Nos últimos meses, uma cena inusitada vem chamando atenção no Centro de Florianópolis: jovens circulando entre prateleiras de madeira, folheando páginas amareladas, investigando capas de vinis e CDs como quem garimpa relíquias. O que antes era um hábito mais comum entre colecionadores experientes e leitores assíduos agora atrai um público cada vez mais jovem, um movimento que surpreende até os próprios donos de sebos.
Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e realizada pela Nielsen BookData, o Brasil tem cerca de 25 milhões de consumidores de livros, representando 16% da população adulta. Entre eles, 69% compraram até cinco obras nos últimos 12 meses, enquanto 54% adquiriram exclusivamente livros físicos. O estudo mostra ainda que 74% planejam novas compras nos próximos três meses. Esse cenário nacional revela que o livro físico continua relevante, mesmo com a popularização de e-books e audiolivros, e ajuda a explicar o interesse renovado nos sebos.
Conteúdos
O LEGADO DA PIONEIRA: SEBOS IVETE
À frente do Sebos Ivete, considerado o mais antigo da capital catarinense, está a empreendedora Ivete Berri. Inaugurado em 1992, o espaço se tornou referência para leitores e colecionadores. Mas a história de sua fundação começou de forma inesperada.
Natural de Blumenau, Ivete administrava uma confecção de couro até o dia em que, após uma viagem a São Paulo, descobriu que sua loja havia sido roubada. “Eu me estressei um monte. Aí pensei: ‘meu Deus, o que eu vou fazer agora?’”, relembra.

O conselho de um amigo mudou seu destino: vender o Fusca, comprar madeira e construir as prateleiras por conta própria. “Vendi meu carro, comprei madeira e fiz tudo sozinha, porque não tinha mais dinheiro. Fui pagando aos poucos e assim comecei.”
Ao visitar Florianópolis, notou a quase ausência de sebos na cidade. “Pensei: por que não tem sebo aqui? Será que o pessoal não lê? Mas pelo menos um gibizinho eles vão ler, né?”, conta, rindo no escritório repleto de livros.
Mais de 30 anos depois, Ivete garante que o livro físico continua firme, mesmo com a popularização dos e-books. “Nas férias agora, nunca vi tanto adolescente aqui. Muitos turistas, mas também jovens da cidade, comprando livros e livros.”
Para atrair esse público, ela aposta em ideias criativas, como o “livro misterioso” ,exemplares embrulhados com poucas pistas sobre o conteúdo. A proposta, criada durante a pandemia, viralizou no Instagram e ajudou jovens a diversificarem suas leituras, saindo das séries literárias repetitivas para obras clássicas ou pouco conhecidas.
SEBO IMPÉRIO: TRADIÇÃO, RARIDADES E EXPANSÃO
Fundado em 1999, o Sebo Império, na Avenida Hercílio Luz, também vive essa renovação do público. Para o gerente Alexandre Machado Laurindo, essa mudança é estratégica para o futuro da leitura. “Acho isso muito importante porque alavanca a leitura em geral, principalmente nessa faixa etária. É um período de formação do indivíduo, e saber que eles estão lendo é muito significativo.”

O acervo vai muito além dos livros: a loja mantém uma vasta coleção de vinis, CDs e revistas antigas. Entre as raridades já vendidas estão a primeira edição da revista Placar, com Pelé na capa, e o número 1 da Turma da Mônica.
Com o aumento no fluxo e no volume de obras, o Sebo Império se prepara para abrir uma segunda filial no Centro. “Além de servir como depósito, será mais um ponto estratégico para ampliar as vendas e movimentar o comércio local”, explica Alexandre, conciliando o atendimento ao cliente e a organização do acervo.
POR QUE OS SEBOS VOLTARAM AO RADAR?
O crescimento desse público mais jovem tem múltiplas explicações:
- Preço acessível: livros usados podem custar até 70% menos que edições novas.
- Sustentabilidade: a reutilização de livros e vinis reduz o descarte e prolonga o ciclo de vida dos materiais.
- Estética e nostalgia: vinis, capas antigas e papel amarelado viraram tendência entre colecionadores e até na decoração.
No Brasil, estima-se que existam mais de 1.500 sebos ativos, segundo levantamento do portal Estante Virtual. Em Florianópolis, embora o número seja menor, a relevância cultural é grande: esses espaços preservam memórias, incentivam a leitura e fomentam o comércio local.
A MAGIA DO IMPREVISTO
Parte da graça de visitar um sebo está na imprevisibilidade. Pode ser um romance esquecido há 40 anos, uma dedicatória perdida no tempo ou uma edição rara que sobreviveu a várias estantes. É uma experiência que desafia a lógica dos algoritmos e das compras online: não há filtros nem sugestões automatizadas, apenas a exploração livre.
Em um mundo acelerado e cada vez mais digital, entrar em um sebo é um convite para desacelerar. É respirar o cheiro do papel antigo, sentir o peso de um vinil na mão, folhear sem pressa. E, quem sabe, sair de lá com um tesouro que você nem sabia que estava procurando.
E você? Quando foi a última vez que entrou em um sebo?
PRINCIPAIS SEBOS EM FLORIANÓPOLIS
Abaixo, uma lista dos sebos que se destacam pela tradição, acervo robusto e localização estratégica na cidade:
- Sebos Ivete (Ivete Berri) – Calçadão João Pinto, 111 – Centro, Florianópolis – SC
- Sebo’s Império – Av. Hercílio Luz, 906 – Centro, Florianópolis – SC
- Sebo Elemental – Calçadão João Pinto, 17, loja 2 – Centro
- Sebo Cia do Saber – Rua Saldanha Marinho, 391 – Centro
- Sebo Mafalda – Rua Vitor Meirelles, 78 – Centro
- Desterrados Artes – Sebo e Livraria – Rua Tiradentes, 204 – Centro
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