Briga resolvida? Entenda o caos interno no PSD catarinense

No dia de hoje, 20 de março de 2026, João Rodrigues é o pré-candidato a governador pelo PSD. Essa afirmação pode parecer uma certeza agora, mas esteve em xeque ao longo das últimas semanas, quando o PSD passou por um período de turbulência que pareceu tirar o prefeito de Chapecó do jogo em mais de uma ocasião, e resultou na saída de Topázio Neto do partido. Agora, a poeira parece ter baixado — mas até ontem o cenário ainda parecia incerto no projeto político da sigla. 

O último capítulo da novela do PSD se desenrolou nesta semana, e contou com a participação de três dos protagonistas da celeuma: os prefeitos de Chapecó e de Florianópolis, e o ex-governador Jorge Bornhausen. Quem entrou em cena primeiro foi João Rodrigues, que em um vídeo publicado em suas redes na manhã da última quarta-feira, 19, anunciou o cancelamento do evento de lançamento de sua pré-candidatura para o governo do Estado, que inicialmente estava previsto para o dia 21 — mesma ocasião em que renunciaria ao seu cargo na capital do Oeste. 

João Rodrigues justificou a mudança de planos por motivos logísticos. Chapecó está sediando nesta semana a Mercoagro, uma feira do setor agrícola que, segundo ele, lotou a rede hoteleira da cidade. Ele não anunciou uma nova data, mas avisou que até o dia 4 de abril tudo estará acertado. Nos bastidores, no entanto, o que se afirma é que ele estaria com dúvidas sobre a solidez do projeto, e inclusive conversara com colegas de partido sobre a possibilidade de migrar para o PP, e construir sua candidatura na sigla de Amin.

Mas a dúvida de João Rodrigues durou pouco tempo. No mesmo dia, à noite, ele conversou com Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, que lhe deu apoio para seguir com a candidatura. Entusiasmado, o prefeito de Chapecó enviou um áudio no grupo de WhatsApp do partido, comemorando a notícia: “Terminamos o dia com a melhor notícia. O presidente Kassab me ligou agora, neste minuto, hipotecando 100% do apoio ao nosso projeto. Superado todos os desencontros, exceto aquele que era o afastamento e a expulsão do Topázio que já está decidida”. 

Topázio “pediu pra sair” do PSD

2025 7 de setembro em Santa Catarina direita jorginho topázio renan e carlos bolsonaro
Foto: reprodução

Pouco tempo após João Rodrigues resolver as dúvidas no entorno de sua candidatura, o outro protagonista da turbulência no PSD resolveu dar as caras. Em uma carta aberta dirigida à Executiva do Diretório Estadual do partido, Topázio Neto anunciou sua desfiliação da sigla, em resposta ao processo de expulsão que havia sido iniciado na última segunda-feira pela direção estadual. 

Topázio não saiu quieto. No documento, teceu críticas à direção que o PSD decidiu seguir no estado, classificando a candidatura de João Rodrigues como um “projeto sem sentido”, afirmando que o hoje pré-candidato fez de seus colegas de partido “reféns”. Ele ainda afirmou, indiretamente, que o prefeito de Chapecó faria política com “com truculência, intimidação e socos na mesa”, e que essa forma de agir, e sua insistência na candidatura, escancara que seu “ego, vaidade e sede de poder valem mais do que o bem coletivo”.

O prefeito de Florianópolis ainda criticou o projeto nacional do PSD, que deve lançar candidato próprio à presidência, ao invés de apoiar Flávio Bolsonaro (PL), como seria o desejo de Topázio. “Nesse momento em que as forças de direita no Brasil deveriam se unir em torno de um nome sólido e viável, o PSD vai na direção contrária ao que deseja o eleitor catarinense”, afirmou ele na carta.

Topázio assina a carta como “prefeito da capital dos catarinenses”, um gesto que pode ser lido como um pouco da mesma vaidade que acusou no adversário e ex-colega de partido. Agora fora do PSD, deve buscar filiação em uma sigla alinhada ao governador Jorginho Mello, de quem seguirá no palanque. Ele já recebeu convites do Novo e do Podemos — este acompanhado de uma oferta de cargo na presidência do partido. 

Na prática, nada muda no cenário eleitoral catarinense. Mas a saída de Topázio libera um pouco da pressão interna no PSD, e facilita os próximos passos que o partido deve tomar para a consolidação do projeto de João Rodrigues. 

