Uns anos atrás um aluno me fez uma pergunta que me deixou pensativa: “Por que parte da esquerda tem tanta dificuldade de se comunicar com o brasileiro hoje?”
Não sei se concordo totalmente com isso. Também não sei se discordo plenamente. O fato é que já faz uns bons anos que a comunicação política mudou, e as redes sociais chegaram premiando narrativas sólidas e simples, discursos rasos, personas bem definidas, gatilhos emocionais e conteúdos que incitam o medo através da construção de inimigos em comum. E, sim, nesse ambiente digital é sempre mais fácil encontrar um vídeo viral lançado pelo outro campo ideológico.
Mas será que “só” o surgimento das redes sociais é a resposta certa para aquele aluno preocupado?
Certamente não. E algumas pistas do novelo em que estamos metidos (nós todos: eu, você, direita, esquerda e políticos) estão no livro “Brasil no Espelho”, do professor Felipe Nunes, da Quaest. Analisando os resultados da extensa pesquisa de Nunes, me atrevo a lançar uma polêmica (estilo “postei e sai correndo”): parte da narrativa da esquerda não está mais conseguindo se conectar com o novo eleitor brasileiro.
Vamos aos dados:
<< 70% dos brasileiros que ganham até 1 salário mínimo acreditam que bolsas e auxílios sociais fazem as pessoas trabalharem menos
<< 69% dos brasileiros que ganham até 1 salário mínimo acreditam que só se deve ajudar quem faz por merecer
<< 56% dos brasileiros acreditam que os pobres não se esforçam para melhorar sua renda
<< 44% acham justo que um aluno negro tenha vaga reservada nas universidades por conta da sua cor
<< 46% dos brasileiros são contra o casamento homossexual
<< Entre 64% e 74% dos homens brasileiros acreditam que uma mulher que faz aborto deve ir presa
<< Entre 28% e 34% das mulheres brasileiras acham justificável crimes contra mulheres que traem
<< 26% da população acham que gays podem se tornar heterossexuais com tratamento
<< 83% dos brasileiros sonham em “não ter patrão”
<< 27% dos brasileiros acham moralmente aceitável não pagar impostos
Os dados assustam – mas assustam menos quando pensamos que o Brasil ocupa o ranking dos quinze países mais desiguais do mundo, e a educação aqui jamais teve a prioridade que os brasileiros merecem (e precisam). Mas, olhando friamente, é inegável que a pauta mais à direita parece atender melhor os desejos, os medos e, sobretudo, as crenças desses brasileiros. Afinal, como diz o próprio Nunes, sintetizando seus números numa frase que resume a maioria eleitoral do país, somos “conservadores, tradicionalistas e de direita” – e somos desde Gilberto Freyre, diga-se de passagem, embora o conservadorismo hoje tenha outra roupagem. Entender isso é essencial para qualquer (repito, qualquer) candidato à majoritária ter alguma chance nas urnas – sobretudo os de esquerda.
Enquanto a narrativa da esquerda costuma comunicar, sobretudo em redes sociais, campanhas sobre suas conquistas (muitas históricas para o país), grande parte dos eleitores não parece se conectar com essa agenda – auxílios sociais, importância da CLT, feminismo, reforma tributária, pauta identitária em geral. A impressão que passa é que a comunicação da esquerda está falando, principalmente, com a própria esquerda. É o famoso “pregar pra convertido” – que alimenta a bolha, mas encontra dificuldade em ultrapassá-la. Ela parece não convencer justamente pela complexidade e pelas suas escolhas dos pontos focais de debate – parte do pressuposto, muitas vezes, de que todo eleitor reconhece a importância do que ela acredita e defende, e isso constrói desconexão.
O fato é que para conseguirmos qualquer vitória eleitoral hoje, precisamos encarar o espelho e assumir quem somos como país. Precisamos entender que muitas vezes o que importa para a legenda não é o que conecta com o eleitor – sobretudo em redes sociais. Precisamos compreender que algumas pautas não dizem nada no ambiente digital para esse novo eleitor que tá rolando o feed – mesmo que sejam importantes para o partido. Precisamos saber que o brasileiro mudou e que já não é mais possível voltar atrás – e negar isso não muda a realidade.
No caso da esquerda, é lógico que não se trata de mudar o projeto para atender o novo eleitor. Mas trata-se, sim, de estudá-lo a fundo, compreendê-lo de verdade e considerá-lo de fato na hora de planejar sua comunicação. Porque esses eleitores já são esmagadoras maiorias – e ignorá-los deixou de ser uma opção.
Diante de tudo isso, já consigo esboçar uma resposta para aquele aluno preocupado de anos atrás: a verdade é que quase todos nós já não sabemos mais direito quem somos. E está mais do que na hora na hora de aprendermos.
Jade Martins é publicitária e fã de pesquisas quantitativas. Diretora de Planejamento e Posicionamento de Marcas e Políticos, possui MBA em Marketing Político e Comunicação Eleitoral. Mestre, doutora e pós-doutora em Teoria Literária.

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