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Por que a acusação de que Lula foi xenófobo em SC perde força quando analisado o contexto

Agenda levou investimentos para infraestrutura, defesa e indústria naval, mas acabou ofuscada por um confronto com o governador Jorginho Mello e por um discurso sobre racismo que dividiu opiniões no estado.

A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Santa Catarina, em 26 de junho de 2026, tornou-se um dos acontecimentos políticos mais comentados do estado neste ano. O que havia sido planejado como uma agenda voltada ao fortalecimento da indústria naval, da infraestrutura logística e da economia catarinense acabou sendo eclipsado por declarações contundentes do presidente contra o governador Jorginho Mello e por um discurso sobre racismo que rapidamente dominou o noticiário nacional.

Em poucas horas, vídeos editados passaram a circular nas redes sociais, parlamentares trocaram acusações, o governo catarinense anunciou medidas jurídicas e o debate deixou de ser sobre investimentos bilionários para girar em torno de uma pergunta: afinal, Lula atacou Santa Catarina ou fez uma crítica política ao ambiente ideológico presente em parte do estado?

A resposta depende menos de recortes de poucos segundos e mais da análise do conjunto da visita.

A AGENDA TINHA FOCO NA ECONOMIA E NA REINDUSTRIALIZAÇÃO

A programação oficial previa uma série de compromissos ligados à retomada da indústria naval brasileira, considerada uma das principais apostas do governo federal para ampliar empregos e fortalecer a produção nacional.

O primeiro compromisso ocorreu pela manhã, em Itajaí, durante a cerimônia de lançamento e batismo da Fragata Cunha Moreira (F202), terceira embarcação do Programa Fragatas Classe Tamandaré. O evento reuniu representantes da Marinha, autoridades federais e integrantes da indústria de defesa.

Na ocasião, Lula voltou a defender uma política permanente de fortalecimento das Forças Armadas e da indústria nacional.

“Não é possível que a gente não coloque a defesa como uma coisa extremamente urgente e prioritária.”

O presidente afirmou ainda que o Brasil precisa definir “que defesa nós precisamos para garantir esse País”, ressaltando que investir na capacidade militar não significa desejar conflitos, mas assegurar condições para proteger o território nacional.

BR-470 FOI OUTRO DESTAQUE DA VISITA

Além da agenda em Itajaí, o governo federal também marcou presença na entrega do primeiro lote concluído da duplicação e restauração da BR-470, entre Gaspar e Ilhota.

A obra, considerada uma das mais aguardadas pelos catarinenses, recebeu investimento superior a R$ 528 milhões apenas nesse trecho e integra um empreendimento estimado em aproximadamente R$ 1,7 bilhão.

Durante a entrega, Lula procurou reforçar a mensagem de que Santa Catarina continua recebendo investimentos federais independentemente das divergências políticas existentes entre Brasília e o governo estadual.

Segundo o presidente:

“O que estamos fazendo em Santa Catarina demonstra o compromisso do nosso governo com a infraestrutura e com o fortalecimento da logística do país.”

A fala dialogava diretamente com a estratégia do Planalto de apresentar o governo como responsável pela retomada de grandes obras públicas consideradas essenciais para a competitividade econômica catarinense.

O ESTALEIRO DETROIT SE TORNOU O CENTRO DA AGENDA

O momento mais importante da visita ocorreu durante a passagem pelo Estaleiro Detroit Brasil, em Itajaí.

Ali, Lula acompanhou as obras de embarcações de apoio offshore contratadas pela Petrobras dentro do Programa Mar Aberto, uma iniciativa que prevê investimentos bilionários na cadeia naval brasileira.

Os números apresentados pelo governo são expressivos.

A expectativa é de aproximadamente R$ 12 bilhões em investimentos no estado, com a construção de dezenas de embarcações e a geração de milhares de empregos diretos e indiretos.

Somente nos estaleiros de Itajaí e Navegantes já existem diversas embarcações em construção, movimentando mais de dois mil trabalhadores, enquanto novos contratos devem ampliar significativamente essa capacidade produtiva nos próximos anos.

LULA DEFENDEU A INDÚSTRIA NAVAL COMO POLÍTICA DE ESTADO

Durante o discurso aos trabalhadores do estaleiro, Lula retomou uma das principais bandeiras de seus governos: a defesa da indústria nacional como instrumento de desenvolvimento econômico.

