A política tem um traço recorrente: quando a estratégia é guiada mais pela soberba do que pela leitura objetiva do cenário, o preço costuma chegar – e chega alto. Em Santa Catarina, os recentes movimentos do governador Jorginho Mello indicam exatamente esse caminho.
Ao optar por se alinhar de forma automática e cega ao bolsonarismo, Jorginho não apenas definiu seu campo político, mas também estreitou perigosamente seu espaço eleitoral. Mais do que isso: fez escolhas que revelam um cálculo equivocado. Ao escantear o senador Esperidião Amin – uma liderança consolidada, com densidade política própria – para dizer “sim, senhor” à família Bolsonaro, o governador abriu mão de um ativo importante em troca de uma aposta de alto risco que em nada acrescenta ao seu capital político no estado.
A decisão de abraçar o nome do importado Carlos Bolsonaro como candidato ao Senado em sua chapa é simbólica. Representa não apenas alinhamento ideológico, mas submissão política. E, em política, esse tipo de gesto raramente passa sem consequências.
O mesmo erro se repete na composição da vice. Ao deixar o MDB de lado e apostar no prefeito Adriano, do Novo, de Joinville, Jorginho parece ter acreditado em uma transferência automática de votos da maior cidade do estado. Trata-se de uma leitura simplista – e perigosa – do comportamento do eleitor. Voto não é propriedade, nem se move por decreto.
Há, ainda, um equívoco mais profundo: a crença de que Santa Catarina vota automaticamente no 22. Ledo engano. É verdade que existe, no estado, uma rejeição significativa à esquerda – por razões que podem e devem ser debatidas. Mas isso não significa adesão incondicional ao bolsonarismo, nem muito menos ao PL.
O cenário que começa a se desenhar mostra um campo mais fragmentado e competitivo. De um lado, João Rodrigues se consolida como um candidato efetivamente alinhado à direita, com identidade própria e sem a necessidade de subordinação. De outro, Gelson Merisio surge em uma composição de centro-esquerda, ampliando o espectro eleitoral e capturando votos que não se identificam com os extremos.
Nesse contexto, o espaço de Jorginho Mello se reduz. E não apenas por seus adversários, mas também pela percepção crescente de seu próprio governo. Um governo que, até aqui, “não cheira” – mas que pode, como já se comenta nos bastidores catarinenses, começar a feder.
O resultado desse conjunto de fatores é um cenário em que a reeleição do atual governador deixa de ser natural e passa a ser incerta – ou até mesmo inviável. Hoje, tudo indica uma eleição de dois turnos em Santa Catarina. E, em uma eventual segunda volta, a tendência é que Jorginho enfrente dificuldades reais para se sustentar.
Isso porque, no segundo turno, a lógica muda. A rejeição pesa mais do que a identidade. E a soma dos adversários tende a se reorganizar em torno de quem tiver mais capacidade de derrotar o incumbente.
A confirmação da chapa de João Rodrigues com o MDB e a federação União Progressista reforça esse redesenho do tabuleiro político, isolando ainda mais o governador em sua aposta de concentração no bolsonarismo.
Resta acompanhar os próximos movimentos. Se João Rodrigues consolidar seu espaço na direita, se Merisio conseguir estruturar uma alternativa competitiva ao centro-esquerda, e se ambos fizerem corretamente o seu dever de casa, o tridente eleitoral catarinense pode, de fato, redesenhar completamente o jogo.
A projeção está posta. Agora, é observar se a realidade confirmará o que, hoje, já se desenha com bastante nitidez.

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