O paradoxo da máscara do Anonymous no Floripa Mil Grau
O fênomeno de comunicação em Santa Catarina tem um perfil que se apropria de ícone da cultura pop e inverte sua finalidade de contestação anônima

Jean Baudrillard utilizou o conceito de hipertelia para descrever sistemas que atingem um grau tão elevado de desenvolvimento que acabam produzindo efeitos opostos àqueles que lhes deram origem. Wilson Ferreira, do Cinegnose, recupera essa formulação para interpretar fenômenos contemporâneos em que a eficiência excessiva provoca uma inversão de sentido. O mecanismo aperfeiçoa sua capacidade de funcionamento até o ponto em que passa a servir a finalidades diferentes das que justificaram seu surgimento.
O Floripa Mil Grau, perfil de notícias que virou primeira busca do público em Santa Catarina, pode ser observado por essa chave de leitura. Sua trajetória ajuda a compreender como símbolos associados à contestação política foram progressivamente absorvidos por estruturas de poder, transformando a rebeldia em linguagem de administração e a aparência de enfrentamento em ferramenta de legitimação.
A “máscara de Guy Fawkes” nasceu nas páginas da HQ V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd. Na história, ela protege a identidade de um personagem anarquista que combate um governo totalitário em uma Inglaterra futura. A força daquele símbolo na máscara não estava só no rosto oculto. Sua potência política estava na dissolução da autoria individual em favor de uma identidade compartilhada. O personagem podia ser qualquer pessoa. Mais do que um indivíduo, V funcionava como uma ideia em circulação.
Foi justamente essa característica que permitiu ao grupo hacker ativista Anonymous transformar a máscara em um de seus principais emblemas. A escolha da máscara foi política. Guy Fawkes participou da Conspiração da Pólvora de 1605, uma tentativa fracassada de explodir o Parlamento inglês e assassinar o rei Jaime I. A história foi reinterpretada séculos depois por Alan Moore e David Lloyd em V de Vingança, onde a máscara deixa de representar um personagem histórico específico e passa a simbolizar resistência contra autoritarismo, vigilância e concentração de poder.
O Anonymous transformou essa imagem em um dos principais símbolos globais do hacktivismo, das denúncias de corrupção, da defesa da privacidade digital e das ações descentralizadas sem liderança formal.
A força da máscara deriva justamente dessa operação simbólica. Ela substitui a figura do líder pela ideia de uma causa coletiva. Quem veste a máscara não representa a si mesmo. Representa a possibilidade de que qualquer pessoa possa ocupar aquele lugar.
O Anonymous é um coletivo internacional e descentralizado de ativistas digitais, conhecidos como hacktivistas, que realiza ataques cibernéticos contra governos, corporações e instituições com o objetivo de denunciar abusos de poder, defender a liberdade de expressão, combater a censura e apoiar causas sociais. Sua estrutura horizontal, sem liderança formal, reforça justamente a lógica política representada pela máscara: qualquer pessoa pode participar da ação coletiva sem que a identidade individual ocupe o centro da narrativa.
Qualquer pessoa podia ser Anonymous. Qualquer ação individual podia parecer parte de um movimento maior. O anonimato deixava de ser apenas uma proteção contra a identificação e passava a funcionar como tecnologia de multiplicação simbólica. Cada intervenção reforçava a percepção de uma presença coletiva dispersa, difícil de localizar e ainda mais difícil de controlar.
As redes digitais ampliaram essa lógica em uma escala inédita. A velocidade de circulação aumentou, as formas de participação se multiplicaram e a construção de identidades coletivas ganhou um alcance que movimentos políticos tradicionais raramente conseguiram atingir. Foi justamente essa eficiência extraordinária que permitiu à arquitetura comunicacional associada ao Anonymous ultrapassar o campo da contestação e se tornar útil também para estruturas próximas ao próprio poder.