Ao falar sobre o setor naval, afirmou:

“Quando a gente decide construir embarcações no Brasil, desenvolvemos a indústria nacional.”

Na sequência, destacou que o setor, que havia perdido força nos últimos anos, voltou a crescer. Segundo o presidente, o segmento possuía cerca de 16 mil trabalhadores quando reassumiu o governo e atualmente estaria próximo de 70 mil empregos.

A mensagem procurava associar a retomada da construção naval à geração de renda, ao fortalecimento da Petrobras e à política de conteúdo nacional, temas que historicamente fazem parte da identidade econômica dos governos petistas.

A AUSÊNCIA DE JORGINHO MELLO MUDOU O TOM DA VISITA

Até esse momento, a agenda mantinha caráter predominantemente institucional. Entretanto, a ausência do governador Jorginho Mello nos compromissos presidenciais passou a ocupar espaço relevante no discurso de Lula.

O presidente criticou o fato de o governador não comparecer às agendas do governo federal em Santa Catarina e afirmou que essa postura dificultaria uma relação institucional mais produtiva entre os dois governos.

Foi então que fez uma das declarações mais repercutidas de todo o dia.

“Ele simplesmente não participou, para não fazer parceria com o governo federal. Qual é o tamanho da cabeça desse cidadão, qual é a qualidade da massa encefálica que ele tem na cabeça?”

Na sequência, Lula acrescentou que Jorginho Mello “nunca teve coragem de comparecer” aos atos promovidos pelo governo federal no estado.

As declarações mudaram completamente o foco da cobertura jornalística.

Aquilo que havia começado como uma agenda sobre infraestrutura, defesa e indústria passou rapidamente a ser tratado como um confronto político direto entre o presidente da República e o governador de Santa Catarina.

A FALA SOBRE RACISMO QUE DOMINOU O NOTICIÁRIO

Se as críticas ao governador já haviam provocado repercussão, foi o trecho seguinte do discurso que transformou a visita em um dos assuntos políticos mais comentados do país.

Ao abordar o debate sobre igualdade racial e políticas de cotas, Lula fez um apelo para que o estado continuasse enfrentando manifestações de racismo.

Entre as frases reproduzidas pelos principais veículos de comunicação estavam:

“Não pode permitir que prevaleça em Santa Catarina o racismo.”

Pouco depois, acrescentou:

“Não pode permitir que aqui em Santa Catarina as pessoas recebam o senso de grandeza” .

Ao desenvolver o raciocínio, o presidente criticou a ideia de superioridade racial e fez referência histórica ao nazismo.

Lula afirmou que a defesa da “hegemonia branca” acabaria representando uma “hegemonia da ignorância”., fazendo referência ao pensamento que sustentou o regime de Adolf Hitler.

O CONTEXTO DO DISCURSO É FUNDAMENTAL

Foi exatamente nesse momento que começou a principal disputa narrativa em torno da visita presidencial. Os trechos passaram a circular de forma isolada nas redes sociais, frequentemente sem o restante da argumentação apresentada pelo presidente.

Para adversários políticos, Lula teria associado Santa Catarina ao racismo e ofendido os catarinenses.

Já seus apoiadores sustentaram que o presidente não fazia uma acusação contra toda a população do estado, mas utilizava Santa Catarina como palco para defender políticas de igualdade racial e criticar correntes ideológicas que, em sua avaliação, estimulam discursos de superioridade racial.

Independentemente da interpretação política adotada, é um fato que a repercussão do discurso acabou superando amplamente a divulgação dos investimentos, das obras entregues e dos anúncios econômicos realizados ao longo da visita.

Na prática, a agenda passou a ser lembrada muito mais pelo embate político do que pelo conteúdo administrativo originalmente previsto.

AS CRÍTICAS GANHARAM FORÇA NAS REDES E ENTRE A OPOSIÇÃO

As reações começaram ainda durante a visita presidencial. Lideranças da oposição, parlamentares conservadores e perfis ligados ao governador Jorginho Mello passaram a compartilhar vídeos curtos destacando principalmente o trecho em que Lula afirmou que Santa Catarina não poderia permitir que “prevalecesse o racismo”.

