terça-feira, 3 novembro , 2026

Com 95 km, Trilha em Florianópolis liga o Norte ao Sul da Ilha passando por 10 áreas de conservação

por Duda Amaral
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Praia da Lagoinha do Leste, Florianópolis

Caminho da Ilha de Santa Catarina conecta praias, trilhas históricas e paisagens naturais entre a Caieira da Barra do Sul e Canasvieiras, com potencial para fortalecer o turismo de base comunitária

Florianópolis ganhou sua primeira trilha de longo curso, um percurso de 95,2 quilômetros que atravessa a Ilha de Santa Catarina de Sul a Norte. Batizado de Caminho da Ilha de Santa Catarina (CAISCA), o trajeto foi oficializado pela Prefeitura por meio do Decreto nº 29.806 e conecta caminhos históricos, praias e áreas naturais em uma experiência que combina ecoturismo, preservação ambiental e valorização da cultura local.

O percurso começa na Caieira da Barra do Sul e termina na Praia de Canasvieiras, mas também pode ser realizado no sentido contrário. A iniciativa foi instituída pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e pela Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram), reunindo em um único itinerário trilhas que já fazem parte da história e da rotina de moradores da Capital catarinense.

Ao longo da caminhada, os visitantes encontram paisagens que vão de praias ao nível do mar a morros com até 232 metros de altitude. O trajeto passa por dez unidades de conservação e inclui ambientes naturais, sítios históricos e áreas de importância arqueológica.

TRILHA DE 95 KM ATRAVESSA DEZ UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

O CAISCA conecta dez áreas protegidas de Florianópolis e da região, formando um corredor de visitação que favorece o contato com diferentes ecossistemas da Mata Atlântica.

Fazem parte do percurso o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, a Área de Proteção Ambiental do Entorno Costeiro, o Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri, o Parque Natural Municipal da Lagoinha do Leste e o Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição.

A lista inclui ainda o Monumento Natural Municipal da Galheta, o Parque Estadual do Rio Vermelho, a Reserva Particular do Patrimônio Natural Morro das Aranhas, o Parque Natural Municipal Lagoa do Jacaré das Dunas do Santinho e o Refúgio de Vida Silvestre Municipal Meiembipe.

Entre os trechos incorporados ao caminho estão rotas já conhecidas pelos praticantes de caminhadas, como o Caminho dos Naufragados, a trilha da Boa Vista e a Trilha do Morro do Rapa.

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Foto: Divulgação/PMF

Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Luís Felipe Kronbauer, a oficialização fortalece a proteção desses percursos e reconhece a relação histórica das comunidades com o território.

“O CAISCA une em um só caminho trilhas que moradores e pescadores percorrem há gerações. Com o decreto, esses percursos passam a ter proteção formal, manejo planejado e uma identidade própria, que valoriza o patrimônio natural e cultural de Florianópolis”, afirma.

CAMINHO REÚNE BIODIVERSIDADE E PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Além das paisagens, a nova trilha amplia as possibilidades de observação da fauna e da flora da Ilha de Santa Catarina. Aproximadamente 41% do território terrestre de Florianópolis está protegido por unidades de conservação, que abrigam ambientes como florestas, restingas e manguezais.

A região também se destaca pela diversidade de aves, com cerca de 400 espécies registradas. Entre julho e novembro, período de passagem da baleia-franca-austral pelo litoral catarinense, há possibilidade de avistar esses animais em pontos da costa próximos ao percurso.

O patrimônio histórico e arqueológico é outro destaque da caminhada. A Ilha de Santa Catarina tem registros de ocupação humana de pelo menos cinco mil anos, evidenciados por sambaquis, inscrições rupestres e oficinas líticas.

Com isso, a proposta vai além da prática de atividades ao ar livre: o caminho permite conhecer diferentes aspectos da história, da biodiversidade e das tradições que formam a identidade de Florianópolis.

