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A fortuna dos 1% mais ricos cresceu tanto que poderia acabar com a pobreza 22 vezes

Enquanto trilhões se acumulam no topo, bilhões seguem lutando por sobrevivência e dignidade.

O mundo enfrenta uma crise profunda e paradoxal: enquanto a riqueza dos mais ricos se expande a passos largos, bilhões de pessoas permanecem presas à pobreza extrema. A nova análise da Oxfam, divulgada pouco antes da 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, alerta que o atual modelo global está “desastrosamente fora do rumo” e que a concentração de riqueza ameaça os avanços sociais e ambientais que tanto se cobram.


AUMENTO ASTROMÔNICO DA RIQUEZA PRIVADA E CORTES EM AJUDA HUMANITÁRIA

Entre 1995 e 2023, a riqueza privada global disparou, crescendo US$ 342 trilhões – o equivalente a oito vezes o aumento da riqueza pública, que foi de US$ 44 trilhões no mesmo período. Esse fenômeno se dá em meio a cortes históricos em ajuda humanitária, especialmente nos países do G7, que planejam reduzir suas contribuições oficiais em 28% até 2026. O impacto disso pode ser catastrófico, com estimativas de até 2,9 milhões de mortes adicionais por HIV/AIDS até 2030.

Mas por que o mundo assiste a esse paradoxo? A resposta, segundo a Oxfam, está na “tomada do setor privado” nos processos de desenvolvimento global. “Os países ricos colocaram Wall Street no comando do desenvolvimento global. É uma tomada do poder pelo setor financeiro privado, que suplantou as formas comprovadas de combater a pobreza por meio de investimentos públicos e tributação justa”, explica Amitabh Behar, diretor-executivo da Oxfam Internacional.


O IMPACTO DA DESIGUALDADE NO DESENVOLVIMENTO GLOBAL

A análise revela que a fortuna dos 1% mais ricos do planeta cresceu mais de US$ 33,9 trilhões desde 2015 – quantia que, segundo o Banco Mundial, seria suficiente para erradicar a pobreza mundial por 22 anos. Para colocar em perspectiva, a riqueza acumulada por apenas 3.000 bilionários aumentou US$ 6,5 trilhões no período e agora representa 14,6% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

Enquanto isso, 60% dos países de baixa renda enfrentam uma crise da dívida que os deixa à beira do colapso, com gastos maiores com credores do que com saúde e educação. Apenas 16% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão no caminho correto para 2030.


BRASIL: UM EXEMPLO DO FRACASSO DO MODELO ATUAL

Viviana Santiago, Diretora Executiva da Oxfam Brasil, aponta que “o Brasil é um retrato escancarado do fracasso do atual modelo de desenvolvimento global, que prioriza lucros privados em vez do bem-estar coletivo”. Segundo ela, a concentração extrema de riqueza é alimentada por um sistema tributário injusto e regressivo, que aprofunda desigualdades históricas de raça e gênero.

“São as mulheres negras, indígenas e periféricas que pagam o preço mais alto da crise climática, da fome e do desmonte dos serviços públicos. Precisamos urgentemente de um pacto global baseado em justiça tributária, fortalecimento do setor público e reparação histórica. Os trilhões acumulados pelos super-ricos, inclusive no Brasil, não podem mais ser blindados”, destaca.

Ainda mais relevante, uma pesquisa realizada em 13 países — incluindo o Brasil — revela que 9 em cada 10 pessoas apoiam a taxação dos super-ricos para financiar saúde, educação e ações climáticas.


RECOMENDAÇÕES DA OXFAM PARA UM NOVO CAMINHO

Frente a esse cenário, a Oxfam defende uma reformulação completa do sistema de financiamento do desenvolvimento, com foco em:

  • Novas alianças estratégicas contra a desigualdade: Países como Brasil, África do Sul e Espanha lideram iniciativas para formar coalizões internacionais que enfrentem a concentração extrema de riqueza.

  • Abordagem público primeiro: O financiamento privado não deve ser visto como solução única. É preciso priorizar investimentos públicos em saúde, educação, energia e transporte para garantir serviços universais e de qualidade.

  • Reforma da arquitetura da dívida e tributação dos super-ricos: A ajuda humanitária precisa ser revitalizada e os cortes catastróficos revertidos. Além disso, uma nova convenção da ONU sobre dívida e tributação deve garantir a cobrança justa sobre grandes patrimônios, aproveitando esforços do G20 liderados pelo Brasil.

“Trilhões de dólares existem para cumprir as metas globais, mas estão trancados em contas privadas dos super-ricos. É hora de rejeitarmos o Consenso de Wall Street e colocarmos o setor público no comando”, afirma Amitabh Behar.


UMA CONFERÊNCIA DECISIVA EM SEVILHA

A 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, que acontecerá em Sevilha, na Espanha, reunirá mais de 190 países para debater os rumos da agenda global. O relatório da Oxfam, intitulado “Do Lucro Privado ao Poder Público: Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia”, será lançado na ocasião e servirá como base para negociações importantes.

Além disso, a Oxfam promoverá um evento de alto nível em parceria com o Club de Madrid, no dia 1º de julho, com a participação de líderes governamentais. Um evento paralelo focado em desigualdade e reforma tributária também ocorrerá, reunindo representantes do Brasil, Espanha, África do Sul e organizações internacionais.


Você já parou para pensar como seria o mundo se a riqueza fosse usada para garantir dignidade a todos, em vez de se concentrar cada vez mais em poucas mãos? Talvez este seja o momento de repensar nossas prioridades e exigir que o setor público volte a liderar o desenvolvimento global — para que ninguém fique para trás.

Fonte: Texto baseado em dados e análise da Oxfam Internacional, com informações atualizadas para o debate global em 2025.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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