quarta-feira, 21 outubro , 2026

42% dos brasileiros querem mais shows, cinemas e teatros gratuitos

por Duda Amaral
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Ampliar o acesso gratuito a shows, cinemas, teatros e exposições está entre as principais expectativas da população brasileira para os próximos governantes. De acordo com a pesquisa Hábitos Culturais, divulgada na quarta-feira (14), 42% dos entrevistados defendem que essa medida seja uma prioridade nas políticas públicas para o setor.

O levantamento também evidencia as desigualdades que dificultam a participação em atividades culturais no país. Embora o acesso à cultura seja um direito previsto na Constituição Federal, as oportunidades ainda variam significativamente conforme a condição socioeconômica, os custos envolvidos e a infraestrutura disponível nas diferentes regiões.

Um dos exemplos mais expressivos está na frequência aos cinemas. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 63% das pessoas das classes A e B assistiram a filmes nas salas de exibição. Entre os brasileiros das classes D e E, o percentual foi de apenas 18%, uma diferença de 45 pontos percentuais.

ACESSO GRATUITO LIDERA AS DEMANDAS DA POPULAÇÃO

Além da ampliação das atividades culturais gratuitas, os brasileiros apontam outras medidas que consideram necessárias para democratizar o acesso à cultura.

Segundo os dados, 32% dos participantes gostariam que fossem criados mais espaços públicos destinados a atividades culturais, como museus, teatros e cinemas. Outros 28% defendem melhorias, reformas e modernização dos equipamentos que já existem.

O incentivo financeiro à produção cultural independente também aparece entre as prioridades, com 26% das respostas. Já 22% dos entrevistados destacam a importância de apoiar iniciativas culturais em favelas, periferias e comunidades tradicionais.

A valorização e a capacitação de artistas e demais profissionais do setor foram mencionadas por 21% dos participantes.

Para Ana Maria Cardoso, coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, os resultados demonstram que as barreiras ao acesso cultural não estão necessariamente relacionadas às preferências individuais.

“Como é possível observar por meio dos dados, o acesso à cultura realmente ainda é bastante desigual, sobretudo quando observamos pela perspectiva socioeconômica ou até mesmo de níveis de escolaridade entre os brasileiros”, diz a coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso.

“Apesar das disparidades, tais dados não significam que pessoas das classes sociais mais baixas ou com menor escolaridade deem menor valor à cultura; ao contrário, o que a pesquisa mostra é que existem barreiras que vão além da subjetividade individual ou mesmo do gosto pessoal que interferem diretamente nesse acesso”, acrescenta.

DESIGUALDADE MARCA A PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS CULTURAIS

Os números mostram que a maior parte da população reconhece a importância do direito à cultura. Ao todo, 68% dos entrevistados afirmam saber que o acesso às atividades culturais está garantido pela Constituição Federal.

Mesmo assim, a participação presencial ainda apresenta diferenças entre as faixas de renda. Nos 12 meses anteriores ao levantamento, 97% dos brasileiros das classes A e B estiveram em pelo menos uma atividade cultural presencial, como shows, apresentações teatrais, exposições, visitas a museus ou sessões de cinema.

Entre os integrantes das classes D e E, o índice foi de 82%.

A desigualdade também aparece na distribuição dos espaços culturais. Cerca de um terço dos entrevistados, o equivalente a 33%, afirmou não encontrar equipamentos culturais na região em que vive.

O desconhecimento sobre os direitos culturais representa outro desafio. Conforme o levantamento, 32% dos brasileiros não sabiam que o acesso à cultura é assegurado pela Constituição, enquanto 27% disseram desconhecer o significado de ter esse direito.

“Os dados indicam que existem caminhos para avançar, tanto no que se refere à importância de fortalecer e ampliar a oferta de atividades culturais gratuitas, quanto na própria expectativa e entendimento da população sobre o direito cultural, uma vez que 32% da população dizem não saber que o acesso à cultura está garantido na Constituição e 27% afirmam não saber o que significa ter direito à cultura”, ressalta Cardoso.

CUSTOS DE INGRESSOS E TRANSPORTE DIFICULTAM O ACESSO

O preço dos ingressos e as despesas com deslocamento estão entre os principais obstáculos para quem deseja frequentar eventos culturais presencialmente. Esse motivo foi citado por 35% dos entrevistados como um fator que desestimula a participação.

Os gastos mensais também ajudam a dimensionar a relação entre renda e consumo cultural. Entre as pessoas que afirmaram gastar com atividades presenciais, 46% desembolsam até R$ 100 por mês.

Outros 14% destinam entre R$ 101 e R$ 150 mensais a essas atividades, enquanto 15% gastam de R$ 151 a R$ 200. Já entre os entrevistados, 8% relataram despesas superiores a R$ 400 por mês.

Os resultados indicam que ampliar a oferta de atrações gratuitas pode contribuir para reduzir as barreiras financeiras, especialmente entre as pessoas que precisam comprometer uma parcela significativa do orçamento para participar de eventos.

MEDO DA VIOLÊNCIA AFASTA PÚBLICO DOS ESPAÇOS CULTURAIS

Além dos custos, a preocupação com a segurança também interfere nas decisões de frequentar atividades culturais. A insegurança e a violência foram apontadas por 30% dos participantes como fatores que desmotivam a presença nesses espaços.

Outros obstáculos mencionados foram a falta de disponibilidade de horário, com 23% das respostas, o cansaço ou desânimo, com 21%, a distância dos eventos e a lotação, ambos com 19%, além da falta de transporte, citada por 16%.

Quando questionados sobre os riscos específicos relacionados à segurança, 47% dos entrevistados demonstraram preocupação com assaltos ou furtos nas proximidades dos locais onde ocorrem eventos culturais. A falta de policiamento no entorno foi mencionada por 43%, enquanto 29% apontaram o risco de crimes durante o trajeto até os espaços.

A violência contra as mulheres e o assédio também aparecem como questões relevantes. Esse problema foi citado por 27% dos participantes, seis pontos percentuais acima do índice de 21% registrado na pesquisa anterior.

A diferença entre os gêneros chama a atenção: 38% das mulheres manifestaram preocupação com esse tipo de situação, diante de 14% dos homens.

POLÍTICAS PÚBLICAS PODEM AMPLIAR A DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA

Os resultados da pesquisa Hábitos Culturais mostram que o acesso à cultura envolve desafios que vão além da existência de atividades e equipamentos disponíveis. O preço, a distância, a falta de transporte e a percepção de insegurança também influenciam a participação da população.

Nesse cenário, a ampliação da programação gratuita, a criação e modernização de espaços culturais e o incentivo à produção independente aparecem como medidas alinhadas às expectativas dos brasileiros.

Os dados também reforçam a importância de levar iniciativas culturais a regiões com oferta limitada, incluindo periferias e comunidades tradicionais. Para que o direito à cultura seja exercido de maneira mais igualitária, o desafio está em tornar as atividades acessíveis não apenas financeiramente, mas também em termos de localização, mobilidade e segurança.


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