Ao falarmos do empreendedorismo no Brasil, é preciso começar pelo chão: pela rua, pela feira, pelo tabuleiro, pela cozinha improvisada que sustenta famílias, alimenta territórios e preserva saberes. A mulher negra — quituteira, doméstica, mãe solo, líder comunitária, lavadeira, costureira, empreendedora informal — foi e é peça fundamental na construção do tecido social brasileiro. Seu trabalho não é apenas econômico: é o depósito vivo de práticas, de cosmologias, de ritmos e de resistência. Mulheres que transformaram a necessidade em força. Guardiãs da nossa ancestralidade africana, transmitiram saberes, curas, músicas e fé. São a alma viva do Brasil.
A história das quitandeiras, por exemplo, ajuda a entender essa centralidade. Desde o Brasil colonial, mulheres negras venderam alimentos, atravessaram cidades carregando saberes culinários de matriz africana e criaram economias locais que mantiveram comunidades inteiras. Essas mulheres produziram renda, garantiram alimentação em contextos urbanos empobrecidos e transformaram a presença negra em território de negócio e sociabilidade.
Atualmente, a face do empreendedorismo feminino no Brasil guarda traços desse mesmo movimento — e também as sequelas da desigualdade. Dados do Sebrae e levantamentos especializados apontam que uma parcela relevante das empreendedoras brasileiras se autodeclara preta ou parda, e que as empreendedoras negras recebem, em média, rendimentos menores e enfrentam maiores dificuldades de formalização, acesso a crédito e redes de apoio. Ou seja, ocupam centralidade econômica e social, mas permanecem em condições de menor aproveitamento econômico e reconhecimento institucional.
Outro aspecto essencial dessa narrativa é a maternidade. Estudos nacionais indicam que a grande maioria das empreendedoras são mães — e uma proporção expressiva é composta por mães solo — fenômeno ainda mais marcado entre mulheres negras. Ser mãe solo e empreendedora, no Brasil, é exercer simultaneamente papéis de provedoras, cuidadoras e gestoras de negócio em contextos onde políticas públicas de cuidado são insuficientes. Essas mulheres transformaram o empreendedorismo em estratégia de sobrevivência e de afirmação familiar, ao mesmo tempo em que construíram redes solidárias e comunitárias que muitas vezes suplantam o Estado.
Mas é preciso ir além da leitura meramente econômica. Mulheres negras foram, e são, vértices sociais: lideranças comunitárias e religiosas, guardiãs de saberes e mediadoras nas periferias e quilombos. São elas que mantêm festas, rezas, ofícios, cantos e remédios — uma dimensão de poder simbólico que raramente aparece nos indicadores econômicos, mas que confere coesão, memória e dignidade a bairros inteiros. Reconhecer o protagonismo dessas mulheres é reconhecer que empreendedorismo também é cultura e tecelagem comunitária.
Defender a mulher negra empreendedora é reconhecer a dívida histórica do Estado e do mercado, e é também apostar no futuro de cidades mais justas, criativas e solidárias. É prioridade que a política local transforme o reconhecimento em políticas públicas que dignifiquem o trabalho, preservem saberes, e garantam que quem sempre manteve a vida do povo — as mulheres negras — possa prosperar com direitos, renda e autonomia.
Investir em qualificação sob medida, em acesso a mercado e em redes de cooperação aumenta renda e reduz vulnerabilidades. Políticas públicas locais alinhadas com programas que mapeiam desigualdades por raça, gênero e região podem ser decisivas para reduzir a diferença de rendimento e fortalecer empreendimentos de base negra.
O empreendedorismo negro não é apenas estatístico: é história, ancestralidade, comunidade e poder. O Brasil só vai ser justo quando as mulheres negras puderem prosperar com dignidade. Porque empreender, para elas, nunca foi só vender — foi resistir, ensinar, cuidar e construir comunidade.
É tempo de escutar, fortalecer e remunerar essa potência. Em Santa Catarina, seguiremos nessa direção — com políticas, com diálogo e com coragem.

Vanessa da Rosa é professora, pesquisadora e vereadora em Joinville pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Em 2023, fez história ao se tornar a primeira deputada negra deste século a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, 89 anos após a última mulher negra ter exercido o cargo. Com trajetória marcada pela defesa da educação pública, da igualdade racial e de gênero, Vanessa atua como uma das principais vozes da representatividade negra no estado.

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