Investigação relacionada à atuação de servidores nas redes do governador, promessas do primeiro mandato, gastos com publicidade, ausência em debate e falta de metas objetivas no novo plano estão entre os temas que cercam a candidatura
A campanha de Jorginho Mello (PL) pela reeleição ao Governo de Santa Catarina entra em setembro acompanhada de questões que podem ganhar espaço no debate eleitoral. Entre elas estão uma investigação relacionada à atuação de servidores nas redes pessoais do governador, promessas do primeiro mandato ainda em execução ou não integralmente cumpridas, críticas ao volume de gastos com publicidade e o nível de detalhamento do plano apresentado para um eventual segundo mandato.
Com a campanha entrando na reta de setembro, temas relacionados à própria administração estadual e às escolhas políticas do governador também passaram a ocupar espaço na disputa eleitoral.
TRE-SC DETERMINA PRESERVAÇÃO DE DADOS EM CASO QUE APURA POSSÍVEL USO DA MÁQUINA PÚBLICA
Um dos episódios mais recentes envolve a Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC) determinou que a Meta preserve dados relacionados a perfis de Jorginho Mello em uma apuração sobre possível uso da estrutura pública na manutenção e promoção das redes pessoais do governador.
Segundo reportagem do ICL Notícias publicada em 3 de setembro, pelo menos três profissionais ligados direta ou indiretamente ao Governo do Estado aparecem associados à administração de contas, anúncios ou estruturas digitais relacionadas aos perfis pessoais de Jorginho. Entre os casos apontados está o de uma servidora comissionada vinculada à Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade cujo telefone aparece associado a anúncios impulsionados no perfil pessoal do governador.
A reportagem também identificou servidor da Secretaria de Estado da Comunicação (Secom) como responsável pelo registro do domínio do site pessoal de Jorginho. O mesmo profissional possui registros de prestação de serviços ao PL com recursos partidários.
A determinação de preservação de dados, por si só, não significa que a Justiça Eleitoral tenha concluído que houve irregularidade. O caso está relacionado justamente à apuração dos vínculos e da eventual utilização de servidores ou recursos públicos em benefício da imagem pessoal e política do candidato. Entretanto, o episódio tende a permanecer no debate eleitoral porque Jorginho disputa a reeleição enquanto sua administração permanece no comando do Estado, embora ele esteja temporariamente afastado do cargo.
JORGINHO DEIXOU O GOVERNO PARA SE DEDICAR INTEGRALMENTE À CAMPANHA
Desde 29 de agosto, Jorginho está licenciado do Governo de Santa Catarina. O afastamento, aprovado pela Assembleia Legislativa (Alesc), vai até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno. A licença foi solicitada em caráter particular e sem ônus para o Estado. Durante o período, a vice-governadora Marilisa Boehm (PL) assumiu o Executivo catarinense.
Jorginho não tinha obrigação legal de deixar o cargo para concorrer à reeleição. A legislação permite que governadores permaneçam no exercício da função enquanto disputam um novo mandato, desde que sejam respeitadas as restrições eleitorais.
A decisão foi tomada depois de um começo de campanha com poucas atividades oficiais. Entre o início do período eleitoral, em 16 de agosto, e o pedido de licença, Jorginho havia participado de dois atos oficiais de campanha, segundo reportagem da Agência Estado.
Com o afastamento, a campanha passou a ter maior espaço para intensificar viagens, encontros e atos eleitorais pelo estado.
AUSÊNCIA EM DEBATE VIROU ESPAÇO PARA ATAQUES DOS ADVERSÁRIOS
Antes da licença, outra decisão da campanha havia chamado atenção: a participação seletiva de Jorginho nos debates eleitorais. O governador não compareceu ao debate realizado pela NDTV Record em 8 de agosto. Sem o candidato presente, adversários utilizaram o encontro para fazer críticas à administração estadual, especialmente em relação aos gastos com publicidade.
A campanha havia indicado que Jorginho selecionaria os debates dos quais participaria. Uma das justificativas apresentadas estava relacionada à necessidade de conciliar as atividades eleitorais com as atribuições de governador. Com a licença iniciada em 29 de agosto, essa dupla jornada deixou de existir.
A participação ou não do candidato nos próximos confrontos passa, portanto, a ser um ponto a acompanhar durante setembro.
GASTOS COM PUBLICIDADE ENTRAM NO DISCURSO DOS ADVERSÁRIOS
A publicidade institucional do Governo de Santa Catarina também passou a ser utilizada como linha de ataque eleitoral. No debate da NDTV, João Rodrigues e Gelson Merisio citaram um montante de aproximadamente R$ 1 bilhão destinado à publicidade durante a gestão Jorginho Mello e questionaram as prioridades do governo.
Este gasto tem sido questionado pela oposição que questionam a importância destes investimentos em comunicação em contraposição a demandas existentes em áreas como saúde, infraestrutura e educação.
NOVO PLANO DE GOVERNO É CENTRADO NA CONTINUIDADE
Outro ponto que pode alimentar o debate sobre a candidatura está no próprio programa apresentado por Jorginho à Justiça Eleitoral. O plano para 2027 a 2030 possui 22 páginas e dedica parte relevante do documento a apresentar resultados atribuídos ao atual governo. Na seção destinada ao futuro, as propostas estão divididas em sete eixos.
