Aprender a Sonhar é um Ato Revolucionário

Sérgio Adriano H., Imagem, Negritude e Disputa do Imaginário em Santa Catarina

Com a morte do menino Hudson no Morro do Mocotó, em Florianópolis, pela Polícia Militar, no final de 2025, um sentimento de revolta tomou conta dos meus pensamentos. Trabalho com artes visuais e cinema há duas décadas e meia e já vivi experiências transformadoras de arte-educação nos morros da cidade. Hudson talvez tenha sido uma das crianças que brincavam na escadaria de um desses morros quando eu passava com uma câmera na mão ou com um projetor improvisado, insistindo que o cinema também pertence à periferia.

Esse assassinato não é um desvio da norma. É o Estado atuando em sua forma básica nos morros da capital catarinense.

Movido por um compromisso antirracista que não é retórico, mas existencial, procurei Sérgio Adriano H., artista afro-diaspórico catarinense, nascido em Joinville. Em dezembro, ele ocupava o Museu de Arte de Santa Catarina com a exposição “O Brasil Pitoresco de Sérgio Adriano H.: Passado – Presente”, sob curadoria de Juliana Crispe. Fui ao MASC para ver, ouvir, escutar e entender seu ponto de vista radical sobre ser preto em Santa Catarina — um estado que, no mesmo mês, aprovava na Assembleia Legislativa o fim das cotas raciais para acesso às universidades, naturalizando um pacto social racista com a tranquilidade de quem nunca precisou se explicar.

A exposição é monumental em escala e densidade política. Mais de 140 obras atravessam fotografia, performance, vídeo e objetos, compondo um percurso que desconstrói e remonta a história oficial.

Sérgio opera como uma ilha de edição: coleta objetos, cria imagens, compõe figurinos e apresenta o próprio corpo como manifesto. Seu trabalho é a emancipação da negritude nas artes. O pioneirismo, a originalidade, o diálogo com cânones do afrossurrealismo e a arquitetura curatorial de Juliana Crispe transformam passado e presente numa experiência imersiva e politicamente contundente.

Antes de tudo, Sérgio parte do embate direto com a tradição imagética de Debret e Rugendas, artistas viajantes que ajudaram a cristalizar um “Brasil pitoresco” colonial, onde corpos negros aparecem como paisagem, nunca como sujeitos. Seu gesto é inverter o eixo: reinscrever o corpo negro como centro, como poder, como pensamento.

Logo nas primeiras salas, a palavra PRETO surge associada à ideia de pavor, enquanto PODER aparece materializado em minerais de Minas Gerais. Para um espectador — uso o termo porque penso cinema — a metáfora pode parecer direta. Mas o que está em jogo é o racismo ambiental em estado bruto.

Sérgio explicita o que costuma ser varrido para debaixo do tapete branco: os territórios explorados, alagados, contaminados e descartáveis coincidem historicamente com os lugares onde a população negra foi empurrada. Assim, no passado, foram criadas as periferias.

Em São Paulo, pessoas negras viviam no centro; com a imigração europeia, foram expulsas para as margens. Onde alaga hoje? Onde faltam saneamento, transporte e política pública? Nas pontas. A obra transforma a geografia urbana em acusação direta.

Penso, de forma provocativa, que se políticos da extrema direita frequentassem museus de arte, poderiam se sentir ofendidos pela exposição.

Há também um trabalho sistemático de reflorestamento simbólico. Sérgio pinta imagens de branco não como apagamento, mas como exercício de imaginação radical: e se não tivesse havido invasão? E se este país não tivesse sido fundado pela catequese forçada, pela escravidão e pela extração predatória? O branco não produz neutralidade. Ele cria pausa crítica, espaço para reimaginar o Brasil.

Diz Juliana Crispe: “Reflorestar, como dizem os povos indígenas, não é só recompor a paisagem: é reflorestar a mente, a educação, o imaginário social.”

Essa dimensão pedagógica atravessa toda a exposição. Livros didáticos, guias patrimoniais, bíblias, constituições e manuais de história da arte são marcados, riscados, tensionados e remontados. Um livro sobre bens tombados de Santa Catarina revela imagens de corpos escravizados no tronco — páginas que o projeto colonial tenta apagar da memória coletiva.

Sérgio não apaga o passado; aponta o dedo para ele. Fura, atravessa, corta e lança uma luz que produz sombras. “Porque só evidenciando a violência histórica é possível interromper sua repetição no presente”, afirma o artista.

E o presente grita. A cada 23 minutos, um homem negro morre no Brasil. Esse dado estrutura a exposição, inclusive a performance “desCOLONIZAR CORpos”, em que Sérgio permanece 23 minutos sobre um pedestal, transformando o próprio corpo em estatística viva.

Ao final da mostra, tudo converge para uma palavra simples e devastadora: SONHAR.

Num Brasil onde crianças ainda morrem pela cor da pele, aprender a sonhar é um ato revolucionário.

 

 

 

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