Enquanto as articulações da direita catarinense seguem a todo vapor, com algumas turbulências, a esquerda se organiza para cavar um espaço no pleito em 2026. No centro dessa movimentação está o PT, que mantém o protagonismo, mas observa atentamente aliados e partidos como o PSB, que tentam encontrar formas de reforçar a competitividade da coligação e ampliar a base eleitoral em um cenário estadual cada vez mais polarizado.es além do eleitorado tradicional da esquerda.
A principal figura sondada pelo PSB é o ex-senador Paulo Bauer. Em novembro, o presidente estadual do partido, Níkolas Bottós, se reuniu com ele e com o também ex-senador Dário Berger em um jantar, realizado em Florianópolis. Na ocasião, ele convidou os dois a se juntarem à sigla, e apresentou a ideia que está sendo gestada por ele e seus correligionários: lançar Bauer como candidato ao governo do Estado no ano que vem.
De início, a ideia parece um pouco fora do lugar, mas há uma lógica: segundo os cálculos do PSB, Paulo Bauer seria uma figura com maior capacidade de atrair eleitores da direita, e superar a rejeição ao PT que hoje atrapalha a uma eventual candidatura de Décio Lima. Com Bauer na cabeça da chapa, o presidente do Sebrae estaria livre para focar em uma disputa onde tem mais chances de ser eleito: a corrida ao Senado. Em pesquisas recentes, Décio aparece em terceiro lugar nas intenções de voto, atrás apenas de Carol De Toni (PL) e Carlos Bolsonaro (PL).
Resta saber se Paulo Bauer aceitará o convite. Segundo Níkolas Bottós a resposta ainda não é definitiva, mas há espaço para otimismo. “Ainda estamos na fase das conversas, mas vejo nele a disposição de disputar mais uma eleição”, afirmou o presidente do PSB/SC à coluna. “O resultado na última pesquisa mostra que ele ainda tem espaço, tem viabilidade”.
Segundo informações dos bastidores, no entanto, caso Bauer dê o sinal positivo, seu ingresso na nova sigla aconteceria após o ano novo. A nova chapa, então, seria composta em aliança com o PT, que indicaria o candidato a vice e o nome de Décio Lima para uma das vagas ao Senado. A outra vaga para a Câmara Alta deverá ir para outra figura da coligação de esquerda, como o vereador Afrânio Boppré, que hoje é pré-candidato ao governo pelo Psol — isso se ele aceitar estar na mesma chapa que Paulo Bauer.
Articulação nacional
A ideia de lançar Bauer como candidato pela esquerda em Santa Catarina não veio de dentro do Estado. É resultado de uma articulação nacional, gestada pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin, que já conhecia o ex-senador dos tempos em que os dois estavam no PSDB. Níkolas Bottós também é cria dos tucanos, e tem proximidade com os dois políticos — por isso, foi encarregado de liderar o partido em Santa Catarina, com a missão de ampliar a presença do partido no estado e tirar essa ideia do papel.
Estratégia
Uma candidatura sólida em Santa Catarina é de grande interesse para Lula, que hoje vê em Jorginho Mello uma verdadeira pedra em seu sapato. O governador é oposição ao governo federal hoje, e tem utilizado sua influência para perpetuar o projeto bolsonarista no território catarinense. Por isso, a construção de uma chapa que tenha fôlego para reduzir o domínio da direita no estado é essencial.
A leitura que se faz nos bastidores é que Paulo Bauer — figura mais para a centro-direita do que para a esquerda propriamente dita — poderia acabar quebrando a resistência do eleitorado e dividir os votos à direita. Para Níkolas Bottós, há esperança de repetir o resultado de Décio Lima em 2022: “os últimos resultados eleitorais em Santa Catarina dão fôlego para que haja um segundo turno e que o projeto de uma frente de centro-esquerda possa estar nessa disputa”.
No levantamento realizado pela Futura, em novembro, Bauer apareceu com 7,1% dos votos — atrás de Jorginho Mello (50,7%) e João Rodrigues (18%). Se ele tem poucas chances de ser eleito, paciência: há ainda espaço para crescimento, e às vezes a saída não é vencer, mas tornar a vitória custosa para seu adversário. Há quem diga inclusive que, em Brasília, a esperança é de uma vitória de João Rodrigues, e que a candidatura de Paulo Bauer poderia servir como uma ajuda indireta nesse cenário. Qualquer coisa seria melhor para Lula que a reeleição de Jorginho em 2026.
Resistência
Mas o ex-senador ainda encontra resistência na sua futura provável chapa. Apesar de ele não ter nem mesmo batido o martelo sobre sua vinda para o PSB, figuras mais à esquerda na coligação já expressaram seu descontentamento com essa possibilidade. É o caso do vereador Leonel Camasão, que questionou a articulação por meio de suas redes. Ele compartilhou um vídeo da campanha de reeleição de Bauer para o Senado em 2018, que traz críticas severas às gestões de Lula e Dilma.
O vereador fez ainda questão de lembrar que Bauer fez parte do governo Bolsonaro. Entre 2018 e 2020, o ex-senador ocupou o cargo de assessor especial da Secretaria de Relacionamento Externo da Casa Civil, na época liderada pelo deputado federal Onyx Lorenzoni. Saiu em 2020, após desgastes de Onyx com o governo.
Níkolas Bottós, reconhece que há resistência ao nome de Paulo Bauer, mas acredita que esse detalhe pode ser resolvido à base do diálogo. “É natural que haja arestas e estas serão aparadas, sem sombra de dúvida. Estamos conversando com o PT e com todos os demais partidos de centro-esquerda e esquerda. A recepção está muito boa, salvo algumas isoladas manifestações”, afirma ele. “O momento é de união em prol da democracia e do projeto nacional — que será preponderante e necessária para 2026”.
Se hoje Paulo Bauer é visto como uma alternativa para a esquerda catarinense, suas raízes estão, de maneira inegável, na direita — e isso pode ser bom ou ruim, a depender do interlocutor. O certo é que, antes de qualquer especulação, é importante lembrar que ele nem mesmo decidiu se aceitará o convite do PSB. Por enquanto, o pré-candidato da esquerda e de Lula ao governo de Santa Catarina segue sendo Décio Lima. A ver as atualizações que os próximos meses trarão.

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