Levantamento realizado pelo Jornal Razão identificou 36 compromissos, dos quais 34 são formulados como continuidade, ampliação, fortalecimento, consolidação ou aperfeiçoamento de políticas existentes. Entre as propostas estão continuar o programa Estrada Boa, acelerar a Via Mar, expandir o videomonitoramento com reconhecimento facial, fortalecer o Fila Zero, ampliar a educação em tempo integral, aumentar o número de professores efetivos, ampliar o Pronampe SC e expandir programas destinados ao setor agropecuário.
A característica mais relevante para o acompanhamento das promessas é outra: o documento estabelece poucas referências objetivas para medir posteriormente o cumprimento das propostas. Segundo a análise, não há valores em reais nem prazos de conclusão associados aos 36 compromissos apresentados para o próximo mandato. A principal exceção em relação a metas quantitativas é o Casa Catarina, para o qual o documento prevê alcançar a adesão dos 295 municípios.
Isso não significa que as propostas não possam ser executadas, mas dificulta estabelecer antecipadamente parâmetros objetivos para avaliar quando determinadas promessas poderão ser consideradas cumpridas.
PLANO NÃO CITA SANEAMENTO, ESGOTO E CRECHES
A análise do documento também identificou temas que não aparecem nominalmente nas 22 páginas. Termos como saneamento, esgoto, creche, Celesc e Casan não são citados no plano protocolado para o período de 2027 a 2030. Também não há capítulos específicos dedicados à reforma administrativa, à previdência estadual ou à política salarial do funcionalismo.
A ausência no documento não significa necessariamente que essas áreas ficarão fora de um eventual segundo governo. Jorginho, por exemplo, já abordou publicamente a questão do saneamento durante a campanha. O ponto é que essas políticas não foram transformadas em compromissos específicos no plano registrado na Justiça Eleitoral.
PROMESSAS DO PRIMEIRO MANDATO ENTRAM NA DISCUSSÃO SOBRE NOVOS COMPROMISSOS
A estratégia de continuidade também coloca o desempenho do primeiro mandato no centro da eleição. O próprio plano de 2026 afirma que “100% dos compromissos assumidos no Plano de Governo de 2023 foram concluídos ou encontram-se em execução”. A formulação reúne, portanto, tanto medidas finalizadas quanto aquelas que ainda estavam em andamento.
Esse critério é diferente de considerar todas as promessas integralmente cumpridas. Levantamento publicado pelo g1 em julho de 2026 mostrou que, das 13 promessas de campanha de Jorginho acompanhadas pelo veículo, sete foram consideradas cumpridas. As demais não haviam sido classificadas como integralmente cumpridas até aquele momento. Entre os compromissos acompanhados estavam propostas relacionadas à educação, segurança pública, saúde, infraestrutura, sistema prisional e políticas de proteção às mulheres.
Esse balanço cria um parâmetro para a campanha de 2026: à medida que Jorginho apresenta novos compromissos ou promete ampliar programas existentes, a execução das propostas assumidas na eleição anterior também pode ser confrontada com as novas promessas.
A questão ganha relevância porque o programa de 2026 apresenta a capacidade de execução do atual governo como uma das justificativas para a continuidade da administração.
CANDIDATURA DE CARLOS BOLSONARO CRIOU TENSÕES NO CAMPO GOVERNISTA
Há ainda uma questão política dentro do próprio campo da direita catarinense: a candidatura de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado por Santa Catarina. A entrada do ex-vereador do Rio de Janeiro na disputa provocou divergências dentro do PL catarinense e colocou em debate seu vínculo com Santa Catarina.
A tensão ficou evidente no início da campanha. No primeiro programa eleitoral de Carlos na televisão, em 28 de agosto, o candidato concentrou sua participação na própria trajetória, na família Bolsonaro e na candidatura presidencial do irmão Flávio Bolsonaro, sem mencionar Santa Catarina. A situação gerou críticas dos adversários e repercussão dentro do próprio campo político da direita.
Para Jorginho, que concorre pelo mesmo partido e mantém forte associação política com a família Bolsonaro, a disputa cria um desafio de acomodação interna. A campanha precisa conciliar a associação com o bolsonarismo, relevante dentro da política catarinense, com interesses e lideranças locais do próprio campo político.
REELEIÇÃO COLOCA PRIMEIRO MANDATO SOB ESCRUTÍNIO
As questões que cercam a candidatura têm naturezas diferentes. Algumas são essencialmente políticas, como a disputa interna provocada pela candidatura de Carlos Bolsonaro e a ausência em debates. Outras envolvem a avaliação da gestão, como o cumprimento das promessas de 2022, os gastos com publicidade e o conteúdo do programa para 2027 a 2030.
Há ainda a apuração conduzida na Justiça Eleitoral sobre a atuação de servidores nas estruturas digitais relacionadas ao governador. Neste caso, é importante distinguir a existência da investigação de uma eventual constatação de irregularidade, que não ocorreu até o momento.
Com Jorginho buscando mais quatro anos no comando do Estado, o desempenho de sua administração passa a funcionar também como referência para avaliar os compromissos apresentados para um eventual segundo mandato.
A intensificação da campanha em setembro tende, assim, a ampliar o confronto entre o balanço dos últimos quatro anos e as propostas apresentadas para os próximos quatro, colocando as entregas, os compromissos pendentes e as escolhas políticas do governador no centro do debate das eleições 2026 em Santa Catarina.