domingo, 4 outubro , 2026

Avanço da IA nas escolas reforça importância do pensamento crítico

por Duda Amaral
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As inteligências artificiais generativas estão ganhando espaço no ambiente educacional e já provocam mudanças na maneira como professores e estudantes lidam com conhecimento, pesquisas e avaliações. A capacidade de produzir textos, imagens, vídeos, áudios e códigos a partir de comandos amplia as possibilidades pedagógicas, mas também coloca em discussão questões como autoria, pensamento crítico e uso responsável da tecnologia.

O avanço dessas ferramentas esteve entre os temas debatidos durante o 7º Congresso Internacional da Rede de Educação OnLIFE (RIEOnLIFE), realizado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). Pesquisadores e profissionais da educação discutiram como as novas tecnologias podem interferir nos processos de ensino e aprendizagem.

IA GANHA ESPAÇO NO COTIDIANO EDUCACIONAL

Para Eliane Schlemmer, presidente da RIEOnLIFE, a discussão sobre inteligência artificial nas escolas não deveria ficar restrita à permissão ou proibição do uso dessas ferramentas pelos estudantes.

A pesquisadora defende que o foco precisa estar na compreensão de como a IA pode ser incorporada às práticas pedagógicas, quais habilidades devem ser desenvolvidas e quais cuidados precisam acompanhar essa utilização.

“Embora não seja nova, tendo surgido na década de 1950, a IA se popularizou por volta de 2022, tendo um desenvolvimento muito rápido e intenso desde então, e não tem como a educação ficar alheia a isso. E, uma vez que a gente fala de uma ação que se desenvolve ligada, conectada na vida, que é o que propõe o paradigma da educação OnLife, a gente precisa compreender essa nova tecnologia, quais são as potencialidades que ela apresenta para a educação, quais são os desafios e como ela nos obriga a olhar para os processos de ensino e aprendizagem que a gente desenvolve.”

Com pós-doutorado em Educação, voltado à inovação e à cultura híbrida e multimodal, Eliane considera que a inteligência artificial deve ser entendida como uma modalidade de inteligência diferente da humana.

Nesse contexto, o professor passa a ter também a função de orientar os alunos sobre a maneira adequada de interagir com as ferramentas. A capacidade de formular perguntas e comandos precisos, por exemplo, ganha importância.

“Historicamente cabia ao professor fazer as perguntas e ao aluno respondê-las. Agora o aluno também precisa saber fazer boas perguntas, elaborar um bom prompt, pois isso é necessário para que a inteligência artificial generativa ajude-o a dar forma àquilo que quer saber.”

PENSAMENTO CRÍTICO SE TORNA AINDA MAIS IMPORTANTE

A utilização da IA não elimina a necessidade de conhecimento prévio e capacidade de análise. Pelo contrário, segundo Eliane, a expansão dessas ferramentas aumenta a importância de saber avaliar criticamente as respostas produzidas pelos sistemas.

Informações incorretas, vieses algorítmicos e respostas inadequadas estão entre os aspectos que precisam ser considerados durante o uso educacional da tecnologia.

“Eu acho que tudo passa justamente por educar para o uso da inteligência artificial, discutindo suas possibilidades, potencialidades e também os riscos, como os vieses dos algoritmos. O conhecimento se tornou mais importante do que nunca, porque é preciso ter criticidade para avaliar aquilo que a IA apresenta e verificar se faz sentido dentro daquilo que você pretende desenvolver. Então, nunca foi tão necessário exercer o discernimento e a capacidade humana de analisar criticamente.”

A perspectiva apresentada no congresso coloca o conhecimento não como algo substituído pela IA, mas como uma ferramenta necessária para que estudantes consigam interpretar, questionar e validar aquilo que recebem das plataformas.

PROFESSORES PRECISAM SE ADAPTAR À NOVA REALIDADE

Durante o painel dedicado à inteligência artificial na educação pública brasileira, o professor João Velasques Paladini destacou que a entrada das ferramentas de IA nas escolas ocorreu, em muitos casos, primeiro por iniciativa dos próprios estudantes.

A mudança criou novos desafios para práticas pedagógicas que haviam sido desenvolvidas antes da popularização dos sistemas generativos. Para o professor, a adaptação dos docentes é fundamental para que a tecnologia seja incorporada de maneira planejada ao processo de aprendizagem.

“A inteligência artificial já faz parte da realidade e estará cada vez mais presente na profissão docente. Por isso, quanto antes os professores se apropriarem dessa tecnologia, mais fácil será incorporá-la às práticas pedagógicas. Para isso, são importantes as formações e a participação em eventos que permitam aos docentes conhecer e utilizar essas ferramentas com mais segurança.”

Paladini possui doutorado em Educação e atua com estudantes dos ensinos fundamental e médio. Nesse cenário, a formação continuada aparece como um dos caminhos para que os profissionais conheçam as possibilidades e limitações das ferramentas disponíveis.

IA PODE MUDAR A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO

A professora Carolina Müller, doutora em Linguística Aplicada e responsável por cursos relacionados ao uso de tecnologias digitais em sala de aula, chama atenção para outra transformação provocada pela inteligência artificial.

Na avaliação dela, o desafio não está apenas em permitir que o aluno encontre rapidamente uma informação, mas em criar situações que façam com que ele participe efetivamente da construção do conhecimento.

“Não dá mais para o professor, por exemplo, pedir que o aluno faça uma pesquisa sobre um determinado assunto sem apresentar uma questão que o leve à problematização. Porque essa problematização é que vai fazê-lo usar a IA de forma consciente. É preciso, portanto, ajudá-lo a usar a inteligência artificial para construir conhecimento e aprender com ela, e não apenas sobre ela.”

A mudança pode atingir, portanto, atividades tradicionais, como pesquisas escolares. Em vez de simplesmente solicitar que o estudante reúna informações sobre determinado tema, a proposta passa a envolver perguntas, análise, problematização e reflexão sobre o conteúdo obtido com auxílio da tecnologia.

A discussão também desloca o debate sobre a inteligência artificial de uma possível substituição do professor para a transformação do papel desempenhado por ele. Nesse novo cenário, a tecnologia pode integrar o processo pedagógico, enquanto a orientação docente continua sendo importante para estimular reflexão, autonomia e capacidade crítica.


Com informações de ALESC

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