TRILHA PODE MOVIMENTAR ECONOMIA DE COMUNIDADES TRADICIONAIS

A implantação do CAISCA também abre oportunidades para os moradores das localidades próximas ao trajeto. Como a travessia completa exige pernoite, a demanda por hospedagem, alimentação e serviços de condução pode beneficiar pequenos negócios e trabalhadores locais.

Entre as comunidades com potencial para receber os caminhantes estão Caieira da Barra do Sul, Pântano do Sul, Armação, Campeche, Barra da Lagoa e Ingleses.

A iniciativa está alinhada à Política Municipal de Turismo de Base Comunitária, instituída pela Lei nº 11.457/2025, que busca valorizar as comunidades e incentivar atividades turísticas associadas à cultura e aos modos de vida locais.

A proposta é que a visitação contribua para a geração de renda sem perder de vista a conservação ambiental e o respeito às características de cada região.

PROJETO FOI DESENVOLVIDO AO LONGO DE ANOS

A criação do Caminho da Ilha de Santa Catarina é resultado de um trabalho de planejamento iniciado há vários anos. A coordenação ficou a cargo do Departamento de Unidades de Conservação (DEPUC) da Floram, dentro do Programa Roteiros do Ambiente — Trilhas e Caminhos na Ilha de Santa Catarina (PRA), desenvolvido desde 2015 para mapear, manejar e sinalizar trilhas do município.

As primeiras discussões sobre o projeto ocorreram entre 2016 e 2018, com a participação de instituições públicas e organizações ligadas ao planejamento urbano, ao meio ambiente, à arqueologia e à preservação das unidades de conservação.

Ao longo do processo, contribuíram entidades como o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF), a Secretaria de Turismo, Desenvolvimento Econômico e Inovação, o Instituto IEATA, o Instituto Multidisciplinar de Meio Ambiente e Arqueoastronomia (IMMA), a Associação Coletivo UC da Ilha e o Teju Jagua.

Posteriormente, o projeto também recebeu a colaboração do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), do Instituto Çarakura, do Instituto APRENDER Ecologia e da ANDA Brasil.

Em 2022, a Floram passou a integrar a comissão técnica estadual responsável por acompanhar a regulamentação da sinalização da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso e Conectividade, instituída pelas Portarias IMA/SC nº 160/2022 e nº 063/2025.

Os trabalhos de consolidação do caminho foram retomados em 2024. Já em 2025, as vistorias de campo contaram com o acompanhamento do IMA, responsável pela coordenação estadual da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso.

De acordo com o presidente da Floram, Fábio Henrique Machado, a construção do itinerário envolveu verificações técnicas e participação social.

“O traçado foi construído com rigor técnico e participação social. Foram diversas saídas de campo para conferir e georreferenciar cada trecho e a proposta passou pela aprovação dos conselhos gestores das unidades de conservação envolvidas”, destaca.

REGRAS DE PRESERVAÇÃO DEVEM SER RESPEITADAS

A oficialização do CAISCA também estabelece cuidados para garantir a conservação dos ambientes atravessados pela trilha. Durante a visitação, não é permitido danificar placas ou equipamentos de sinalização, retirar ou capturar espécies nativas da fauna e da flora, nem alimentar animais silvestres.

O descarte inadequado de resíduos também é proibido, assim como a instalação de estruturas e a modificação do traçado dos caminhos sem autorização. O acesso a áreas restritas deve ser respeitado.

Os visitantes precisam observar ainda as demais normas ambientais aplicáveis, especialmente as regras estabelecidas nos planos de manejo das unidades de conservação.

Com a criação da trilha, Florianópolis passa a contar com um percurso que integra natureza, história e comunidades locais em uma mesma experiência. A expectativa é que o caminho amplie as possibilidades de turismo sustentável e incentive moradores e visitantes a conhecer a Ilha de Santa Catarina de forma mais próxima e responsável.


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