sexta-feira, 23 outubro , 2026

Lula trata crise climática como emergência; Flávio prioriza potencial econômico dos recursos naturais

por Adriana Dias
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Planos de governo apresentam diferenças na proteção das florestas, no combate ao desmatamento, na prevenção de desastres e nos direitos dos povos tradicionais. Entenda o que cada candidato propõe.

A diferença começa pela importância dada à crise climática nos planos de governo. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trata as mudanças climáticas como uma emergência, Flávio Bolsonaro (PL) menciona apenas uma vez os eventos climáticos extremos.

Os dois candidatos à Presidência da República apresentam propostas para a proteção ambiental, o aproveitamento econômico da biodiversidade e a prevenção de desastres. Mas partem de perspectivas diferentes sobre o papel do meio ambiente no desenvolvimento do Brasil.

No programa de Lula, a crise climática orienta políticas públicas de infraestrutura, proteção social, conservação ambiental e desenvolvimento econômico. No de Flávio, a preservação aparece principalmente como uma oportunidade de geração de riqueza, inovação e renda.

Para compreender melhor essas diferenças, o Conecta SC organizou as propostas por temas, com comparações diretas entre os candidatos e um panorama das políticas ambientais dos governos anteriores.

🌎 CRISE CLIMÁTICA: QUAL É A PRIORIDADE DE CADA CANDIDATO?

O que dizem os planos de governo?

🔴 LULA (PT) — Emergência climática

  • O termo “mudanças climáticas” aparece 38 vezes no plano de governo.
  • A crise climática é apresentada como um dos eixos orientadores das políticas públicas.
  • O programa reúne medidas de mitigação e adaptação, considerando aspectos sociais, econômicos e ambientais.
  • Prevê infraestrutura resiliente, geração de renda para quem protege florestas e mananciais e ampliação dos instrumentos de financiamento climático.
  • Defende ações internacionais contra o aquecimento global e o desmatamento, valorizando os conhecimentos, as tradições e a diversidade dos povos.

🔵 FLÁVIO BOLSONARO (PL) — Desenvolvimento econômico

  • O plano menciona uma única vez os “eventos climáticos extremos”.
  • A conservação ambiental é apresentada como um ativo estratégico para gerar desenvolvimento e renda.
  • Defende o mercado regulado de carbono, a bioeconomia e o pagamento por serviços ambientais.
  • Essas propostas econômicas não são acompanhadas, no documento, de uma abordagem sobre os impactos das mudanças climáticas e as medidas de adaptação necessárias à sua sustentabilidade.

📌 A principal diferença: Lula coloca o enfrentamento da crise climática no centro do planejamento governamental. Flávio enfatiza o aproveitamento econômico dos recursos naturais e da conservação ambiental.

🌧️ PREVENÇÃO DE DESASTRES E ADAPTAÇÃO DAS CIDADES

Enchentes, deslizamentos, secas e dificuldades no abastecimento de água exigem investimentos em infraestrutura e prevenção. Como cada candidato pretende enfrentar esses desafios?

🔴 O QUE LULA PROPÕE

Água e proteção ambiental

  • Revitalização das bacias hidrográficas.
  • Ampliação da infraestrutura de segurança hídrica.
  • Proteção de mananciais.

Cidades mais preparadas

  • Obras de contenção de encostas.
  • Drenagem urbana sustentável.
  • Incentivo à infraestrutura verde.
  • Apoio federal a inovações na gestão de resíduos sólidos.

Prevenção e planejamento

  • Ampliação dos investimentos na prevenção e redução dos riscos de desastres.
  • Estruturação de projetos climáticos regionais.
  • Maior eficiência dos investimentos públicos.
  • Ampliação dos instrumentos de financiamento.
  • Inclusão da Caatinga como ativo estratégico no combate à desertificação e na redução das emissões de gases de efeito estufa.