Em poucas horas, a narrativa predominante nas redes sociais era de que o presidente teria chamado os catarinenses de racistas ou até mesmo associado o estado ao nazismo. Essa interpretação foi reforçada pela referência histórica feita por Lula a Adolf Hitler durante o discurso sobre supremacia racial.

Diversos veículos de comunicação nacionais também destacaram esse trecho como principal manchete da visita, deixando em segundo plano os anúncios relacionados à indústria naval, à infraestrutura e aos investimentos federais.

JORGINHO MELLO REAGIU IMEDIATAMENTE

O governador Jorginho Mello respondeu poucas horas depois. Em vídeos publicados nas redes sociais, afirmou que Lula havia desrespeitado Santa Catarina e negou uma das críticas feitas pelo presidente durante o evento.

Segundo Lula, o governo estadual teria deixado de participar de projetos federais estimados em R$ 24 bilhões destinados à infraestrutura rodoviária. Jorginho rebateu essa versão. De acordo com o governador, nunca houve uma oferta direta desse valor ao Estado. O que existia era uma proposta de concessões rodoviárias que incluía pedágios em estradas estaduais, modelo rejeitado pelo governo catarinense.

Além da resposta política, o governo anunciou a intenção de acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR), sustentando que as declarações do presidente configurariam ofensa à honra do povo catarinense.

A IMPRENSA DESTACOU MAIS O CONFRONTO DO QUE OS INVESTIMENTOS

Uma análise da cobertura mostra que a maior parte dos veículos nacionais priorizou o conflito político. As principais manchetes enfatizaram as críticas de Lula a Jorginho Mello, a referência a Hitler e o debate sobre racismo.

Já os órgãos oficiais do governo federal concentraram a divulgação em outro aspecto da visita. Os comunicados do Palácio do Planalto, do Ministério dos Transportes, do Ministério de Portos e Aeroportos e da Petrobras destacaram principalmente:

  • a retomada da indústria naval brasileira;
  • a geração de empregos;
  • os investimentos no Programa Mar Aberto;
  • o fortalecimento da cadeia produtiva naval;
  • a entrega de trecho da duplicação da BR-470.

Na prática, formaram-se duas narrativas paralelas. Uma enfatizava a economia. A outra girava em torno do conflito político.

O QUE DIZEM OS APOIADORES DE LULA

Entre aliados do presidente, a avaliação foi bastante diferente daquela apresentada pela oposição.

A principal defesa feita por parlamentares petistas, dirigentes partidários, sindicalistas e movimentos sociais foi que Lula jamais atacou os catarinenses como povo. Segundo essa interpretação, o presidente criticou ideias políticas e discursos de supremacia racial, utilizando Santa Catarina como cenário de um debate nacional sobre racismo. Também foi lembrado que o discurso ocorreu justamente durante uma defesa das políticas de cotas raciais e da igualdade de oportunidades.

Nesse contexto, as referências à “hegemonia branca” e a Hitler seriam uma crítica às teorias de superioridade racial e não uma tentativa de atribuir essas características à população catarinense. Outro argumento utilizado pelos apoiadores foi o histórico da própria agenda presidencial. Ao longo do dia, Lula apresentou investimentos federais já em andamento., defendeu empregos no estado e reafirmou a importância econômica de Santa Catarina para o desenvolvimento nacional. Na avaliação desse grupo, seria contraditório interpretar toda a visita como um ataque aos catarinenses.

Para o pré-candidato ao Governo de Santa Catarina pelo PSB, Gelson Merísio, a visita demonstra que o presidente governa para todos os brasileiros, independentemente das diferenças políticas entre os governos. “Lula demonstra, mais uma vez, que exerce a Presidência da República com espírito republicano. Mesmo sem ser recebido pelo governador do Estado, veio a Santa Catarina trazer investimentos, fortalecer nossa indústria, gerar empregos e prestigiar os trabalhadores catarinenses. Um presidente não escolhe onde investir pela posição política dos governantes; investe onde estão os interesses da população. É essa postura que faz a diferença.”

