sexta-feira, 30 outubro , 2026

A dança que me fez chorar: “Leva” mostra a força da inclusão no TAC

por Rosana Ritta
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Estreia de “Leva”, da Lápis de Seda Cia. de Dança Inclusiva, em Florianópolis, faz esta jornalista calejada ir às lágrimas e emociona o público do TAC, ao mostrar os extremos entre a leveza e o peso da vida

Chorei, chorei e chorei… O que levaria essa jornalista calejada ir às lágrimas ao assistir a um espetáculo de dança em plena três horas de uma tarde tranquila? Pois é, confesso que diante dos nove bailarinos que se revezavam no palco, “farmando aura”, segundo um dos jovens espectadores, as lágrimas rolaram livremente.

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Depois de mais de dois anos de estudos, ensaios e planejamento, “Leva” ganhou uma forma que estará em constante adaptação – Foto Dylan Pieczarka Pederneiras

O cenário era o mais acolhedor possível. A tarde de uma quinta-feira nublada e de temperatura amena na capital catarinense, no histórico TAC (Teatro Álvaro de Carvalho). No palco, bailarinos profissionais, alguns com deficiência, exibiam leveza e sintonia em seus gestos, mesmo usando cadeiras de rodas ou andadores, embalados por uma trilha sonora delicada e ao mesmo tempo forte, em um cenário espetacular.

A plateia, formada por animados estudantes de ensino fundamental, adolescentes do ensino médio, professores, colegas dos bailarinos, alguns com deficiência como parte do elenco, amigos e familiares dos protagonistas, assistia, emocionada, à estreia do espetáculo “Leva”, da Lápis de Seda Cia. de Dança Inclusiva.

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A delicadeza dos passos e dos movimentos de cada bailarino foi valorizada pela iluminação cênica – Foto Dylan Pieczarka Pederneiras

A inclusão e a forma como carregamos nossos fardos

E tomada por toda a emoção desta coreografia, que evoca saudades, lembra despedidas, os pesados fardos que nos são impostos e, ao mesmo tempo, a beleza e a força de resistência de cada um – assim como grande parte da plateia – chorei. Ao meu lado, a assessora de imprensa da companhia, Taísa Rodrigues, também não escondeu as lágrimas.

O ápice da emoção foi a homenagem à bailarina Silvinha, que integrava o elenco e morreu poucos dias antes da estreia, o que exigiu adaptações no espetáculo e despertou curiosidade da plateia.

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Bailarinos profissionais, com deficiência ou não, encontram seu espaço no mercado da dança – Foto Dylan Pieczarka Pederneiras

Nos meus mais de 40 anos de carreira assisti a muitos espetáculos, cobri grandes tragédias, conheço como poucos as maiores ocorrências policiais do território catarinense dos últimos 35 anos, sou fã assumida de true crime e afins, mas como profissional multimídia e jornalista generalista, também trabalhei com política, assuntos gerais e, ultimamente, com maior foco na área cultural.

Nesta caminhada, chorei em umas três entrevistas – quando um pai deu o rim para salvar o filho e quando falei com doentes mentais em adaptação para voltar para casa depois de décadas de internação. Também trabalhei com um repórter que me levava às lágrimas a cada texto que eu editava.

Então, chorei tocada pela sensibilidade que aquelas figuras emanavam, pelo orgulho de ter um filho do coração que é um dos maiores coreógrafos de Santa Catarina, e pela força da inclusão. Chorei pelo meu netinho autista de 9 anos. Ele era não verbal. De repente, desandou a falar… E no dia da eleição chegou gritando que queria votar no… É muita emoção, né!

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Os desafios pessoais se sobressaem a cada movimento no espetáculo que agora integra o repertório da companhia e está pronto para circular – Foto Dylan Pieczarka Pederneiras

Um novo olhar para a pessoa com deficiência

“Leva” é resultado de um processo de pesquisa desenvolvido entre 2023 e 2024, no projeto Um Novo Olhar Para a Pessoa com Deficiência, que promoveu oficinas gratuitas de dança e alcançou 260 alunos em Santa Catarina e outros estados.

Mais do que apresentação artística, “Leva” se propôs, e conseguiu, fortalecer a inclusão e a profissionalização de bailarinos com e sem deficiência, ampliando as oportunidades de atuação no mercado da dança. A idealizadora e diretora da companhia, Ana Luiza Ciscato, informa que agora o espetáculo passa a integrar o repertório permanente do grupo, para novas apresentações e circulações.

“Este espetáculo representa uma oportunidade concreta de desenvolvimento pessoal, técnico e profissional, com a chance de inserir o elenco no mercado de trabalho, assegurando fonte de renda com remuneração justa, continuidade formativa e inserção.”

Fundada em 2013, a Lápis de Seda atua na inclusão, formação e profissionalização de pessoas com deficiência pela dança. Elas representam 60% do elenco principal.

PARA CONHECER MELHOR A LÁPIS DE SEDA

O trabalho pode ser acompanhado pelo Instagram @cialapisdeseda.

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