🔵 O QUE FLÁVIO PROPÕE

Infraestrutura hídrica

  • Construção e ampliação de barragens de usos múltiplos.
  • Reservatórios para controle de cheias.
  • Canais e obras de drenagem.
  • Sistemas de prevenção de eventos climáticos extremos.

Proteção da população

  • Fortalecimento do monitoramento de riscos.
  • Melhoria dos sistemas de alerta.
  • Ampliação da capacidade de resposta da Defesa Civil.

📌 Em comparação: Os dois candidatos apresentam medidas relacionadas à infraestrutura hídrica e à prevenção de desastres. Lula associa essas ações a uma política mais ampla de adaptação climática, enquanto Flávio concentra suas propostas em obras e sistemas de prevenção, monitoramento e resposta.

🌳 DESMATAMENTO: AS METAS SÃO DIFERENTES

Este é um dos pontos em que os planos estabelecem compromissos distintos.

🔴 LULA — Desmatamento zero até 2030

A meta apresentada é zerar o desmatamento até 2030.

Entre as medidas propostas estão:

  • Implementação dos planos de prevenção e controle do desmatamento.
  • Fortalecimento do manejo integrado do fogo.
  • Valorização dos parques nacionais por meio do turismo sustentável, do desenvolvimento regional e da educação ambiental.
  • Incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
  • Aprimoramento do pagamento por serviços ambientais como complemento à restauração florestal.
  • Fortalecimento do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica.
  • Participação brasileira na implementação do mapa do caminho para a eliminação global do desmatamento, articulando medidas nacionais e compromissos internacionais.

🔵 FLÁVIO — Desmatamento ilegal zero até 2029

A meta apresentada é zerar o desmatamento ilegal até 2029.

O programa prevê:

  • Combate às queimadas ilegais.
  • Fortalecimento da prevenção e do monitoramento ambiental.
  • Ampliação da fiscalização e do enfrentamento aos crimes ambientais.
  • Consolidação do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
  • Ampliação do pagamento por serviços ambientais, reconhecendo produtores que preservam a vegetação nativa e recuperam áreas degradadas.

⚠️ ATENÇÃO À DIFERENÇA

LulaFlávio
Desmatamento zeroDesmatamento ilegal zero
Até 2030Até 2029

As metas não são equivalentes. A proposta de Lula é mais abrangente quanto ao tipo de desmatamento que pretende eliminar. Já a de Flávio estabelece o combate ao desmatamento considerado ilegal, mantendo a distinção entre atividades autorizadas e não autorizadas pela legislação.

🌿 AMAZÔNIA: CONSERVAÇÃO, ECONOMIA E FISCALIZAÇÃO

Os dois programas associam preservação ambiental e desenvolvimento econômico, mas apresentam caminhos diferentes.

🔴 LULA: PROTEÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O plano do PT relaciona a conservação da Amazônia e dos demais biomas a políticas de enfrentamento das mudanças climáticas, restauração florestal e valorização dos territórios.

Entre as estratégias estão o fortalecimento da legislação ambiental, os programas de turismo sustentável e a ampliação dos mecanismos de pagamento por serviços ambientais.

🔵 FLÁVIO: TRANSFORMAR A FLORESTA PRESERVADA EM RIQUEZA

O programa do PL propõe ampliar as oportunidades econômicas relacionadas à biodiversidade amazônica, com investimentos e atividades como:

  • Biotecnologia.
  • Desenvolvimento de fármacos.
  • Produção de cosméticos.
  • Criação de novos materiais a partir da biodiversidade.
  • Manejo sustentável.
  • Agregação de valor aos produtos da floresta.

A proposta é gerar desenvolvimento econômico a partir da Amazônia preservada, como alternativa à derrubada da vegetação.

O documento também afirma que a proteção da floresta depende do combate ao crime e da criação de oportunidades reais de desenvolvimento para a população local.

E o que muda na fiscalização ambiental?

Flávio defende a eliminação de supostas sobreposições de atribuições entre órgãos como:

  • Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
  • Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
  • Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O programa, entretanto, não especifica quais seriam essas sobreposições nem detalha como seriam eliminadas.

