sexta-feira, 23 outubro , 2026

Lula defende Sul Global; Flávio quer aproximação com Israel e EUA

por Adriana Dias
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Planos de governo revelam diferenças sobre alianças internacionais, soberania nacional, comércio exterior, defesa e exploração de minerais estratégicos. Entenda o que cada candidato propõe.

Qual deve ser o lugar do Brasil no mundo? Com quais países o governo brasileiro deve fortalecer suas relações? E como o país deve se posicionar diante das disputas entre grandes potências?

As respostas apresentadas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) revelam diferentes prioridades para a política externa brasileira.

🌎 Lula defende o fortalecimento das relações com o Sul Global, a ampliação das parcerias comerciais e uma atuação internacional baseada na soberania nacional e no direito internacional.

🇧🇷 Flávio Bolsonaro propõe uma reaproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina, além de uma diplomacia orientada pela atração de investimentos e pela abertura de mercados.

Os dois candidatos dedicaram capítulos específicos à política externa em seus planos de governo apresentados à Justiça Eleitoral.

📄 O espaço reservado ao tema nos documentos:

  • Lula: quase seis páginas.
  • Flávio Bolsonaro: cerca de três páginas.

Mas as diferenças vão além da quantidade de propostas. Elas aparecem nas relações com outros países, nas estratégias comerciais, na defesa nacional e até no futuro das reservas brasileiras de minerais estratégicos.

🌍 O BRASIL NO MUNDO: DUAS VISÕES DE POLÍTICA EXTERNA

A principal diferença está na maneira como cada candidato pretende posicionar o Brasil diante das disputas internacionais.

🔴 LULA | Diversificação de alianças e autonomia

O plano petista descreve um cenário mundial marcado por conflitos sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, ataques ao direito internacional e tentativas de imposição de uma ordem mundial considerada predatória.

A proposta é manter relações com todas as regiões do planeta, evitando que o Brasil dependa de uma única potência ou bloco internacional.

O documento afirma:

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”.

🔵 FLÁVIO | Reaproximação com parceiros tradicionais

O plano do candidato do PL critica a condução da política externa brasileira nos últimos anos, especialmente nas relações com Estados Unidos, Israel e Argentina.

O documento afirma que a soberania deve ser exercida na prática, e não por meio de “bravatas”.

“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”.

📌 EM RESUMO

  • Lula: prioriza a diversificação das relações internacionais e a autonomia diante das grandes potências.
  • Flávio: destaca a reconstrução das relações com parceiros tradicionais, especialmente EUA, Israel e Argentina.

🤝 SUL GLOBAL, BRICS E G20: QUAL É O PAPEL DO BRASIL?

Um dos principais compromissos do plano de Lula é fortalecer a participação brasileira nos espaços de cooperação internacional, especialmente entre países do Sul Global.

💡 O que é o Sul Global?

É uma expressão utilizada para se referir a países considerados ainda não desenvolvidos, localizados majoritariamente no Hemisfério Sul.

O plano de Lula propõe uma política externa “universalista”, com relações comerciais e diplomáticas com todas as regiões do mundo.

Entre as prioridades estão:

  • 🌎 Fortalecer a cooperação com o Sul Global.
  • 🤝 Aprofundar as relações com o Brics e o G20.
  • 🌍 Ampliar as parcerias com países africanos.
  • 📦 Negociar novos acordos comerciais.
  • 🚢 Abrir mercados para produtos e serviços brasileiros.
  • 🛡️ Enfrentar agressões comerciais e defender os interesses nacionais.

O documento afirma:

“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”.

A proposta também prevê aprofundar as relações com a África, reconhecendo sua importância crescente na política internacional e os vínculos históricos e culturais com o Brasil.

💡 ENTENDA OS BLOCOS INTERNACIONAIS

Brics: grupo de cooperação internacional que, conforme a reportagem original, reúne Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, além do Brasil.

G20: reúne algumas das maiores economias do planeta, incluindo Estados Unidos, França, Alemanha, Japão e Coreia do Sul, além da União Europeia e da União Africana.

E O QUE PROPÕE FLÁVIO?

O candidato do PL também defende relações comerciais com diferentes regiões do planeta, mas enfatiza a abertura de mercados, a atração de investimentos e os interesses de produtores e trabalhadores brasileiros.

“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo.”

📌 A DIFERENÇA

Lula coloca o fortalecimento do Sul Global, do Brics e do G20 entre suas prioridades geopolíticas. Flávio enfatiza uma diplomacia voltada à negociação comercial e à reconstrução de relações com parceiros tradicionais.

⚔️ GUERRAS E CONFLITOS: COMO CADA CANDIDATO SE POSICIONA?

As divergências também aparecem nas posições diante de conflitos militares e intervenções internacionais.

🔴 LULA

O governo Lula condena os ataques militares contra o Irã e a intervenção militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro.

Sua posição combina:

  • Defesa do diálogo diplomático.
  • Respeito ao direito internacional.
  • Condenação de intervenções militares.
  • Apelos pela contenção das partes envolvidas.

