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Enquanto a vida acontece

Sobre a qualidade da consciência com que vivemos

Tem uma tirinha do Calvin e Haroldo (aquele menino de imaginação indomável que tem um tigre como melhor amigo, criado por Bill Watterson) em que, ao final da aula, a professora pergunta:

— Mais alguma dúvida?

Calvin levanta a mão:

— Eu tenho, professora. Qual o sentido da vida?

A professora responde que estava se referindo ao conteúdo da aula.

E ele retruca, com a lucidez desconcertante das crianças:

— Francamente, eu gostaria de saber essa resposta antes de gastar minhas energias com outras coisas.

 

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É brilhante a capacidade que algumas crianças têm de romper a superfície da normalidade e tocar, sem cerimônia, naquilo que passamos a vida evitando.

Lembro-me do dia em que uma amiga muito amada da infância fez sua passagem.

Era muito querida. Cercada de afeto. Possuía, ou talvez eu deva dizer possui, muitos amigos. Partiu cedo demais, ao menos para aquilo que convencionamos chamar de tempo certo.

No velório, ouvi frases que todos, em algum momento, já dissemos ou escutamos: que a vida é incompreensível, que não sabemos de nada, que em um instante estamos aqui felizes, ativos, cheios de planos e, no seguinte, podemos simplesmente não estar mais.

Nem felizes.

Nem aqui.

Sim, esta é uma verdade brutal. Sobre a qual não temos nenhum controle.

A morte, especialmente quando chega cedo, interrompendo uma vida que parecia finalmente entrar em seu tempo de colheita, encolhe todas as nossas certezas.

E as perguntas antigas voltam à superfície.

Por quê?

Para quê?

Afinal, o que é esta experiência que chamamos de vida?

Mas algo curioso acontece. Passado o choque, a reflexão também passa.

Voltamos.

Retomamos agendas, compromissos, prazos, metas, reuniões, mensagens não respondidas. Reentramos no ritmo de uma cultura que premia eficiência, produtividade e velocidade, como se compreender a vida fosse menos urgente do que dar conta dela.

E talvez essa seja uma das nossas contradições mais profundas.

Admitimos não entender a vida.

Mas seguimos vivendo como se entendêssemos perfeitamente.

Não sabemos responder ao porquê das coisas e nem ao para quê. Ainda assim, insistimos em encaixar tudo em narrativas coerentes, racionalizar excessivamente, engolir verdades prontas e automatizar comportamentos, como se isso nos oferecesse algum tipo de segurança.

Corremos atrás de inovação, tecnologia, conhecimento, experiências.

Vamos ao teatro, ao cinema, celebramos com amigos, compramos coisas novas, decoramos a casa, trabalhamos muito para sustentar a vida que construímos.

Mas, com frequência, somos mais íntimos do mundo lá fora do que do nosso próprio território interior.

Estrangeiros de nós mesmos, já não escutamos nossas necessidades reais.

Não investigamos nosso verdadeiro potencial.

Não perguntamos com honestidade se o caminho que percorremos é, de fato, aquele que desejamos trilhar.

Seguimos.

Até que algo nos interrompa.

Uma perda. Uma doença. Uma ruptura. Um susto.

Então, por um breve instante, novament despertamos.

Depois, quase sempre, voltamos a adormecer.

E o ciclo recomeça.

O adoecimento do nosso tempo se revela na competição constante, na avalanche de informações sem digestão, na incapacidade crescente de presença, nos grandes colapsos sociais, nas guerras, nos extermínios ou na violência explícita.

Mas talvez ele comece antes.

Nas nossas pequenas erosões cotidianas.

Não nos olhamos de verdade, não nos encaramos integralmente, não percebemos nossas verdadeiras necessidades, mas queremos mais!

Mais do quê?

Seguimos respirando.

O coração continua batendo.

E isso, aparentemente, nos basta como prova de que estamos vivos.

Ora, estar vivo e sentir-se vivo nem sempre são a mesma coisa.

Vivemos como se tivéssemos tempo infinito para adiar perguntas essenciais.

Como se o encontro conosco pudesse esperar até depois da próxima meta, do próximo compromisso, da próxima distração.

Mas a vida, em sua imprevisibilidade, parece insistir em nos lembrar de algo que preferimos esquecer: grande parte do controle em torno do qual organizamos nossos dias é ilusão.

E se o sentido não estiver apenas naquilo que construímos fora?

E se estiver, sobretudo, na qualidade da consciência que desenvolvemos enquanto atravessamos tudo isso?

Sentir. Perceber. Compreender a si mesmo.

Habitar a própria experiência com mais clareza.

Porque, no fim, talvez viver seja justamente isso: estar verdadeiramente presente enquanto a vida acontece.

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Ana Lucia Fernandez

Terapeuta transpessoal, faz o Outros Mapas (@outrosmapas.anafernandez), trabalho voltado a quem busca novos caminhos dentro e fora de si. Admiradora profunda do ser humano, daqueles que carregam um olhar sensível para o outro e para as suas pluralidades infinitas. Escreve aqui sobre comportamento, dimensões do ser humano, presença e os vários caminhos possíveis do existir. Nasceu e vive em Florianópolis/SC.

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