🏹 POVOS INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS

A relação entre proteção territorial, direitos sociais e desenvolvimento econômico também aparece de maneira diferente nos programas.

🔴 LULA: TERRITÓRIOS E PROTEÇÃO SOCIAL

O candidato propõe:

  • Ampliar a destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas, quilombolas e assentamentos.
  • Reforçar a regularização fundiária.
  • Consolidar a agenda nacional de proteção social para povos e comunidades tradicionais.
  • Integrar o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) às políticas de enfrentamento das mudanças climáticas e dos desastres.
  • Ampliar a capacidade do Estado de proteger famílias atingidas por eventos extremos.
  • Realizar novas seleções de projetos de urbanização em favelas e comunidades urbanas, promovendo inclusão nos programas de desenvolvimento urbano sustentável.

🔵 FLÁVIO: AUTONOMIA PRODUTIVA E COMPENSAÇÕES

O candidato propõe:

  • Garantir autonomia aos povos indígenas e quilombolas para decidir sobre atividades produtivas em suas terras.
  • Condicionar essas atividades ao respeito às regras ambientais e ao desenvolvimento sustentável.
  • Prever indenizações por eventuais restrições ao usufruto dos territórios.
  • Criar mecanismos de compensação para quem ocupa e produz nessas áreas.

📌 A diferença: Lula prioriza a destinação e regularização de territórios e a ampliação da proteção social. Flávio destaca a autonomia para atividades econômicas e os mecanismos de indenização e compensação.

📊 O QUE MOSTRA O HISTÓRICO DAS POLÍTICAS AMBIENTAIS?

Além das promessas para o próximo mandato, a reportagem da Agência Brasil apresenta dados sobre políticas adotadas durante os governos do PT e de Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro.

É importante distinguir as propostas do atual candidato do PL das ações realizadas pelo governo de seu pai, entre 2019 e 2022.

🔴 GOVERNOS DO PT: PLANOS CLIMÁTICOS, CONSERVAÇÃO E FINANCIAMENTO

O enfrentamento às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade foi incorporado a diferentes áreas de atuação governamental.

📋 Plano Clima

O planejamento desenvolvido reúne:

  • 8 planos de mitigação.
  • 16 planos de adaptação.
  • 5 estratégias transversais de ação climática.

🏙️ Adaptação urbana

Foram desenvolvidos programas como o AdaptaCidades e o Periferia Viva, voltados à adaptação das áreas urbanas às mudanças climáticas.

🌳 Proteção ambiental

Entre as ações registradas estão:

  • Criação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.
  • Desenvolvimento dos Planos de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
  • Criação de 231 novas unidades de conservação, incluindo unidades públicas municipais, estaduais e federais e Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
  • Redução do desmatamento a patamares inferiores às médias históricas.
  • Demarcação de 21 terras indígenas.

💰 Financiamento ambiental

Foram destinados R$ 19,7 bilhões aos órgãos de fiscalização ambiental.

Também foram desenvolvidos ou fortalecidos instrumentos de financiamento, como:

  • Fundo Tropical Florestas para Sempre (TFFF).
  • Fundo Nacional do Meio Ambiente.
  • Fundo Amazônia.

⚠️ CRÍTICAS À POLÍTICA AMBIENTAL DE LULA

Apesar das iniciativas de proteção ambiental, o governo Lula também recebeu críticas de organizações ambientalistas e representantes indígenas.

Exploração na Foz do Amazonas

O apoio à pesquisa exploratória na bacia sedimentar da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira, provocou questionamentos de ambientalistas.

Segundo essas organizações, a região é vital para a proteção do clima e da biodiversidade.

Demarcação de terras indígenas

Embora o governo tenha retomado processos de demarcação que estavam represados na gestão anterior, entidades representativas dos povos indígenas criticaram a demora na conclusão dos procedimentos pendentes no Ministério da Justiça.