🔵 FLÁVIO

Flávio Bolsonaro tem defendido ações militares do governo de Donald Trump, incluindo a guerra contra o Irã e a invasão da Venezuela.

O candidato também critica a política do Brics de estimular o comércio internacional sem a necessidade de utilização do dólar.

Seu plano de governo questiona a atuação brasileira em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel.

“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”.

🛡️ DEFESA NACIONAL: ARMAMENTOS, TECNOLOGIA E SOBERANIA

Os dois candidatos relacionam a política externa à capacidade de defesa do Brasil, mas apresentam prioridades diferentes.

🔴 LULA | Fortalecimento da indústria nacional

O plano petista defende o desenvolvimento da indústria brasileira de defesa como condição para garantir a soberania nacional.

“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”.

O documento apresenta investimentos e entregas realizados desde 2023, no âmbito do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

📊 DEFESA NACIONAL EM NÚMEROS — DADOS APRESENTADOS PELO PLANO DE LULA

  • R$ 20,4 bilhões executados em projetos estratégicos desde 2023.
  • 7 caças Gripen F-39 entregues.
  • 1 aeronave Gripen produzida em solo brasileiro em 2026.
  • 3 cargueiros KC-390 adquiridos, fabricados no Brasil.
  • 4 fragatas em construção, segundo o documento, com a primeira já em operação.
  • 226 viaturas blindadas produzidas.

🔵 FLÁVIO | Inovação e novas tecnologias militares

O plano do PL propõe incentivar tecnologias militares, especialmente em duas áreas:

  • 🚁 Drones.
  • 🤖 Inteligência artificial.

O documento também defende investimentos nas Forças Armadas compatíveis com a participação do Brasil em blocos e grupos internacionais.

“Os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um país que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”.

⛏️ TERRAS RARAS: O QUE FAZER COM UMA DAS MAIORES RESERVAS DO PLANETA?

Este é um dos temas estratégicos da disputa entre os projetos de governo.

Os minerais críticos, incluindo as terras raras, são fundamentais para as indústrias de tecnologia, defesa e transição energética.

Por isso, estão no centro da disputa comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China.

📊 RESERVAS DE TERRAS RARAS NO MUNDO

PaísReservas estimadasParticipação aproximada
🇨🇳 ChinaMaior reserva mundial—
🇧🇷 Brasil21 milhões de toneladas23%
🇺🇸 Estados Unidos1,9 milhão de toneladas2%

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China.

🔴 LULA | Agregar valor antes de exportar

O plano petista prevê uma política específica para minerais críticos e terras raras.

O objetivo é organizar as cadeias produtivas, diferenciar as aplicações tecnológicas e evitar que o país se limite à exportação de matérias-primas estratégicas.

“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”.

🔵 FLÁVIO | Atrair investimentos e tecnologia estrangeira

Flávio Bolsonaro propõe atrair capital internacional e tecnologias disponíveis em outros países, com transferência de conhecimento para o Brasil.

“Estabeleceremos parcerias internacionais com todos os 55 países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos.”

Em março de 2026, durante um evento com conservadores nos Estados Unidos, Flávio afirmou que o Brasil poderia contribuir para reduzir a dependência norte-americana da China no fornecimento de minerais críticos.

“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”.

📌 QUAL É A DIFERENÇA?

  • Lula: propõe desenvolver a cadeia produtiva nacional e agregar valor aos minerais antes da exportação.
  • Flávio: enfatiza a atração de capital e tecnologia estrangeiros e a formação de parcerias internacionais.

E A RELAÇÃO COM A CHINA?

A China é um dos principais atores da disputa internacional pelos minerais críticos.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, as relações com o país asiático registraram atritos diplomáticos.

Um dos episódios ocorreu quando Eduardo Bolsonaro sugeriu que o governo chinês seria responsável pela pandemia de covid-19.

A Embaixada da China no Brasil pediu retratação, classificando a declaração como uma “provocação flagrante”.

🌎 AMÉRICA DO SUL: INTEGRAÇÃO REGIONAL OU REAPROXIMAÇÃO BILATERAL?

A integração entre os países sul-americanos aparece como prioridade no plano de Lula.

O documento defende que a América do Sul e o Caribe sejam reconhecidos como uma “zona de paz”, em um cenário internacional de conflitos e instabilidade.

“A integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil. Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional”.

O plano também critica o governo de Jair Bolsonaro, afirmando que o Brasil sofreu isolamento geopolítico, perda de prestígio diplomático e enfraquecimento dos acordos regionais.

Já Flávio Bolsonaro destaca a necessidade de reconstruir as relações com a Argentina, citada ao lado dos Estados Unidos e de Israel como um dos parceiros tradicionais com os quais pretende fortalecer os vínculos.

🇺🇸 TARIFAÇO DE TRUMP: UMA DAS PRINCIPAIS DIVERGÊNCIAS

As tarifas comerciais impostas pelo governo de Donald Trump ao Brasil também integram o debate sobre política externa.

Desde 2025, o Brasil vem sendo atingido pela política tarifária norte-americana, que também afeta parceiros históricos dos Estados Unidos, como Canadá e Índia.

