Mas afinal, o que é desinformação?

Artigo por Francine Canto, publicado em 03/08/2025

A desinformação é a divulgação intencional de informações falsas, com o objetivo de manipular a opinião pública, gerar instabilidade ou obter vantagens indevidas. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se de uma prática que tem explorado a velocidade das plataformas digitais para disseminar falsidades em larga escala.

É importante salientar que a desinformação difere difere da má informação, que é incorreta sem intenção deliberada, e da informação maliciosamente manipulada, que distorce fatos com o intuito de enganar.

Elementos que caracterizam a desinformação

De acordo com Eugênio Bucci, autor de Ciências da Comunicação contra a desinformação (2022), a desinformação tem como objetivo enfraquecer o pensamento crítico e corroer os laços de confiança na esfera pública.

Segundo Bucci, a desinformação possui atualmente três características fundamentais:

De modo geral, a desinformação configura-se como uma estratégia comunicacional orientada à manipulação intencional de percepções. Suas motivações costumam ser de natureza política ou econômica, e seus efeitos visam comprometer a estabilidade de contextos sociais, políticos ou financeiros. Com frequência, os alvos dessas ações são públicos em condição de vulnerabilidade, enquanto os responsáveis pela disseminação permanecem ocultos, favorecendo, em contrapartida, atores com poder de influência ou interesse em manter determinadas estruturas de poder.

Como a desinformação opera?

Mas, afinal, o que é desinformação?

De acordo com estudos reunidos pelo Shorenstein Center da Universidade de Harvard, as estratégias incluem desde a criação de sites falsos até o uso de bots para inflar visualizações e comentários. As técnicas são muitas:

Essas são apenas algumas das ferramentas que moldam a nova era da guerra informacional.

Exemplos comuns de desinformação no ambiente digital

Estratégias que impulsionam a disseminação de desinformação

A desinformação se alimenta de uma lista extensa (e assustadoramente eficaz) de estratégias, muitas vezes retóricas, que visam enganar ou seduzir o público. Você já se deparou com alguma delas?

Essas técnicas não só criam confusão. Elas manipulam a realidade.

Dados alarmantes sobre desinformação no Brasil

O Brasil é um dos países mais afetados por fake news. Segundo pesquisa de Busca da Verdade da OCDE, apenas 54 % da população brasileira consegue identificar uma notícia falsa, resultado inferior à média global (60 %) e muito abaixo da Finlândia (66 %).

A mesma pesquisa destacou que grande parte da população brasileira utiliza redes sociais como fonte principal de informação, o que amplia a vulnerabilidade a conteúdos enganosos e sensacionalistas.

O impacto da desinformação na ciência

A desinformação se espalha com rapidez nas redes sociais, onde algoritmos favorecem conteúdos de alto engajamento, mesmo que sejam falsos. Um estudo da Academia Brasileira de Ciências (ABC) apontou que conteúdos enganosos geram lucro tanto para seus criadores quanto para as plataformas, por meio de cliques e compartilhamentos impulsionados por apelos emocionais.

Esse sistema favorece de forma contundente a desinformação científica, como teorias falsas sobre vacinas, saúde pública e mudanças climáticas. Durante a pandemia de COVID-19, esse tipo de conteúdo teve papel decisivo na proliferação de curas falsas e no atraso da vacinação em diversos países.

A desinformação nas eleições

Durante as eleições municipais de 2024, a disseminação de notícias falsas foi intensa. Um levantamento do Aláfia Lab, divulgado no Festival 3i, intitulado “Abaixo do radar: Desinformação em grupos de extrema direita no WhatsApp e no Telegram nas eleições de 2024” revelou que 17 % dos links compartilhados em grupos de WhatsApp ligados à extrema direita apresentavam desinformação. Desses, 40 % continham ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A pesquisa também identificou uma tendência crescente de conteúdo opinativo disfarçado de jornalismo, com manchetes sensacionalistas e discursos extremistas. A polarização política se mostrou um fator central para o aumento da desinformação.

A era da pós‑verdade e ignorância artificial

Bucci alerta que a desinformação prospera num contexto em que emoções substituem os fatos objetivos. Ele descreve a ignorância digital como uma “uma edificação repleta de baboseiras desarticuladas, uma gosma de densidade pesada que ocupa todos os espaços. E é pisca-piscante: revestida de milhões de luzes feéricas, mais ou menos como um cassino em Las Vegas, e lotada de gente robotizada perambulando aleatoriamente, como a Praça dos Três Poderes sendo depredada no dia 08 de janeiro de 2023.”

Nessa lógica, a verdade factual perde relevância frente a narrativas impactantes, o que coloca em risco as bases da democracia deliberativa.

A desinformação como risco global em 2025

A gravidade do problema foi reconhecida internacionalmente. O Relatório de Riscos Globais 2025 do Fórum Econômico Mundial classificou a desinformação como o maior risco global para os próximos dois anos, acima de pandemias, desastres naturais e crises econômicas.

Entre os principais efeitos estão o enfraquecimento da confiança pública em instituições, o aumento da violência política, a desinformação eleitoral e a deterioração do debate democrático.

O PL das Fake News e os desafios legislativos

O Projeto de Lei nº 2.630/2020, conhecido como “PL das Fake News”, buscava criar regras para responsabilizar plataformas digitais por conteúdos falsos. A proposta previa mecanismos de transparência, restrições a contas automatizadas e maior fiscalização sobre anúncios políticos.

Aprovado no Senado, o projeto foi arquivado pela Câmara dos Deputados em abril de 2024, após intensa pressão de empresas do setor e divergências sobre a regulação da liberdade de expressão.

A desinformação é um risco global que merece toda a nossa atenção

A desinformação representa um dos maiores desafios da atualidade. Seus efeitos ultrapassam fronteiras digitais, interferem na saúde pública, distorcem processos eleitorais e comprometem a estabilidade democrática. A adoção de políticas públicas, o fortalecimento da alfabetização midiática e a atuação de iniciativas jornalísticas independentes são essenciais para mitigar esse fenômeno.

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