🔵 GOVERNO JAIR BOLSONARO (2019–2022): REDUÇÃO DE POLÍTICAS E AVANÇO DO DESMATAMENTO

A reportagem também recupera medidas e indicadores ambientais registrados durante o governo de Jair Bolsonaro.

💰 Recursos para fiscalização

Foram destinados R$ 7,4 bilhões aos órgãos de fiscalização ambiental.

A destinação de recursos de fundos ambientais para novos projetos foi congelada.

🌳 Desmatamento e conservação

  • Nenhuma terra indígena foi demarcada durante os quatro anos de governo.
  • Houve crescimento do desmatamento.
  • Programas de ação e controle do desmatamento foram extintos.
  • O Brasil registrou os maiores níveis de emissões de gases de efeito estufa.
  • Na Amazônia, o desmatamento alcançou 45.612 km².
  • Cerca de 20 mil garimpeiros passaram a atuar na Terra Indígena Yanomami.

🏛️ Mudanças na estrutura ambiental

  • O Serviço Florestal Brasileiro foi transferido para o Ministério da Agricultura.
  • A gestão do Cadastro Ambiental Rural também passou à pasta.
  • A maior parte dos conselhos ambientais foi extinta.

📉 OS NÚMEROS EM PERSPECTIVA

IndicadorGovernos do PTGoverno Jair Bolsonaro (2019–2022)
Recursos destinados à fiscalização ambientalR$ 19,7 bilhõesR$ 7,4 bilhões
Terras indígenas demarcadas21Nenhuma
DesmatamentoReduzido a níveis abaixo das médias históricasCrescimento registrado
Fundos ambientaisDesenvolvimento e fortalecimento de mecanismos de financiamentoCongelamento de recursos para novos projetos

Os dados correspondem aos períodos abordados pela reportagem original da Agência Brasil. A comparação é histórica e não constitui uma projeção do que seria um eventual governo Flávio Bolsonaro. Os valores de recursos também não foram apresentados como séries anuais equivalentes.

🗣️ A FRASE QUE MARCOU A POLÍTICA AMBIENTAL DO GOVERNO BOLSONARO

Um dos episódios mais conhecidos da gestão ambiental de Jair Bolsonaro ocorreu em 2020, durante a pandemia de covid-19.

Em reunião no Palácio do Planalto, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar o momento em que a atenção da imprensa estava concentrada na pandemia para flexibilizar normas ambientais que não dependessem de aprovação do Congresso Nacional.

Na ocasião, afirmou:

“Então é hora de juntar as forças de todos os ministérios aqui e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

A declaração tornou-se um dos símbolos da política de flexibilização das regras ambientais daquele governo.

🔎 AFINAL, O QUE ESTÁ EM DISPUTA?

Os planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam convergências em temas como infraestrutura hídrica, prevenção de desastres, conservação florestal e mecanismos de valorização econômica da biodiversidade.

A diferença está principalmente na maneira como essas propostas são articuladas.

🌎 Lula apresenta o enfrentamento da emergência climática como eixo de planejamento do Estado, associando proteção ambiental, desenvolvimento econômico, políticas sociais, adaptação das cidades e compromissos internacionais.

🌿 Flávio Bolsonaro enfatiza o potencial econômico da conservação, o aproveitamento sustentável dos recursos naturais, o combate aos crimes ambientais e os investimentos em infraestrutura para prevenção de eventos extremos.

As metas de desmatamento também evidenciam essa distinção: Lula propõe desmatamento zero até 2030, enquanto Flávio estabelece a meta de eliminar o desmatamento ilegal até 2029.

Para o eleitor, compreender essas diferenças significa olhar não apenas para as promessas de preservação, mas também para os instrumentos, as prioridades e os compromissos que cada candidato apresenta para colocá-las em prática.


Fonte: Agência Brasil — reportagem “Veja os planos de governo de Flávio e Lula para meio ambiente e clima”, de Fabíola Sinimbú, publicada em 13 de outubro de 2026.

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