Sexta-feira, 4 Setembro , 2026
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El Niño pode ficar muito forte nas próximas semanas, diz Defesa Civil

por Duda Amaral
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Defesa Civil

O El Niño avança no Oceano Pacífico e se aproxima da categoria considerada de intensidade máxima. Atualmente, a anomalia da temperatura da superfície do mar está em torno de 1,8 °C, nível que coloca o fenômeno na faixa de El Niño forte e indica possibilidade de evolução para um chamado “Super El Niño” nas próximas semanas.

Apesar da intensidade, o cenário não significa que Santa Catarina necessariamente enfrentará desastres de grandes proporções. A Defesa Civil estadual reforça que a ocorrência de eventos extremos depende da combinação de diferentes fatores atmosféricos e oceânicos.

Por esse motivo, o órgão mantém o acompanhamento permanente das condições meteorológicas e climáticas, especialmente diante da perspectiva de períodos mais chuvosos ao longo dos próximos meses.

EL NIÑO SE APROXIMA DA CATEGORIA DE MAIOR INTENSIDADE

A classificação do El Niño leva em consideração principalmente as condições observadas na região Niño 3.4, uma das quatro áreas do Pacífico Equatorial utilizadas pelos cientistas para acompanhar o fenômeno.

O El Niño é caracterizado quando a temperatura da superfície do mar nessa região permanece pelo menos 0,5 °C acima da média climatológica durante vários meses consecutivos.

A partir desse parâmetro, o fenômeno é dividido em diferentes níveis de intensidade. Anomalias entre 0,5 °C e 0,9 °C correspondem a um El Niño fraco. Entre 1,0 °C e 1,4 °C, a classificação passa a ser moderada. Já valores de 1,5 °C a 1,9 °C indicam um El Niño forte.

Quando a anomalia ultrapassa 2 °C, o fenômeno entra na categoria de muito forte.

Segundo Frederico de Moraes Rudorff, gerente de monitoramento e alerta da Defesa Civil de Santa Catarina, os dados atuais apontam para uma possível mudança de categoria.

“O El Niño forte é caracterizado a partir de 1,5 até 1,9 °C de anomalia de temperatura. Acima de 2,0, ele já se caracteriza como um El Niño muito forte. Atualmente, estamos monitorando toda a evolução deste ano e registrando temperaturas em torno de 1,8 °C, entrando na categoria de El Niño forte. É muito provável que nas próximas semanas ou no próximo mês ele já entre na categoria de um El Niño muito forte, que é considerado um “Super El Niño”, como vem sendo bastante divulgado na mídia.”

INTENSIDADE DO FENÔMENO NÃO SIGNIFICA DESASTRE GARANTIDO

Embora o El Niño muito forte possa aumentar a disponibilidade de umidade e favorecer determinadas condições para chuva intensa, a Defesa Civil ressalta que não existe uma relação automática entre a força do fenômeno e a dimensão dos desastres.

O histórico recente de Santa Catarina ajuda a explicar essa diferença. Grandes enchentes ocorreram em períodos em que o El Niño apresentava intensidades diferentes. Em 2023, por exemplo, o fenômeno era classificado como moderado, mas o Vale do Itajaí registrou uma das enchentes mais expressivas de sua história recente.

Por outro lado, anos associados a El Niños considerados muito fortes não necessariamente produziram impactos proporcionais.

“As enchentes que atingiram o Vale do Itajaí em 2023 e o Rio Grande do Sul em 2024 ocorreram sob influência de um El Niño moderado, e foram mais intensas do que as registradas em 2015, quando o fenômeno atingiu uma das maiores intensidades já registradas”, destaca.

O mesmo vale para períodos de La Niña. Eventos severos registrados em Santa Catarina também ocorreram durante a atuação desse fenômeno.

“Já tivemos grandes eventos severos também sob influência do La Niña, como os desastres de 2008, as enchentes no Alto Vale em 2011 e o ciclone-bomba em 2020. Um El Niño muito forte tende sim a aumentar a frequência de chuvas, mas a ocorrência de grandes eventos depende da combinação com outros fatores climáticos, como a oscilação de Madden-Julian (padrão climático que se desloca pelos trópicos a cada 30 a 60 dias, alternando fases úmidas e secas).”