O pré-candidato ao Senado pelo PT, Décio Lima, afirmou que a agenda representa mais uma demonstração do compromisso de Lula com Santa Catarina. “O presidente Lula não pergunta em quem os catarinenses votaram para decidir onde investir. Ele governa para todos. Enquanto alguns preferem alimentar disputas políticas, Lula entrega obras, fortalece a indústria nacional, cria empregos e projeta Santa Catarina como protagonista de um setor estratégico para o Brasil. Esse é o verdadeiro republicanismo: respeitar as instituições, dialogar com todos e colocar os interesses do povo acima das diferenças políticas.” Integrantes da frente democrática, a pré-candidata a vice-governadora, Angela Albino e o Pré-candidato ao Senado Afrânio Boppré também acompanharam a comitiva presidencial.

O PRESIDENTE FOI XENÓFOBO?

Essa passou a ser a principal pergunta levantada após o encerramento da visita. Do ponto de vista jurídico, xenofobia caracteriza discriminação ou hostilidade dirigida a pessoas em razão de sua origem territorial, nacionalidade ou procedência. Para que essa caracterização ocorra, normalmente é necessário que exista um discurso que inferiorize ou estimule preconceito contra determinado povo ou grupo em razão de sua origem. É justamente nesse ponto que surge a principal divergência de interpretações.

Os críticos de Lula entendem que suas declarações generalizaram características negativas sobre Santa Catarina, o que seria suficiente para caracterizar preconceito regional.

Já seus apoiadores sustentam que o alvo das críticas nunca foi a população catarinense como um todo. O discurso, afirmam, dirigia-se a determinadas correntes políticas, ao debate sobre cotas raciais e ao crescimento da extrema direita no estado.

Quando analisado em sua integralidade, o pronunciamento mostra que Lula falava sobre racismo estrutural, políticas públicas e ideologias de supremacia racial, utilizando Santa Catarina como referência ao contexto político local. Em nenhum trecho reproduzido oficialmente o presidente afirma que os catarinenses seriam inferiores, menos inteligentes ou possuiriam características negativas por sua origem geográfica. Essa distinção é relevante.

Uma crítica ao ambiente político predominante em determinado estado não equivale, necessariamente, a um ataque contra toda a população daquele estado. Isso não impede que parte dos moradores tenha se sentido ofendida pelas declarações nem elimina o direito de criticar o tom utilizado pelo presidente. Mas também torna precipitada a conclusão de que houve, automaticamente, xenofobia.

O QUE ACABOU ESQUECIDO

Talvez o aspecto mais curioso da visita seja justamente aquilo que recebeu menos atenção.

Em um único dia, o governo federal:

  • participou do lançamento da terceira Fragata Classe Tamandaré;
  • reforçou investimentos na indústria naval brasileira;
  • apresentou projeções de aproximadamente R$ 12 bilhões para o setor naval em Santa Catarina;
  • destacou milhares de empregos ligados à Petrobras e aos estaleiros catarinenses;
  • entregou um importante trecho da duplicação da BR-470;
  • reafirmou investimentos federais em infraestrutura logística.

Poucos dias depois, entretanto, a maior parte da população lembrava apenas das críticas ao governador e do debate sobre racismo. A disputa política acabou ofuscando uma agenda econômica que, originalmente, havia sido construída para mostrar resultados do governo federal.

UM EPISÓDIO QUE REFLETE A POLARIZAÇÃO BRASILEIRA

A visita de Lula a Santa Catarina tornou-se um retrato da política brasileira em 2026. De um lado, um governo interessado em apresentar investimentos, geração de empregos e reindustrialização. De outro, uma oposição que encontrou nas declarações do presidente uma oportunidade para reforçar a narrativa de desrespeito aos catarinenses.

Como ocorre frequentemente na política contemporânea, vídeos curtos circularam muito mais do que discursos completos. Trechos isolados passaram a definir o debate público, enquanto o contexto da fala recebeu muito menos atenção. Isso não significa que Lula esteja acima de críticas. Chefes de Estado precisam medir cuidadosamente o impacto de suas palavras, especialmente em momentos de elevada polarização.

No entanto, uma análise honesta da visita sugere que a acusação de xenofobia simplifica excessivamente um discurso que tinha como foco o combate ao racismo, a defesa das políticas afirmativas e a crítica a determinadas correntes políticas presentes no estado.

Concordar ou discordar das palavras do presidente faz parte do debate democrático. Mas esse debate se torna mais qualificado quando considera o contexto completo dos acontecimentos — e não apenas fragmentos capazes de alimentar a polarização que já marca a vida política brasileira.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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