Em julho de 2025, ao anunciar tarifas sobre produtos brasileiros, Trump criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), que se preparava para julgar Jair Bolsonaro pela trama golpista.

O episódio ampliou o conflito político em torno das relações entre Brasil e Estados Unidos.

🔴 A POSIÇÃO DE LULA

Lula acusa integrantes da família Bolsonaro de atuar contra os interesses brasileiros.

O presidente tem chamado a família de “traidores da Pátria”, em referência à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde o ex-deputado articulou medidas tarifárias do governo Trump contra o Brasil.

O plano petista defende enfrentar agressões comerciais e preservar a autonomia nacional.

🔵 A POSIÇÃO DE FLÁVIO

Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro comemoraram a adoção das tarifas norte-americanas, apesar dos prejuízos para parte da cadeia econômica brasileira.

Na ocasião, Flávio publicou:

“Obrigado Presidente Trump – Faça o Brasil Livre Novamente – Queremos Magnitsky!”

A manifestação fazia referência à Lei Magnitsky, utilizada pelos Estados Unidos em julho de 2025 como instrumento de retaliação contra autoridades brasileiras e ministros do STF.

Flávio costuma atribuir as tarifas à suposta agenda “anti-EUA” do governo Lula.

Ao mesmo tempo, seu plano de governo, no capítulo dedicado ao agronegócio, promete buscar soluções diplomáticas contra sanções comerciais impostas por Estados Unidos, China e Europa.

🏛️ ITAMARATY: COMO CADA CANDIDATO VÊ A DIPLOMACIA BRASILEIRA?

O plano de Flávio Bolsonaro defende mudanças na condução da política externa, com ênfase no profissionalismo e na competência técnica dos diplomatas.

“Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia. O Itamaraty voltará a ser conduzido pela competência técnica que sempre marcou seus quadros”.

Nas redes sociais, porém, Eduardo Bolsonaro defende uma “faxina” no Itamaraty contra servidores que, segundo ele, teriam sabotado o governo de Jair Bolsonaro.

Já o plano de Lula enfatiza o fortalecimento da presença diplomática brasileira, a defesa do direito internacional e a ampliação das relações com diferentes países e blocos.

🌐 OCDE: FLÁVIO QUER A ENTRADA DO BRASIL NA ORGANIZAÇÃO

Uma das propostas destacadas no plano de Flávio Bolsonaro é a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

💡 O QUE É A OCDE?

É uma organização internacional que reúne 38 países, incluindo algumas das economias mais desenvolvidas do mundo.

Sua atuação envolve a produção de estatísticas, análises e recomendações de políticas públicas.

O QUE FLÁVIO PROPÕE?

O candidato defende a entrada do Brasil na organização como caminho para aproximar as normas brasileiras dos padrões internacionais.

“A adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”.

📊 COMPARATIVO FINAL: O QUE CADA CANDIDATO PROPÕE?

Tema🔴 Lula🔵 Flávio Bolsonaro
Relações internacionaisDiversificar parcerias e fortalecer a autonomia nacionalReaproximar o Brasil de EUA, Israel e Argentina
Sul GlobalFortalecer a cooperação e a aproximação geopolíticaPriorizar negociações comerciais conforme interesses brasileiros
BricsAprofundar a participação brasileiraCritica a política de comércio sem dependência do dólar
Conflitos militaresCondena ataques ao Irã e intervenção na VenezuelaDefende ações militares do governo Trump
Defesa nacionalFortalecer a indústria nacional e projetos estratégicosIncentivar drones, inteligência artificial e investimentos militares
Terras rarasDesenvolver cadeias produtivas e agregar valorAtrair capital e tecnologia estrangeiros
América do SulAprofundar Mercosul e integração regionalDestacar a reaproximação com a Argentina
Tarifas dos EUAEnfrentar agressões comerciais e defender a soberaniaBuscar soluções diplomáticas e criticar a política de Lula
OCDENão destacada no comparativo apresentado pela reportagemDefender a adesão do Brasil

🗳️ AFINAL, O QUE ESTÁ EM DISPUTA?

A política externa pode parecer distante do cotidiano, mas suas decisões envolvem questões concretas: o comércio de produtos brasileiros, os investimentos internacionais, o desenvolvimento tecnológico, a defesa nacional e o posicionamento do país diante de guerras e conflitos.

Os planos de governo mostram que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam prioridades distintas para a inserção internacional do Brasil.

Lula propõe ampliar a autonomia brasileira por meio da diversificação de alianças, da cooperação com o Sul Global e do fortalecimento da capacidade produtiva nacional.

Flávio Bolsonaro enfatiza a reaproximação com parceiros tradicionais, a atração de investimentos estrangeiros e uma diplomacia voltada à abertura de mercados.

Em comum, os dois candidatos afirmam defender a soberania e os interesses econômicos do Brasil. A diferença está nos caminhos escolhidos para alcançar esses objetivos.

Fonte: Agência Brasil — reportagem de Lucas Pordeus León, publicada em 13 de outubro de 2026.

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