Festa de aniversário de Merísio foi laboratório político da frente democrática em SC

Na última sexta-feira, 31, Gelson Merísio (Solidariedade) comemorou seu aniversário em grande estilo. Escolheu um restaurante em Jurerê para celebrar seus sessenta anos de vida e, na lista de convidados, colocou as principais lideranças políticas do Estado. A celebração do pré-candidato foi muito mais do que uma mera festa — foi um ato de posicionamento político, e um anúncio de seu retorno ao tabuleiro político após oito anos fora do jogo. 

Merísio deu aos seus convidados um gostinho do projeto que está construindo para o pleito deste ano: uma frente ampla democrática dedicada a ampliar o palanque de Lula em Santa Catarina, que se mostra aberta a articulações além do campo da esquerda. Exemplo disso é a presença de figuras ligadas ao MDB, ao PSD e ao PL, que dividiram espaço com lideranças conhecidas do PT de Santa Catarina, como Décio Lima, Ana Paula Lima e Luciane Carminatti. 

Havia inclusive a expectativa da presença do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB) e de Fernando Haddad (PT), que não se concretizou. A ausência das duas personalidades nacionais, no entanto, não diminuiu o astral da celebração. Com tantas figuras políticas concentradas em um só lugar, as conversas reservadas e a circulação nos bastidores marcaram o tom, e o assunto da noite foi, é claro, o cenário político catarinense para o ano de 2026 e suas possibilidades em aberto. 

O MDB fragmentado

Uma das lideranças políticas que marcou presença foi o presidente estadual do MDB, Carlos Chiodini. O partido hoje é o centro das especulações na política catarinense, e um alvo das articulações de Merísio, que já propôs se filiar ao partido para concorrer ao governo, caso a sigla aceite se aliar à esquerda. Essa possibilidade parece pouco provável no momento, no entanto — isso fica explícito quando se presta atenção às ausências na festa. No entanto, nenhum dos deputados estaduais ou federais da legenda acompanhou Chiodini, o que deixa ainda mais evidente a divisão interna no partido.

Esse racha se dá em quatro vias, cada uma voltada para um futuro possível para a legenda em Santa Catarina. A primeira delas, apoiada por uma parcela dos emedebistas, é seguir com Jorginho Mello (PL), apesar dos pesares. Já outros membros do partido falam em lançar um projeto próprio — alternativa cada vez mais improvável, de acordo com avaliações, uma vez que teria grande risco de isolar o partido na disputa. 

Uma terceira opção é a possibilidade de aliança com o PSD de João Rodrigues, que vem cortejando o MDB ao longo dos últimos dias. Na semana passada, a cúpula da legenda se reuniu com o prefeito de Chapecó, e desenhou caminhos para um possível projeto conjunto, mas sem nenhuma definição. A aposta de Merísio agora é tentar contornar essa articulação, e fornecer uma quarta opção para o emedebistas: trazer o partido para a frente democrática construída por ele, junto de PT e PSB. Essa quarta via, no entanto, ainda encontra resistências na base da sigla, mesmo com a boa vontade de seu presidente estadual. 

Mas se parte da bancada atual do MDB não quis cantar parabéns para Merísio, a velha guarda do partido não teve as mesmas reservas. Os ex-governadores Paulo Afonso e Eduardo Moreira estavam lá naquela noite, junto dos ex-deputados Ada de Luca e Moacir Sopelsa — representantes de uma ala do partido que está afastada das decisões da legenda, mas que ainda carrega um peso histórico. Merísio tenta, portanto, se aproximar do partido por meio dessas figuras, com quem já tem familiaridade. 

Unindo todas as tribos

Outra figura que chamou atenção na festa de Merísio foi o ex-governador Raimundo Colombo (PSD), que inclusive foi citado por convidados como um possível vice para o projeto de Merísio. A possibilidade, no entanto, parece distante. Apesar de compor uma ala que diverge do posicionamento de João Rodrigues, ele não dá sinais de querer romper com os planos de sua legenda, e foca sua energia em uma candidatura à Câmara dos Deputados. Sua presença, segundo interlocutores, foi muito mais como uma sinalização interna para seus colegas de partido, e não uma aproximação com o projeto da esquerda. 

A direita também foi representada na noite de sexta por dois políticos ligados ao atual governador, Jorginho Mello. O ex-prefeito de Blumenau, hoje diretor do BRDE, João Paulo Kleinübing, e o atual prefeito da cidade, Egídio Ferrari (PL), estiveram presentes na festa, embora não sejam tão simpáticos ao projeto de Merísio. A leitura dos demais é que estavam lá como observadores — na volta para casa, contaram tudo o que viram e ouviram para Jorginho e seus aliados. 

A esquerda em peso

A expectativa da noite era a presença de Alckmin e de Haddad, que acabou por não se concretizar. Esse fato, no entanto, não afetou o clima — nem tornou menos evidente a participação em peso dos representantes da esquerda na celebração, refletindo as articulações capitaneadas pelo aniversariante.

Aliado central na construção da chapa para 2026 e possível candidato ao Senado no palanque de Merísio, Décio Lima foi uma das principais figuras da noite. Os dois pré-candidatos apareceram ao lado das deputadas Ana Paula Lima e Luciane Carminatti, assim como da ex-senadora Ideli Salvatti, dos deputados Pedro Uczai e Fabiano da Luz, e da vereadora Carla Ayres, pré-candidata à Câmara. 

Também marcaram presença lideranças de outros partidos da frente democrática, como a vereadora de Criciúma Giovana Mondardo (PCdoB) e a ex-deputada estadual Angela Albino — que aparece como uma das possíveis candidatas para o cargo de vice na chapa em construção.   

Um projeto em andamento

Como a colunista Maga Stopassoli afirmou em sua análise sobre a festa de Merísio, o aniversário de um político é, na maior parte das vezes, um ato político. Tendo a concordar com ela: a noite da última sexta-feira foi um anúncio do retorno do ex-deputado à arena política, e uma demonstração do traquejo e poder de articulação que ele ainda possui, apesar de tanto tempo afastado dos holofotes. Poucas pessoas podem se gabar de ter uma festa de aniversário que renda tanta especulação e material para os analistas como essa. 

Nada foi decidido ainda, é claro: ainda é relativamente cedo no calendário político. Fato é que a festa deu a tônica de como está sendo a construção dos projetos eleitorais em Santa Catarina — feita pelos bastidores e, por enquanto, com todas as opções em aberto, apesar dos acenos e conversas. Ao longo das próximas semanas, veremos os resultados desse encontro de figurões na noite de Jurerê. 

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