Jorge Bornhausen tentou puxar o tapete de João Rodrigues

O terceiro protagonista da confusão das últimas semanas foi o ex-governador Jorge Konder Bornhausen. Na semana passada, após o início da briga entre Topázio e João, que culminou em um ultimato enviado pelo prefeito de Chapecó à direção do partido, ele entrou em cena para tentar aplacar a situação e anunciou em uma coletiva de imprensa que João Rodrigues não era mais o candidato do PSD ao governo do Estado. 

João Rodrigues desmentiu o colega de partido em uma coletiva de imprensa realizada no dia seguinte ao lado de Eron Giordani, presidente estadual do PSD. Ele inclusive alfinetou Bornhausen, afirmando que o tempo da política e o de JKB estão em descompasso. Mas o ex-governador não aceitou a resposta, e dobrou a aposta: poucas horas após o anúncio de João Rodrigues, ele mesmo veio a público para dizer que escolheria um candidato próprio para o governo do estado, e revelaria sua decisão no dia 19 de março. 

Bornhausen ainda criticou João Rodrigues, e afirmou que o colega de partido havia recebido uma oferta de R$ 300 milhões em recursos para Chapecó de Jorginho Mello para desistir de sua candidatura. Ele não ofereceu provas contundentes, no entanto, e o prefeito de Chapecó negou a acusação em suas redes sociais, dizendo que a acusação se trata de fake news, e que poderia prejudicar a própria candidatura de Jorginho Mello. 

“Uma frase mal dita pode custar a eleição de um candidato. Se eu fosse mal caráter, eu poderia afirmar que houve essa tentativa. Mas eu pratico uma política limpa, uma política correta, e não seria covarde a ponto de concordar com essa notícia”, retrucou ele. “Então, não é verdade. O governador nunca fez nenhum tipo de oferta”.

Acusações à parte, a escolha do candidato de JKB gerou certa dose de expectativa dentro e fora do PSD, mas no fim das contas, não levou a lugar nenhum. Bornhausen chegou a convidar o ex-governador Raimundo Colombo para assumir essa posição, mas foi declinado — Colombo inclusive afirmou que o candidato da sigla é João Rodrigues, em declaração. A conclusão deste capítulo da novela aconteceu na quarta-feira, 18, quando Jorge Bornhausen voltou atrás e publicou um vídeo declarando apoio à candidatura do prefeito de Chapecó: “É o candidato do partido, é o candidato do Kassab e vou respeitar muito as suas decisões”.

Briga interna apenas enfraquece projeto de João Rodrigues

Com a crise aparentemente resolvida, João Rodrigues pode respirar um pouco mais aliviado, enquanto os outros dois protagonistas da celeuma seguem seus próprios caminhos, dentro e fora do PSD. A impressão que fica, no entanto, é que apesar de o prefeito de Chapecó ter saído vitorioso na briga, essa pode ser uma vitória pírrica — daquelas que enfraquecem tanto o lado vencedor por seu custo que quase equivalem a uma derrota. 

Isso porque, apesar de chegar ao suposto fim da crise tendo sido confirmado como o candidato aos governo do estado pelo PSD, João Rodrigues sai enfraquecido da turbulência. O caos enfraqueceu sua figura enquanto alternativa sólida para direita, e a sequência de decisões intempestivas, ameaças de desistência e o cancelamento de seu evento de renúncia pintam a imagem de alguém volátil, que apesar de estar planejando a candidatura há meses, pode a qualquer momento mudar de ideia e largar tudo. Mostra também a falta de uma direção clara no projeto, e a falta de diálogo entre os diferentes grupos que compõem o PSD. 

Está certo: ainda é cedo no calendário eleitoral. Como Frutuoso Oliveira afirmou em sua coluna nesta semana, brigas internas são comuns a esta altura do ano eleitoral — quem está adiantado é Jorginho Mello. Em outros pleitos, a regra era definir a chapa muito mais tarde, poucos dias antes do início da campanha. 

Apesar disso, é impossível negar que a briga teve seu preço, e que João Rodrigues sai enfraquecido, embora não derrotado. Ele precisa agora correr atrás do prejuízo, e tentar reunir o apoio necessário para bater de frente com Jorginho — que, até agora, vive num clima de “já ganhou”. A pouco menos de nove meses do pleito, há tempo mais que suficiente para gestar uma volta por cima.

 

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