Do red pill à magreza extrema: a disputa sobre o que é ser mulher no Brasil de hoje

Luz na passarela que lá vem ele: o bizarro não cansa de nos surpreender no Brasil de hoje. Nas últimas semanas o desfile de horrores do país trouxe algumas tendências que já estão dando o que falar, dos looks às modelos, passando por alguns clássicos que estão há algumas temporadas nos perseguindo.

A força da comunidade red pill 

Vitor Hugo Simonin, criminoso que participou do estrupro coletivo de uma garota de 17 anos em Copacabana, entregou-se à polícia com um modelito que é a cara das redes sociais hoje. Estampado no peito, os dizeres Regret Nothing, que, em português, significam “Não se arrependa de nada”. A frase, ícone do movimento red pill, é associada ao ex-lutador e atual presidiário Andrew Tate, que passou boa parte da sua vida digital influenciando meninos e adolescentes com conteúdos supostamente educativos de autoestima masculina mas que, nas entrelinhas, apenas doutrinavam sobre o perigo que são as mulheres.

A camiseta estampava seu posicionamento, sua crença e, mais do que isso, sua turma. Revelava o seu senso de pertencimento e lhe dava um lugar de origem, a comunidade da qual segue se orgulhando, mesmo (e talvez mais ainda) após o crime hediondo que cometeu. Mais do que isso: a camiseta talvez nos dê uma pista sobre a própria motivação do crime. Nesse lugar de origem, escavado no limbo da internet, porém presente nas beiradas dela, pra qualquer um deixar o seu like, estupro coletivo é motivo de orgulho e garantia de identificação. 

A ousadia na escolha do figurino foi grande. Mas, mais audacioso que isso, são os políticos (tantos) que preferem manter a internet como uma terra sem lei a proteger nossas crianças minimamente. Comunidades que organizam e esquematizam ataques às escolas estão em todas as redes sociais, sobretudo no X, finado Twitter. Misóginos disfarçados de coaches de masculinidade não apenas se proliferam como acumulam números e métricas de influenciadores. Aos pais resta fiscalizar o impossível. À Justiça offline, sobra a inoperância completa, já que o tempo das redes é infinitamente mais rápido do que o do mundo real. Nesse descompasso entre vida real e mundo virtual, cada vez mais homens “despertam” para o que são as mulheres de fato (e o que deve ser feito com elas).

Pai de meninas, país de (eternos) meninos

Outro grande destaque desse desfile de horrores está em outra camiseta, agora do presidenciável Flávio Bolsonaro, que estampa a frase supostamente fofa “pai de meninas”. Depois do “todes” que soltou dia desses, o político tenta se reposicionar no mercado fazendo exatamente o mesmo que o estuprador red pill. Mas, em vez de vestir o look para mostrar quem é, fez a trajetória contrária, tentando construir o que não é para mudar a percepção do público eleitor. Se a estratégia vai dar certo, ainda é cedo pra dizer. O fato é que se desfazer do legado extremista vai muito além de um slogan na camiseta e uma mudança de linguagem. Posicionamento se constrói de dentro pra fora – e quando o movimento é inverso, a chance de parecer um aleijão é enorme. Sobretudo quando a “fofura” vem da instrumentalização das filhas meninas para uso político. 

Mas as tendências não param por aí. Na coleção feminina, corpos cada vez mais magros deslizam pela passarela, retomando um grande clássico dos anos 90. A regra da vez não é ser magra, é ser o mais magra possível, . Uma moda que vem crescendo exponencialmente entre artistas, celebridades e influencers, justamente as maiores fontes de inspiração de crianças e adolescentes, sobretudo no ambiente digital. Nos anos 90, inspiraram transtornos de imagem que marcaram uma geração. Agora devem inspirar recorde de vendas de canetas emagrecedores prescritas sem nenhum critério. Corpos públicos exigem responsabilidade social – e não há nenhum exagero nessa frase, embora tentem nos fazer acreditar que sim. Pra quem, como eu, cresceu ouvindo que Gisele Bundchen era fora dos padrões por, pasmem, ter muitas curvas, é difícil digerir o novo ideal de beleza feminina sem imaginar as consequências que estão por vir. 

Corpos femininos cada vez mais magros

O mais assustador é ver a apropriação de discursos que antes orientaram a inclusão dos diferentes, como “não julgue o corpo feminino” ou “meu corpo, minhas regras”, para defender a magreza extrema. É a usurpação completa de slogans criados por quem exigia respeito à diferença, agora ditos por quem estimula a busca de corpos cada vez mais “perfeitos”. Tudo isso feito sem nenhuma responsabilidade social, desmerecendo o longo trabalho de marcas e pessoas (santa Paolla Oliveira) para desconstruir os ideais inatingíveis desse tempo. 

Dove falou de beleza em campanhas com mulheres cheias de sardas, com vitiligo ou acima do peso. Renner discutia o Dia das Mães em campanhas protagonizadas por mulheres que ainda não tinham conseguido a maternidade. O Boticário tratava de relacionamentos fora do padrão nuclear, trazendo casais homossexuais e pais separados. Tudo isso ficou para trás, em busca, novamente, do sonho da magreza perdida. A nostalgia de um passado que não tem nada de puro, muito pelo contrário. Como de puro parece não haver nada no futuro. O assunto parou até no Big Brother Brasil, com a polêmica Ana Paula Renault associando o retorno ostensivo da “magra cada vez mais magra” aos crescentes casos de feminicídio no país. 

Afinal, quem define o que é ser mulher?

Mas o que tem a ver um estuprador estampando um lema da comunidade red pill, um pai de meninas tentando se reposicionar no mercado político e o retorno do ideal da magreza cada vez mais magra, impulsionado por uma mídia que louva esses (novos) corpos e incorpora o peso mínimo como discurso de beleza? A conexão entre tudo isso está justamente na disputa (nada silenciosa) de narrativa sobre o que é ser mulher — e quem tem o poder de definir isso.

O criminoso red pill define a mulher como objeto inimigo. O político em campanha instrumentaliza mulheres (as suas meninas, no caso) como estratégia de imagem. A estética da magreza molda o corpo feminino como padrão a ser obedecido. Em todos esses casos, a mulher não é sujeito: é construção, controle ou ferramenta. E as camisetas, Jade? Real ou metaforicamente, todo mundo está vestindo e desfilando uma ideia sobre o que as mulheres são – ou deveriam ser. E esse desfile eu abandono sem deixar nenhum aplauso. 



Jade Martins é publicitária e diretora de Planejamento e Posicionamento de Marcas e Políticos. Possui MBA em Marketing Político e Comunicação Eleitoral, mestrado, doutorado e pós-doutorado em Teoria Literária. 

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