A trajetória do Floripa Mil Grau ajuda a visualizar essa transformação. A página surgiu durante a greve dos ônibus de Florianópolis, quando fotografias de motoristas registradas de maneira cômica passaram a circular nas redes sociais. O que começou como uma piada encontrou um solo fértil para reprodução. O meme se transformou em linguagem recorrente. A linguagem passou a organizar uma crônica cotidiana da cidade. A crônica acumulou audiência suficiente para sustentar uma estrutura profissionalizada, capaz de exercer influência crescente sobre a percepção pública dos acontecimentos.
Em 2013 nas manifestações “vem pra rua” em todo país, a máscara de Guy Fawkes virou hit comercial. Começou-se um processo de “despolitização” dos jovens.

Mas focando no Floripa Mil Grau. Parte a força econômica do perfil decorre justamente da forma como a página se apresenta. Os administradores permanecem anônimos. Grande parte do material divulgado chega por meio da participação dos próprios seguidores. A circulação de conteúdo produzido por terceiros produz uma sensação permanente de proximidade com a experiência cotidiana da população. A identidade coletiva que deu força ao Anonymous reaparece aqui com outra máscara.
O conteúdo publicado pelo Floripa Mil Grau não se limita à reprodução mecânica de vídeos enviados por seguidores. Cada postagem envolve escolhas editoriais que determinam quais acontecimentos merecem destaque, quais interpretações recebem visibilidade e quais vozes permanecem ausentes. A seleção das imagens, a redação das legendas e a repetição de determinados temas produzem uma narrativa consistente sobre cidade, segurança pública, pobreza, mobilidade urbana e gestão municipal. O viés é quase sempre alinhado à valores “conservadores”, leia-se de preconceito de classe, gênero, e grau.
Essa mediação editorial constrói uma esfera pública paralela baseada na participação digital. Reclamações sobre coleta de lixo, acidentes de trânsito, conflitos urbanos ou violência policial chegam acompanhadas de enquadramentos específicos que orientam a leitura dos fatos. A narrativa resultante reforça determinadas interpretações sobre ordem urbana, responsabilidade individual, administração pública e presença do Estado.
Esse processo ocorre em um cenário mais amplo de transformação dos sistemas de comunicação. Durante décadas, a formação da opinião pública catarinense esteve fortemente concentrada nos grandes grupos tradicionais de mídia. A influência histórica da RBS ajudou a organizar esse ambiente. A RBS foi um dos maiores monopólios de mídia do mundo, com centenas, talvez milhares, de rádios e jornais e canais de TV.
A expansão do Grupo ND, hoje gerenciado pela TV da Igreja de Edir Macedo, representa uma nova configuração de poder comunicacional. A migração de figuras como Cacau Menezes entre esses grupos simboliza uma mudança mais profunda, a autoridade sobre a produção de sentido já não pertence exclusivamente aos antigos monopólios de comunicação e passa a ser disputada por portais, influenciadores, plataformas digitais e produtores independentes de conteúdo.
A disputa política contemporânea acontece nesse território. É um mapa conquistado pela extrema direita. A extrema direita compreendeu com rapidez o funcionamento das redes sociais e transformou a comunicação digital em um de seus principais instrumentos de expansão.
O fenômeno não é um fenômeno mané. A linguagem que impulsionou Donald Trump nos Estados Unidos reaparece em Javier Milei na Argentina, encontra paralelos no bolsonarismo brasileiro e se manifesta em disputas recentes na Colômbia e em outros países latino-americanos.
A candidatura de Abelardo de la Espriella, alinhada ao universo político de Trump e Bukele, participa da mesma lógica de mobilização baseada em redes, viralização permanente e produção constante de antagonismos. Assim funciona o novo partido Missão, por exemplo, com o candidato Renan despontando nas pesquisas para presidência.
Nesse contexto, uma palavra “mágica” é o ícone sintagmático do momento, a palavra SISTEMA.
Todo mundo se declara contra o sistema. Poucos explicam o que ele significa. Jair Renan Bolsonaro, vereador de Balneário Camboriú, afirma combater o sistema, e que vai incomodar muito o sistema da cidade ícone do crescimento econômico liberal bolsonarista.
