Ações afirmativas abrem caminho para o primeiro mestre indígena em Direito da UFSC

Jafé Sateré-Mawé leva pluralismo jurídico indígena para mestrado da UFSC

Na manhã da última segunda-feira, 28 de julho, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi palco de um marco histórico. O estudante indígena Jafé Ferreira de Souza, do povo Sateré-Mawé, mais conhecido como Jafé Sateré-Mawé, conquistou o título de mestre em Direito, defendendo com êxito a dissertação “Sehay Koro: O pluralismo jurídico e as normas costumeiras penais do Povo Sateré-Mawé (Amazonas) enquanto ordenamento jurídico não estatal”.

O trabalho, inovador e profundamente conectado aos saberes originários, foi avaliado por uma banca composta por nomes de peso do campo jurídico, entre eles o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Luiz Henrique Eloy Amado — o Eloy Terena —, indígena do povo Terena e doutor em Ciências Jurídicas e Sociais. Também integraram a banca os professores Antonio Carlos Wolkmer, Arno Dal Ri Junior e Camila Damasceno de Andrade. A orientação ficou a cargo do professor Diego Nunes, que destacou a relevância do pluralismo jurídico abordado na pesquisa.

DIREITO PENAL INDÍGENA: UMA PERSPECTIVA QUE DESAFIA O OLHAR OCIDENTAL

Você já se perguntou como o sistema penal funciona dentro dos povos originários, fora da lógica do direito estatal? Foi exatamente esse o ponto de partida da dissertação de Jafé, que mergulhou na complexidade do sistema penal tradicional do povo Sateré-Mawé. Segundo o pesquisador, o objetivo foi estabelecer um diálogo crítico entre os modelos ocidentais — especialmente os sistemas penais iluministas — e os saberes indígenas.

“A gente constrói balizas específicas para a administração de justiça, que podem ser utilizadas nos tribunais, nas decisões, nas sentenças”, afirmou Jafé, explicando que o estudo é mais do que uma análise técnica: trata-se de um exercício de tradução cultural e política. Para o orientador Diego Nunes, a pesquisa se destaca justamente por identificar não apenas diferenças esperadas, mas também os possíveis pontos de interseção entre os modelos de justiça, abrindo espaço para o diálogo intercultural.

UM MESTRADO QUE NASCEU DO CHÃO DA LUTA

Jafé não chegou à UFSC por acaso. Formado em Direito pela mesma instituição, ingressou no mestrado por meio das ações afirmativas destinadas a estudantes indígenas — sendo o primeiro a trilhar esse caminho dentro do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade.

Seu trabalho de mestrado é um desdobramento do projeto de conclusão de curso, apresentado em 2022, e seu envolvimento vai além da pesquisa: é também um dos fundadores da Associação dos Estudantes Indígenas da UFSC, movimento que atua por direitos, visibilidade e fortalecimento da presença indígena na academia.

A Universidade, para ele, é muito mais que uma instituição: “Ela é um território de luta, de resistência e de construção coletiva. Foi aqui que encontrei espaços para refletir criticamente sobre minha identidade, minha comunidade e os desafios que enfrentamos como povo indígena”, declarou.

CONHECIMENTO TRADICIONAL COMO FONTE DE TRANSFORMAÇÃO

O trabalho de Jafé amplia horizontes ao trazer, com legitimidade, os saberes do povo Sateré-Mawé para dentro da universidade — sem deixar de lado o rigor acadêmico. “A dinâmica da pesquisa traz à tona o conhecimento tradicional indígena do povo originário do Amazonas, do Brasil, para a academia. Na academia, encontra respaldo com outros autores e teóricos”, explicou o mestre.

Ao reconhecer a pluralidade dos saberes e a existência de ordens jurídicas não estatais, sua dissertação contribui não apenas para o campo do Direito, mas para o fortalecimento das lutas dos povos indígenas por justiça, autonomia e respeito à diversidade de formas de viver e julgar.

OLHAR PARA O FUTURO COM A FORÇA DAS RAÍZES

Agora mestre, Jafé já vislumbra os próximos passos. “A UFSC me proporcionou oportunidades concretas de formação, mas sobretudo a chance de sonhar junto com outros parentes, indígenas de diferentes etnias, com histórias distintas, mas com o mesmo desejo de transformar a realidade”, enfatizou.

Em sua fala, ele destaca que a pesquisa nasce da coletividade e devolve à coletividade seus frutos. “É nesse chão acadêmico que pude desenvolver uma pesquisa que fala de nós, para nós, e por nós, e que contribui para o fortalecimento das nossas lutas em defesa da vida, do território e da justiça.”

A dissertação pode ser consultada na íntegra na biblioteca da UFSC, e representa mais que um título acadêmico — é um grito coletivo por reconhecimento, justiça e respeito às múltiplas formas de existência e saber.

Fonte: Notícias da UFSC


CONECTE-SE COM O CONECTA FLORIPA

Acompanhe o Portal Conecta Floripa e fique por dentro das notícias e eventos em Florianópolis no Conecta Floripa no Instagram.

Receba os destaques semanais do Portal Conecta SC por email, assine nossa newsletter ou participe do nosso Grupo de WhatsApp.

Exit mobile version