O jornalismo local segue sendo peça fundamental para a vida em comunidade e para o fortalecimento da democracia, mas enfrenta dilemas de credibilidade, financiamento e adaptação aos novos hábitos de consumo. Essas são algumas das conclusões da pesquisa “O QUE CONECTA OS PÚBLICOS AO JORNALISMO LOCAL; Hábitos, interesses, sustentabilidade, engajamento e participação em Florianópolis“, desenvolvido pelo Laboratório de práticas para o jornalismo local a serviço dos públicos (LocalJor), na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que mergulhou na relação dos moradores de Florianópolis com os meios de comunicação da cidade.

O levantamento mostra que, embora a população reconheça o valor da informação jornalística produzida localmente, há uma distância crescente entre expectativas e o que é efetivamente entregue pelas redações. O cenário mistura confiança nos jornalistas, dependência das redes sociais e baixa disposição para financiar diretamente a produção de notícias.
Conteúdos
NOTÍCIAS COMO FERRAMENTA PARA O COTIDIANO
De acordo com o estudo, as notícias locais são consumidas principalmente por razões práticas. Entre os motivos mais citados estão “tomar decisões cotidianas” e “sentir-se parte de uma comunidade”. Essas motivações de caráter pessoal superaram em mais de duas vezes os fatores sociais ou ligados às características dos veículos.
Essa constatação reforça que o jornalismo não é visto apenas como mediador de informações, mas como apoio direto para escolhas individuais e coletivas no dia a dia.
TEMAS DE MAIOR RELEVÂNCIA
Os temas que despertam maior interesse da população estão ligados à vida coletiva e à qualidade de vida. Educação, Cidadania e Prestação de Serviços, Meio Ambiente, Saúde e Bem-estar, Alimentação, Cultura e Arte aparecem entre os mais valorizados, com índices acima de 60% de interesse alto ou muito alto.
Assuntos como economia, mobilidade urbana e segurança também são lembrados, mas com menor intensidade. Já áreas como Celebridades e Entretenimento tiveram apenas 15,9% de interesse, revelando que a comunidade valoriza mais informações que tenham impacto direto na vida social e nos serviços públicos.
Veículos como o Conecta SC se alinham a essa demanda ao priorizar pautas que refletem diretamente os interesses da população. O desafio, entretanto, segue sendo a visibilidade. Ainda assim, como indica o relatório, veículos locais enfrentam obstáculos para ampliar seu reconhecimento e alcançar de forma efetiva toda a população interessada.
REDES SOCIAIS LIDERAM O ACESSO ÀS NOTÍCIAS
A internet e as redes sociais são hoje o principal canal de acesso às informações locais. O levantamento mostra que 55,3% dos entrevistados recorrem a essas plataformas como fonte principal. Entre elas, o Instagram se destaca como a rede mais utilizada, com 73,3%, seguido por Facebook, Twitter/X e TikTok.
Em contrapartida, meios tradicionais como televisão, rádio e, principalmente, jornais impressos perderam força. Estes últimos praticamente não aparecem como referência significativa para os entrevistados.
Apesar dessa mudança, o estudo aponta que os jornalistas e os veículos locais ainda figuram como fontes de confiança para 79,5% da população — índice superior à média nacional, que geralmente é mais baixa quando o assunto é credibilidade da imprensa.
O QUE O PÚBLICO MAIS VALORIZA
Entre os atributos mais apreciados pelos leitores, destacam-se:
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Tema de interesse pessoal (89,8%)
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Informações suficientes para entender o assunto (86,7%)
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Linguagem acessível (82,0%)
Também ganham relevância a diversidade de pontos de vista e a originalidade na abordagem. Por outro lado, a rapidez e a brevidade da leitura não foram vistas como fatores tão determinantes, em contraste com a lógica predominante das redes sociais.
MOTIVOS DE AFASTAMENTO
O relatório também identificou os fatores que levam a população a abandonar a leitura de notícias. O pagamento pelo conteúdo foi citado por 80,3% dos entrevistados como principal barreira. Logo atrás aparece a desconfiança nos veículos jornalísticos, apontada por 79,1%.
Outros motivos incluem a percepção de que determinados temas são pouco relevantes ou estão saturados. Esses dados evidenciam que, além de questões econômicas, há uma preocupação concreta com a credibilidade e a pertinência do conteúdo oferecido.
FINANCIAMENTO: UM DOS MAIORES DESAFIOS
A disposição para pagar por notícias locais é baixa. Segundo o estudo, 67,9% afirmaram que não aceitariam contribuir financeiramente, enquanto apenas 8,1% declararam que pagariam e 4,3% já realizam algum tipo de pagamento.
A proposta de criação de uma taxa ou imposto municipal para financiar o jornalismo local também foi rejeitada por 70,2% dos entrevistados. Diante desse cenário, o relatório aponta a necessidade de explorar alternativas como editais públicos, apoio de fundações e até a regulação das plataformas digitais para redistribuição de recursos.
FORMAS DE PARTICIPAÇÃO DO PÚBLICO
A participação da população no ecossistema jornalístico ocorre principalmente por meio do compartilhamento de notícias em aplicativos como WhatsApp e Telegram (32,6%) ou em perfis pessoais de redes sociais (20,1%).
Práticas mais ativas, como sugerir pautas ou ver opiniões publicadas, também foram mencionadas, embora em menor proporção. Já iniciativas de colaboração mais estruturadas, como participar de grupos de avaliação de notícias ou dar feedback formal, são pouco adotadas.
CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
O relatório conclui que o jornalismo local enfrenta uma crise múltipla — editorial, financeira e social —, mas permanece central para a democracia e a vida comunitária.
Entre as recomendações estão a diversificação de formatos e linguagens, a adoção de modelos de gestão colaborativos, a busca por fontes alternativas de financiamento e a ampliação de espaços de participação cidadã.
Para os pesquisadores, a sobrevivência do jornalismo local depende da capacidade de se reinventar sem abrir mão da credibilidade, consolidando-se como um serviço público essencial em meio às transformações digitais.
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