PRIMAVERA DE 2026 É UMA DAS JANELAS DE MAIOR ATENÇÃO

Para Santa Catarina, a preocupação está especialmente concentrada nos períodos de transição entre as estações. Historicamente, a primavera e o outono são momentos em que o El Niño pode favorecer um aumento na frequência das chuvas no estado.

A primavera de 2026 aparece, portanto, como uma das principais janelas de monitoramento. Depois, o outono de 2027 volta a concentrar atenção dos especialistas.

A explicação está relacionada ao transporte de umidade. Durante essas épocas do ano, determinadas configurações atmosféricas podem favorecer o deslocamento de umidade da região amazônica em direção ao Sul do Brasil.

“Durante a época de transição. que ocorre na primavera e no outono, existe uma intensificação do transporte de umidade canalizando diretamente da Amazônia para Santa Catarina. Já no verão, esse fluxo de umidade tende a ser canalizado mais em direção ao Sudeste do Brasil, o que acaba “roubando” a umidade que normalmente viria para o nosso estado. Por isso, no verão a gente não sente tanto os efeitos do El Niño com relação a chuvas mais frequentes que tendem a se agravar principalmente na primavera e depois no outono do ano seguinte. Então, essas duas janelas tendem a ser as mais críticas com relação ao El Niño: a primavera de 2026 e, depois, o outono de 2027.”

OCEANOS MAIS QUENTES MUDAM O CENÁRIO CLIMÁTICO

Outro fator que passou a ser considerado nas análises é o aquecimento generalizado dos oceanos.

Em comparação com períodos como 2015, 2023 e 2024, o planeta atualmente apresenta uma temperatura média dos oceanos mais elevada. Isso significa que há maior disponibilidade de umidade na atmosfera, condição que pode contribuir para o desenvolvimento de tempestades e episódios de chuva intensa.

“Quando o nível base de temperatura dos oceanos está mais aquecido, nós tendemos a ter mais umidade disponível, e essa umidade atua como um verdadeiro combustível para tempestades e chuvas intensas. Então, sim. Projetamos que com a maior disponibilização de umidade em todos os oceanos, especialmente no oceano Atlântico, que está mais perto de Santa Catarina, mais intensos os fenômenos tendem a ser.”

Essa mudança também levou a NOAA, agência norte-americana responsável pelo monitoramento oceânico e atmosférico, a utilizar uma metodologia relativa para avaliar a intensidade dos episódios de El Niño.

O chamado Relative Oceanic Niño Index (Roni), ou Índice Relativo de Niño Oceânico, considera o aquecimento geral dos oceanos tropicais antes de comparar diferentes eventos. A metodologia busca evitar que o aumento da temperatura média dos oceanos distorça a comparação entre fenômenos registrados em décadas distintas.

FIM DO INVERNO TEM TEMPERATURAS MAIS AMENAS

A evolução do El Niño também ocorre em um momento de mudança nas características do inverno em Santa Catarina.

De acordo com a análise da Defesa Civil, junho ainda apresentou períodos de frio mais intenso, especialmente durante o início da formação do fenômeno. Já julho e agosto tiveram maior presença de nebulosidade e chuva, reduzindo a ocorrência de temperaturas mínimas muito baixas.

As máximas também não apresentaram elevações tão acentuadas em boa parte do período, mantendo as médias próximas do padrão considerado normal.

A tendência, contudo, é de que as temperaturas apresentem anomalias positivas nos próximos meses, com maior probabilidade de períodos mais quentes.

CHUVAS, TORNADOS E CICLONES EXIGEM MONITORAMENTO

A maior disponibilidade de umidade e o aumento das condições de instabilidade atmosférica também podem favorecer a ocorrência de tempestades severas.

Entre os fenômenos que podem aparecer estão microexplosões e tornados. Isso, entretanto, não significa que necessariamente serão registrados eventos de intensidade excepcional.