Milei afirma combater o sistema na Argentina. Trump afirma combater o sistema nos Estados Unidos. Bolsonaro passou anos denunciando o sistema a partir da Presidência da República. O discurso antissistema deixou de ocupar a margem e se tornou uma das linguagens preferenciais do próprio poder.
Qual é o sistema que esse pessoal da extrema direita diz que luta?
A cultura contemporânea oferece inúmeros exemplos desse deslocamento. O punk nasceu como expressão radical de ruptura e acabou incorporado pela indústria cultural. A imagem de Che Guevara foi transformada em produto de consumo global. Símbolos criados para confrontar estruturas dominantes passaram a circular como mercadorias perfeitamente integradas ao mercado. A máscara de Guy Fawkes percorre esse caminho, da mickeymouseação do ícone.
O percurso da imagem em Florianópolis é particularmente revelador. Luciano Martins, o pintor comercial mais conhecido da cidade, construiu sua trajetória apropriando-se de imagens amplamente reconhecidas da cultura visual contemporânea. Mona Lisa, personagens populares, referências do entretenimento e ícones da história da arte aparecem convertidos em objetos decorativos destinados à circulação massiva. A máscara de Guy Fawkes é apropriada nesse circuito. O símbolo criado para representar resistência política perde progressivamente suas referências originais e passa a funcionar como elemento visual consumível, reproduzido, decorado e comercializado.

A hipertelia aparece com nitidez justamente nesse ponto. A estética da rebeldia se multiplica ao mesmo tempo em que se aproxima das estruturas institucionais de poder. O prefeito Topázio Neto, de Florianópolis, ampliou investimentos públicos em comunicação (em muitos milhões de reais, diversas vezes mais que investimento em Cultura) e contratou o Floripa Mil Grau para divulgar ações da administração municipal.
O paradoxo parece encomendado por um roteirista muito irônico. Recursos do poder público local passam a financiar um veículo cuja identidade visual remete justamente a um símbolo associado à resistência contra o próprio poder institucional. E resistência a poder institucional reacionário e fascista (leia a HQ, não estou falando da gestão Topázio).
A contradição adquire ainda mais força na leitura da comunicação política contemporânea. A linguagem das redes sociais valoriza espontaneidade, irreverência, informalidade e aparência de proximidade. Gestores públicos incorporam essa “estética TikTok” em vídeos, transmissões ao vivo e conteúdos produzidos para plataformas digitais. A comunicação administrativa passa a utilizar os códigos visuais e narrativos que nasceram associados à contestação.
O improviso e a prosódia coloquial mascara o aparato super bem montado e estratégico.
É nesse ponto que o conceito de hipertelia revela toda sua utilidade. A máscara surgiu para esconder indivíduos e revelar um coletivo insurgente. As redes digitais ampliaram essa lógica até transformá-la em uma das formas mais eficientes de comunicação política da contemporaneidade.
Só que o sucesso do modelo permitiu sua incorporação por estruturas que ocupam posições centrais dentro do próprio sistema institucional. A insurgência deixou de ser apenas uma prática de enfrentamento e passou a funcionar também como linguagem de gestão.
Quando um mecanismo criado para desafiar estruturas de poder alcança tamanho grau de desenvolvimento que passa a servir às próprias estruturas que pretendia enfrentar, ocorre exatamente o fenômeno descrito por Baudrillard.
Nesse ponto que a extrema direita pode se “auto implodir” como uma cobra mordendo a própria cauda.
A máscara que prometia confrontar o poder passa a integrar a comunicação do poder. E justamente por preservar a aparência original de rebeldia, torna-se uma ferramenta ainda mais eficiente de legitimação política.
Esse processo merece ser observado, analisado e desmascarado.
Agradecimentos na consultoria do texto a hacktivistas anônimos que não querem se identificar.
Links sugeridos: Análise de V de Vingança pelo genial Alexandre Linck, do perfil Quadrinhos na Sarjeta (baseado em Florianópolis):




