Lula critica guerras, defende soberania e cobra mudanças na ONU em discurso
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22), em Nova York, para defender a soberania dos países, criticar interferências externas em processos eleitorais e cobrar mudanças no sistema multilateral. Guerras, democracia, desinformação, segurança pública e mudanças climáticas também estiveram entre os principais temas abordados pelo brasileiro.
Em cerca de 20 minutos diante de representantes dos Estados-membros da ONU, Lula afirmou que a organização atravessa seu momento mais crítico desde 2003, quando discursou pela primeira vez na Assembleia Geral. Segundo ele, a incapacidade de conter conflitos e proteger populações vulneráveis compromete a credibilidade das Nações Unidas.
Veja vídeo com o discurso de Lula na ONU:
LULA CRITICA ATUAÇÃO DA ONU DIANTE DAS GUERRAS
Uma das partes mais contundentes do pronunciamento foi dedicada aos conflitos internacionais e à estrutura das Nações Unidas.
Lula voltou a questionar o funcionamento do Conselho de Segurança e, principalmente, o poder de veto concedido aos cinco membros permanentes do órgão. Para o presidente, o mecanismo contribui para a paralisia da comunidade internacional diante das guerras.
“O sentimento que me move hoje é o da indignação”, afirmou. Em seguida, disse que “a capacidade da ONU de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exércitos nem arsenais, nunca foi tão pequena”.
Ao abordar a guerra no Oriente Médio, Lula criticou as ações do governo de Benjamin Netanyahu em Gaza e também condenou os ataques do Hamas contra civis israelenses.
SOBERANIA E INTERFERÊNCIA EXTERNA GANHAM DESTAQUE
A defesa da soberania nacional foi outro eixo central do discurso, especialmente quando Lula tratou da América Latina e do Caribe.
O presidente afirmou que a região enfrenta pressões em um cenário de aumento das disputas entre potências e defendeu que os países possam decidir seus próprios caminhos políticos.

Foto: Ricardo Stuckert.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou.
A afirmação reforçou uma mensagem que já vinha sendo antecipada pelo governo brasileiro antes da Assembleia Geral. O site oficial do PT havia informado, dias antes, que Lula pretendia concentrar parte do pronunciamento na defesa da democracia, da soberania e do princípio de não interferência nos assuntos internos de outros países.
ELEIÇÕES BRASILEIRAS ENTRAM NO DISCURSO
A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, Lula também levou o cenário político nacional à tribuna da ONU.
Sem citar diretamente um governo estrangeiro ao falar das eleições, o presidente alertou para interferências externas e para a atuação de redes de desinformação durante campanhas eleitorais.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos ou externos, atentem contra a vontade popular. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”, declarou.
Lula também afirmou confiar nas instituições brasileiras e no sistema eleitoral para assegurar o resultado das urnas.
VENEZUELA, NICARÁGUA, HAITI E CUBA SÃO CITADOS
Ao ampliar o discurso para a América Latina e o Caribe, Lula mencionou diferentes situações políticas e humanitárias da região.
Sobre a Venezuela, defendeu que o próprio povo venezuelano determine seu futuro sem interferências externas. Em relação à Nicarágua, afirmou que os problemas do país não serão solucionados com restrições à participação da oposição nas eleições.
O presidente também mencionou a crise humanitária no Haiti e voltou a criticar o embargo econômico imposto a Cuba.
LULA REJEITA INTERVENÇÃO ESTRANGEIRA CONTRA O CRIME ORGANIZADO
Outro ponto do pronunciamento foi a segurança pública. Lula rejeitou o uso de forças estrangeiras no combate ao crime organizado dentro do território brasileiro e defendeu uma estratégia baseada na cooperação entre países.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas; precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, afirmou.
Segundo o presidente, a colaboração internacional deve se concentrar principalmente no combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro. Ele afirmou que o Brasil apresentou aos Estados Unidos uma proposta de cooperação nessa área.
DESINFORMAÇÃO, VACINAS E MUDANÇAS CLIMÁTICAS
O avanço da desinformação também apareceu em diferentes momentos do discurso. Lula relacionou o problema tanto às eleições quanto à disseminação de conteúdos contrários a evidências científicas.
O presidente citou campanhas contra vacinas e alertou para o retorno de doenças anteriormente controladas. Também defendeu o fortalecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na pauta ambiental, Lula criticou a perda de espaço das mudanças climáticas nas discussões internacionais e cobrou uma retomada das ações globais contra o aquecimento do planeta. O presidente mencionou ainda a redução do desmatamento da Amazônia e iniciativas apresentadas pelo Brasil durante a COP30.
DISCURSO REFORÇA DEFESA DO MULTILATERALISMO
Ao reunir temas como guerras, democracia, soberania, segurança e clima, Lula voltou a defender o multilateralismo como instrumento para enfrentar problemas que ultrapassam as fronteiras nacionais.
A posição também havia sido antecipada pelo PT antes da viagem a Nova York. A legenda informou que o presidente voltaria a defender uma reforma do Conselho de Segurança e uma atualização da estrutura de governança internacional.
Na prática, o pronunciamento combinou pautas tradicionais da política externa brasileira — como reforma das instituições multilaterais, integração regional e soberania — com questões diretamente relacionadas ao atual cenário político e eleitoral do Brasil.
Lula discursou antes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantendo a tradição de o Brasil abrir o debate geral da Assembleia das Nações Unidas.