislatura, 64 estão classificados nos níveis baixo ou muito baixo de convergência, o que corresponde a aproximadamente 79% da Casa.
Apenas 17 senadores, ou 21% do total, aparecem nas duas categorias de maior alinhamento com as políticas ambientais. Desse grupo, 12 parlamentares estão na faixa boa, enquanto somente cinco alcançaram a classificação muito boa.
O resultado representa uma piora em relação à composição que encerra seu mandato em 2026. Na legislatura atual, 58 senadores, equivalentes a 71,6%, estavam nas duas faixas de menor convergência ambiental.
Com a ampliação desse contingente para 64 parlamentares, o levantamento indica que a discussão de projetos relacionados à conservação, à adaptação climática e à proteção dos recursos naturais poderá enfrentar mais resistência na Casa.
CÂMARA DOS DEPUTADOS TAMBÉM APRESENTA CENÁRIO DESFAVORÁVEL
Na Câmara dos Deputados, o levantamento identificou 345 parlamentares, entre os 513 integrantes da Casa, com baixo ou muito baixo alinhamento à agenda ambiental. O número representa 67,3% dos deputados e deputadas federais.
Entre os demais integrantes, 40 parlamentares, equivalentes a 7,8%, foram classificados na faixa boa. Outros 128, ou 25% da Câmara, alcançaram o nível muito bom de convergência.
Na avaliação do Observatório do Clima, o resultado está relacionado ao avanço de partidos de extrema direita no Legislativo. Segundo a organização, essas siglas apresentam historicamente índices reduzidos de alinhamento às políticas ambientais.
O Partido Liberal (PL) é um dos exemplos citados no levantamento. A legenda passou de 15 para 28 cadeiras no Senado, alcançando 34,6% da composição da Casa, e ampliou sua bancada na Câmara de 98 para 121 deputados federais, o equivalente a 23,6% das vagas.
A presença expressiva de parlamentares com baixo alinhamento ambiental pode influenciar a tramitação de propostas e as negociações políticas em torno de medidas de conservação, fiscalização e combate às mudanças climáticas.
COMO FOI FEITA A ANÁLISE DOS PARLAMENTARES
Para elaborar o levantamento, o Observatório do Clima utilizou o índice de convergência ambiental e consultou informações de fontes oficiais, incluindo dados da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, das assembleias legislativas e dos governos.
A análise também recorreu à plataforma Farol Verde, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, utilizada para acompanhar o posicionamento de representantes políticos em relação às pautas ambientais.
As fontes complementares permitiram classificar parlamentares eleitos que ainda não possuíam avaliação registrada no indicador.
Com a nova composição do Congresso prevista para 2027, os números antecipam um período de disputas em torno da legislação ambiental brasileira. O resultado das votações e das negociações entre bancadas será determinante para definir se as políticas de preservação e enfrentamento da crise climática avançarão ou enfrentarão novos obstáculos.
Com informações de Agência Brasil