A literatura tem dessas coisas: ao lermos, muitas vezes somos levados para dentro da gente mesmo. E, quando falamos sobre o que encontramos por lá, pode acontecer de descobrirmos que não estamos sozinhos.
Minhas filhas estão em clubes do livro.
Uma delas participa de dois.
Uma amiga me contou, entusiasmada, sobre o seu. No elevador, dias atrás, uma senhora dizia à outra que estava pensando em reservar o salão de festas do prédio para a reunião de setembro do seu clube.
Eu também participo de um.
Comecei a desconfiar que, de repente, os clubes do livro parecem estar por toda parte. Ou talvez eu esteja apenas reparando neles porque agora faço parte de um. É possível.
Mas há alguma coisa curiosa acontecendo.
As pessoas estão marcando encontros para falar de livros.
Em tempos de reuniões por vídeo, mensagens de voz, grupos de WhatsApp e inteligência artificial disponível a qualquer hora, estamos reservando salas, arrumando mesas, escolhendo vinho e combinando quem leva o quê para sentar diante de outras pessoas e conversar sobre um livro.
Por quê?
Não acredito que seja apenas literatura.
E isso não diminui em nada a importância desse movimento para a própria literatura. Ao contrário. Penso que, contemporaneamente, nunca tenha sido tão importante que os livros circulem, que os escritores sejam lidos, que as histórias encontrem leitores e que o livro impresso continue ocupando um lugar concreto entre nós.
Porque o livro, afinal, é justamente aquilo que provoca quando chega às mãos de alguém.
Uma ideia sai da cabeça de um escritor, transforma-se em palavras, ganha páginas, chega a uma pessoa e, numa noite qualquer, acaba sobre uma mesa diante de outras pessoas.
Vira conversa.
Cada pessoa lê um livro a partir do lugar onde está. E quando diferentes lugares se encontram em torno da mesma história, alguma coisa começa a acontecer.
No meu clube somos só mulheres. Empolgadas, falantes, atentas, cheias de observações e ideias. Começamos falando do livro e, em algum momento, a conversa escapa.
Uma conta uma coisa que aconteceu.
Outra se lembra de alguma coisa parecida.
Uma discorda.
Alguém ri.
Alguém se emociona.
Falamos de desejos, frustrações, amores, filhos, trabalho, envelhecimento, pequenas alegrias e grandes aborrecimentos.
Uma ouve a outra.
Opina.
Pergunta.
Concorda.
Discorda.
Acolhe.
Provoca.
E o livro cumpre uma função parecida com a de um bom começo de conversa: oferece um assunto quando ainda não sabemos exatamente o que queremos dizer.
Na terapia, às vezes acontece algo semelhante. A pessoa chega falando de uma coisa e, aos poucos, percebe que havia outra querendo ser dita. Não se trata, evidentemente, da mesma experiência. Terapia e clube do livro têm propósitos muito diferentes. Ainda assim, há algo que me é familiar: podemos começar falando de uma personagem e terminamos falando de nós.
E talvez seja justamente isso.
Porque estar fisicamente com outras pessoas produz uma quantidade enorme de coisas que não acontecem do mesmo jeito quando estamos sozinhos diante de uma tela.
Há o olhar.
A pausa.
A interrupção.
A gargalhada que contagia.
O silêncio que pede alguma coisa.
A pessoa que fala demais.
Aquela que quase não fala, mas, quando fala, muda a conversa inteira.
O café.
O vinho.
E então acontece uma coisa interessante: nós nos mostramos.
Não necessariamente contando nossos segredos. Às vezes basta uma opinião.
“Essa personagem me irritou.”
Parece uma frase sobre literatura.
Mas quase nunca é só sobre literatura.
Dizemos o que pensamos sobre uma personagem e, sem perceber, revelamos um pouco de como pensamos sobre a vida.
Outra pessoa responde:
“Eu não vi assim.”
E pronto.
Temos diante de nós uma diferença.
Podemos tentar convencer.
Podemos ficar irritadas.
Podemos mudar de assunto.
Ou podemos fazer uma coisa cada vez mais rara: continuar interessadas no que a outra pensa, mesmo depois de descobrir que pensamos diferente.
Simplesmente percebendo que uma boa conversa não precisa nos fazer chegar ao mesmo lugar, mas entender que ainda queremos permanecer à mesma mesa.
Isso me faz pensar que talvez o fenômeno dos clubes do livro seja menos literário do que parece.
O livro oferece uma espécie de território comum.
É uma coisa que está entre nós. Um assunto que ninguém precisa inventar. Uma porta de entrada para a conversa.
Depois, cada pessoa leva para a mesa a sua própria vida.
Talvez por isso os clubes sejam tão confortáveis.
Não precisamos chegar dizendo: “Estou precisando conversar”.
Chegamos dizendo: “Vocês leram o livro?”
É muito mais fácil. E talvez seja exatamente disso que estejamos precisando. De pretextos.
Para sair de casa.
Para sentar perto.
Para olhar nos olhos.
Para ouvir uma opinião que não foi produzida pelo algoritmo que aprendeu nossas preferências.
Para descobrir que alguém pensa de um jeito completamente diferente do nosso e continuar gostando dessa pessoa.
Estamos permanentemente conectados.
Temos contatos, seguidores, grupos, notificações, mensagens. Mas conexão não é a mesma coisa que relação.
Podemos estar conectados com centenas de pessoas e não ter ninguém para quem dizer:
“Li isso e fiquei pensando.”
E escutar de volta.
“Eu também.”
Ou: “Eu pensei exatamente o contrário.”
E o mundo continua girando. E nós também.
Talvez seja apenas impressão minha.
Mas gosto de pensar que, enquanto passamos tanto tempo olhando para telas, algumas pessoas estão procurando novamente uma mesa.
Uma mesa com cadeiras suficientes.
Um livro no centro.
E gente em volta.
A vida contemporânea nos colocou numa situação estranha: estamos precisando de encontro, mas nem sempre sabemos como pedir o encontro.
Então inventamos pretextos como um Clube do Livro.
Será que estamos criando cada vez mais atividades para conseguir aquilo que, antigamente, acontecia quase sem precisar ser marcado: simplesmente estar uns com os outros?
Se a resposta for sim, me parece que a notícia é boa.
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Nota de rodapé: na imagem, uma representação de Dom Quixote, personagem de Cervantes que tanto rejeita a mediocridade do mundo prático e insiste em enxergar outros mundos onde os demais veem apenas moinhos. Nos lembrando de um papel muito importante da literatura, o de ampliar aquilo que somos capazes de ver e imaginar.
Leiam muito e formem seus clubes. O mundo está precisando.