Crises no PL catarinense são oportunidades para João Rodrigues romper isolamento

O ano de 2026 começou com reviravoltas significativas nos planos de João Rodrigues. Se antes o prefeito de Chapecó estava isolado politicamente, com o anúncio da aliança entre Jorginho Mello (PL) e Adriano Silva (Novo) para o pleito de 2026, ele viu uma oportunidade única se materializar à sua frente: a possibilidade de uma articulação com o MDB, que até então tinha tudo para seguir com Jorginho. 

A notícia — hoje velha — modificou completamente o cenário eleitoral, e chocou, com razão, muitos dos seus principais atores. João Rodrigues foi uma das pessoas que foram pegas de surpresa. Em uma das entrevistas concedidas nos dias subsequentes ao anúncio de Jorginho, ele num primeiro momento confessou ter sido surpreendido pela manobra, mas também reconheceu as oportunidades que ela criou para seu próprio projeto. 

“Para quem estava isolado, já não está mais. Você já passa a ter muitos partidos para conversar”, contou ele à Rádio Cidade em Dia, de Criciúma, no dia 30 de janeiro. Ele fala, é claro, do MDB — que, segundo ele, foi traído por Jorginho Mello. “A palavra foi quebrada pelo governador, houve uma traição pública a um partido que devo respeito. O próprio governador já havia anunciado em Tubarão e também em Balneário Camboriú que o MDB seria seu vice e de repente ele muda a rota, sem combinar com seus aliados, e busca um prefeito adversário”.

Mas se para o MDB o revés foi significativo — motivando a saída do partido do governo, decidida no dia 3 — para o prefeito de Chapecó, é uma chance que não dá pra deixar passar. E ele agiu rápido. 

Conversando

Jorginho e Adriano publicaram o vídeo avisando a todos que iriam juntos para o pleito no final da tarde da quinta-feira. No início da semana seguinte, logo após a reunião emergencial realizada pela Executiva Estadual do MDB, o partido já se encontrou com PSD para esboçar possibilidades. Foi um encontro preliminar, em que se discutiu a construção de uma chapa hipotética, com vaga para os emedebistas na majoritária. 

Trazer o MDB para seu projeto é de extremo interesse para o prefeito de Chapecó. Com mais 70 prefeitos e 500 vereadores pelo Estado, o partido traz uma capilaridade que ajudaria João Rodrigues a expandir sua base eleitoral para além do oeste, onde ele já é bem reconhecido. Caso ele não consiga atrair a sigla, o MDB pode vir a apoiar outra chapa com potencial — a de Merísio, por exemplo, que briga nos bastidores pelos afetos dos emedebistas. 

João Rodrigues afirma que, apesar de não ter conseguido fechar um acordo nesta reunião, o diálogo é permanente. Mas é possível ver um certo tom de pessimismo em suas declarações. Segundo ele, ainda existe a possibilidade de a sigla lançar candidatura própria para o governo do Estado. “É um cenário legítimo e saudável para o processo democrático”, afirmou. 

Outro caminho provável

Mas o MDB não é o único aliado no radar de João Rodrigues. O prefeito de Chapecó tem conversado também com Fábio Schiochet, presidente estadual da Federação União Progressista, e almeja fechar uma coligação oferecendo a Esperidião Amin uma das vagas ao Senado. No início do mês, ele afirmou que as negociações estariam avançadas, com grande parte das lideranças da federação favoráveis à composição. Fatos recentes, no entanto, contam uma outra história. 

Danos colaterais

Novamente uma crise no PL trouxe problemas para a chapa de João Rodrigues — e dessa vez, os envolvidos são justamente o senador Esperidião Amin, e a deputada Carol De Toni, que disputam uma vaga na chapa de Jorginho. Se de um lado Amin e seu grupo davam ao prefeito de Chapecó a certeza de uma articulação, do outro, seguiam com um pé no barco de Jorginho, suas conversas com o PL se desenrolando a nível nacional.

A confusão gira em torno de um acordo entre o PL e a União Progressista para fortalecer a candidatura de Flávio Bolsonaro. O projeto conta com algumas condições impostas pela federação, que afetam o cenário eleitoral catarinense: a principal é a exigência de que uma das vagas ao senado na chapa de Jorginho seja cedida a Amin. A outra, fechada nos bastidores, é a garantia de que Carol De Toni, favorita nas pesquisas no Estado, não seja candidata à Câmara Alta. 

Ainda sem desfecho claro, a crise interna no PL evoluiu para a saída de De Toni do partido. Ao que tudo indica, Jorginho Mello fechará com Amin na corrida eleitoral, apesar de não negar nem admitir este fato. Como dano colateral fica a articulação de João Rodrigues, que há menos de uma semana afirmava ter certeza da composição com a União Progressista.

Um convite

Mas se a briga interna no partido rival representou outro revés para o PSD, também revelou uma outra oportunidade para a sigla. Fora do PL, Carol De Toni agora busca uma nova casa, e o partido de João Rodrigues novamente não perdeu tempo. Em uma reunião realizada em Florianópolis na semana passada, ao mesmo tempo em que a crise no PL catarinense se desenrolava, o PSD chegou a algumas decisões relativas ao seu projeto político no Estado. Entre os encaminhamentos, um convite formal a Carol de Toni para que se filie ao partido, com um bônus: ela poderia ser a única candidata ao Senado da chapa. 

A proposta do PSD deixa margem para que Carol mantenha uma dobradinha com Carlos Bolsonaro e, dessa forma, evite se queimar com o clã. O problema é que ela teria que abandonar Jorginho Mello, e fazer campanha por seu rival no Estado. Algo difícil de se imaginar. 

Uma certeza

A única certeza no projeto de João Rodrigues é o projeto em si. Com a garantia de um candidato à presidência pelo PSD — tornada ainda mais sólida com a filiação de Ronaldo Caiado, governador de Goiás, na semana passada — o partido precisa de um palanque estadual para ampliar sua votação em Santa Catarina. O prefeito de Chapecó já tem até data marcada para deixar o cargo e se dedicar inteiramente à campanha: dia 23 de março. 

Mas ainda há uma grande dose de desafio para a chapa peessedista no Estado, a começar pelo isolamento. Com suas conversas com outras siglas, João Rodrigues tenta com afinco articular uma chapa maior, que possa bater de frente com o projeto de Jorginho Mello. No entanto, as movimentações do atual governador parecem colocá-lo em uma posição cada vez mais difícil. Resta ver se ele conseguirá contornar os problemas que cercam seu projeto, ou se o seu projeto será apenas para marcar posição, esquecido entre outras alternativas eleitorais mais robustas.  

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