“Como a disponibilidade de umidade e também de instabilidades atmosféricas são ampliadas, tendemos a ter mais eventos severos, como microexplosões e tornados. Contudo, isso não significa necessariamente que teremos os eventos mais intensos. Por exemplo, o tornado de categoria F4 que atingiu o Paraná no ano passado ocorreu enquanto estávamos sob a influência do La Niña.”

A atuação de outros sistemas atmosféricos é determinante para definir a intensidade e a localização desses eventos. Por isso, o monitoramento não se limita ao comportamento das águas do Pacífico.

OUTROS FATORES PODEM AGRAVAR OU REDUZIR OS IMPACTOS

A experiência de 2023 e 2024 mostrou que grandes eventos de chuva são resultado da interação entre diferentes mecanismos climáticos.

Naquele período, além das condições relacionadas ao El Niño, houve influência da oscilação Madden-Julian, do jato subtropical e de um intenso fluxo de umidade direcionado para Santa Catarina.

“Tanto em 2015 quanto em 2023 e 2024, estávamos com a temperatura geral dos oceanos menos aquecida do que temos agora. Entretanto, o que contribuiu para os grandes eventos de 2023/24 não foi apenas a temperatura global, mas a sinergia de vários fatores atuando juntos, como a fase de atuação da oscilação Madden-Julian, a interação com o jato subtropical e o fluxo de umidade que foi fortemente canalizado para Santa Catarina. Então, a gente precisa monitorar esses outros indicadores para saber se há uma perspectiva de um evento similar ao que aconteceu ali, mas não é uma garantia que isso vai acontecer.”

Por isso, a Defesa Civil mantém o acompanhamento das condições meteorológicas durante todo o dia.

“Por isso, precisamos fazer esse monitoramento, não só do El Niño, mas também de outras condições. Nós fazemos esse monitoramento 24 horas aqui em Santa Catarina, mas não existe essa garantia que teremos um evento excepcional aqui no nosso estado. Entretanto, estamos fazendo várias ações de preparação para que possamos enfrentar da melhor forma possível se algo evoluir nesse sentido.”

DEFESA CIVIL ORIENTA POPULAÇÃO A SE PREPARAR

Mesmo sem uma previsão de desastre excepcional, a recomendação é que os moradores de Santa Catarina aproveitem o período de normalidade para conhecer os riscos existentes na região onde vivem.

A população deve verificar se a residência está localizada em área sujeita a inundação e identificar previamente os locais de abrigo mais próximos.

Outra orientação é realizar o cadastro no sistema de alertas da Defesa Civil. Para isso, basta enviar uma mensagem SMS com o CEP para o número 40199.

Durante temporais acompanhados de vento forte ou granizo, a orientação é procurar um local protegido e manter distância de árvores, postes e estruturas que possam cair.

Em residências que não sejam construídas em alvenaria, o banheiro pode representar uma das áreas mais resistentes da estrutura e deve ser priorizado como abrigo.

A Defesa Civil também alerta para um dos principais riscos durante enchentes: tentar atravessar áreas tomadas pela água.

Ruas alagadas, pontes cobertas e trechos com correnteza devem ser evitados. A força da água pode arrastar pessoas e veículos mesmo quando a profundidade parece pequena.

Sinais como rachaduras em paredes ou muros, postes inclinados e o surgimento de água barrenta em barrancos também exigem atenção imediata. Esses indícios podem apontar para risco de deslizamento.

Em uma situação desse tipo, a recomendação é deixar o imóvel imediatamente e buscar ajuda.

A Defesa Civil pode ser acionada pelo telefone 199, enquanto o Corpo de Bombeiros atende pelo 193.

Com o avanço do El Niño e a possibilidade de o fenômeno atingir a categoria de muito forte, Santa Catarina entra em um período que exige atenção redobrada. O cenário, porém, não deve ser interpretado como uma previsão de desastre, mas como um alerta para a importância do monitoramento e da preparação antecipada.


Com informações de Governo de Santa Catarina

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