SC registra média de 198 registros diários de casos de violência contra a mulher

A violência contra a mulher em Santa Catarina alcançou uma média de 198 registros por dia entre 2020 e 2025, segundo dados do Observatório da Violência Contra a Mulher da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. No período, foram contabilizados 445.225 crimes, revelando um cenário persistente de agressões, ameaças e feminicídios no estado.

Os números ganham novo peso diante de casos recentes, como o de Priscila Dolla, morta pelo namorado em Rio Negrinho. Antes de ser assassinada, ela disse: “Por favor, eu tô pedindo… você quer que eu me ajoelhe? Eu tenho um filho…”. A repetição de histórias semelhantes mantém o tema no centro do debate público e pressiona autoridades por respostas mais eficazes.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER CRESCE E MANTÉM CURVA ELEVADA EM SC

Os dados mostram aumento gradual nos registros ao longo dos anos. Em 2020, foram 64.007 ocorrências. Em 2021, 70.191. Em 2022, 72.047. Em 2023, o número chegou a 77.949. O patamar segue alto nos anos seguintes.

A média de idade das vítimas é de 36 anos. A maior parte dos casos ocorre dentro de casa e envolve companheiros, ex-companheiros, namorados ou maridos.

O Observatório foi criado em 2021 para reunir informações, monitorar indicadores e subsidiar políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero em Santa Catarina.

MEDIDAS PROTETIVAS E DESCUMPRIMENTO ACENDEM ALERTA

Santa Catarina ocupa a segunda posição no país em descumprimento de medidas protetivas: uma em cada quatro decisões judiciais não é respeitada. A deputada Luciane Carminatti, coordenadora do observatório, afirma que os dados refletem uma emergência social.

“Quando olhamos para esses dados, não podemos enxergar apenas estatísticas. Cada registro representa uma mulher que sentiu medo dentro da própria casa. Não podemos naturalizar quase 200 casos por dia. Não é normal. É uma emergência social”, declarou.

Ela também aponta que a violência costuma seguir um padrão. “Na maioria dos casos, o agressor é alguém de dentro de casa: companheiro, ex-companheiro, namorado ou marido. A violência não surge de repente. Ela começa no controle, na humilhação, na ameaça, na ideia de posse. É fruto de uma cultura machista que naturaliza o poder do homem sobre a vida da mulher”.

Somente em 2025, foram solicitadas 31.655 medidas protetivas no estado. Em janeiro de 2026, já houve 3.223 pedidos.

FEMINICÍDIOS REVELAM SILÊNCIO E REINCIDÊNCIA

Entre 2020 e 2025, 329 mulheres foram assassinadas em Santa Catarina. Em 85,7% dos casos, não havia boletim de ocorrência prévio contra o agressor.

Ao mesmo tempo, 71,4% dos autores já possuíam algum registro policial, indicando reincidência.

Em 2026, até o momento, foram registrados 6.983 casos de violência contra a mulher, incluindo 3.107 ameaças e 1.759 ocorrências de lesão corporal. Cinco feminicídios já foram contabilizados neste ano, quatro deles apenas em fevereiro.

Para a deputada Paulinha, é necessário avançar em protocolos mais eficazes. “Está mais do que na hora de transformarmos essa indignação em ações reais que evitem que essa verdadeira epidemia de violência contra a mulher continue. O ciclo que muitas vezes termina em morte se inicia na violência psicológica, na agressão física ignorada. Por isso, precisamos propor a construção de um novo protocolo de ação no Estado”, afirmou.

ACESSO À JUSTIÇA E REDE DE APOIO

A defensora pública Anne Teive Aura, integrante do comitê gestor do observatório, destaca que o medo e o desconhecimento ainda impedem denúncias. “Muitas vezes, esse silêncio está relacionado ao medo ou ao desconhecimento sobre seus direitos. É importante saber que existem instrumentos legais, como as medidas protetivas de urgência. A Defensoria Pública é um dos espaços de acolhimento gratuito.”

O Ministério Público de Contas de Santa Catarina também reforça a necessidade de monitoramento constante. “A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural. Nenhuma mulher deve viver sob ameaça e o direito a uma vida digna é inegociável”, afirmou a procuradora-geral Cibelly Farias.

COMO DENUNCIAR VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM SC

Em caso de emergência, a orientação é ligar 190. Denúncias anônimas podem ser feitas pelo 181.

A Polícia Civil de Santa Catarina também disponibiliza registro online de ocorrência e atendimento via WhatsApp pelo número (48) 98844-0083. O site do Observatório reúne contatos de unidades de saúde, CREAS, Defensoria Pública e Procuradorias da Mulher nos municípios catarinenses.

O acompanhamento desses indicadores deve continuar no radar das autoridades e da sociedade civil, diante de um cenário que mantém índices elevados e exige respostas permanentes do poder público.

Com informações da Agência ALESC.

 

Exit mobile version