Obras de uma das maiores coleções de arte do país pela primeira vez em Florianópolis

Até 1º de agosto, A.Galeria, no Passeio Primavera, sedia a exposição “Da Natureza Para a Obra”, com seleção do acervo Andrea e José-Olympio da Veiga Pereira e um convite à reflexão sobre as urgências ambientais

A A.Galeria, no Passeio Cultural Primavera, em Florianópolis, abriu no último dia 15 a exposição “Da Natureza Para a Obra”, uma seleção de trabalhos do acervo Andrea e José-Olympio da Veiga Pereira, casal dono de uma das mais relevantes coleções privadas de arte contemporânea brasileira. Com curadoria do francês Marc Pottier, especialista em arte contemporânea, e coordenação da professora, pesquisadora e crítica de arte, Sandra Makowiecky, a mostra reúne 26 artistas cujas obras estabelecem diferentes aproximações com a natureza.

Pinturas, fotografias, esculturas, instalações e vídeos compõem um conjunto diverso de linguagens e poéticas. Com diferentes técnicas e materiais, a coleção traz obras que vão muito além de despertar o fascínio e a sensibilidade. Como matéria simbólica, lembram os curadores e a fundadora da A.Galeria, Myriam Gomes, traduzem o apelo e a leitura muito peculiar de cada criador em relação à questão política e às urgências ambientais do mundo contemporâneo.

Ocupando o espaço central da galeria, a instalação “Venus Quarts Paff” (1997), estrutura de cimento de gesso e tecido tubular de poliamida, leva a assinatura de Ernesto Neto, artista conhecido pelas obras imersivas, e que confunde o telespectador pela força e leveza, em que fica impossível definir onde o gesso termina e o tecido assume seu papel.

A seleção traz artistas de dez estados brasileiros e três nomes internacionais com forte vínculo ao Brasil. Da ativista suíço-brasileira dedicada à defesa dos povos Yanomami, Claudia Andujar, radicada no país desde 1955, toda a sensibilidade e a vida retratadas nas raízes de “Figueira”. A temática indígena também inspira o espanhol radicado no Rio de Janeiro, Daniel Steegmann, cuja obra é representada com “Masks” (2012), que mescla uma folha de caboatã-de-leite com uma folha de ouro.

Do polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg, morto em 2017, uma grande instalação de madeira lustrada, de mais de 2 metros de altura, “Composição” (1978). Apontado como pioneiro na integração da arte com o meio ambiente, Frans tornou troncos, cipós, raízes e demais elementos naturais ao longo de mais de seis décadas de carreira.

A valorização dos saberes artesanais e da cultura indígena

As práticas manuais propostas pelos saberes artesanais trazem uma pitada de Florianópolis na obra de autoria da artista, designer e ambientalista gaúcha, Nara Guichon. Nascida em Santa Maria e radicada há mais de 40 anos na capital catarinense, em “Ninho” (2023), ela uniu redes de pesca oxidadas com pó de ferro e vinagre, arame galvanizado, sobras de roupas de descarte da indústria da moda e fios.

O percurso expositivo foi pensado para evidenciar a forma como a natureza atravessa a produção artística contemporânea, não como paisagem, mas como força ativa, capaz de provocar reflexão sobre a relação entre o ser humano e o ambiente.

A seleção também destaca a presença de artistas indígenas e afrodescendentes, como o índio macuxi roraimense Jaider Esbell, autor de uma das mais impactantes telas, “Onde Surgem os Sonhos” (2021), criada no mesmo ano de sua morte precoce, aos 42 anos. Igualmente impactantes, “Txain Punke Ruaken” (2021), de Acelino Sales Tuin, do coletivo Mahku (Movimento dos Artistas Hun Kuin), e “Série Flutuante 2” (2023), de Kaya Agari.

A coleção Andrea e José-Olympio da Veiga Pereira, construída ao longo de mais de quatro décadas, já foi apresentada em instituições como Instituto Tomie Ohtake, Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro e Museu Vale. Agora, uma parte do acervo de mais de 2.500 peças chega a Florianópolis, propondo ao público um percurso de aproximações e retornos entre arte, natureza e pensamento contemporâneo, que inicia já no percurso do visitante que optar pelo acesso de elevador.

“Da Natureza Para a Obra” permanece em cartaz na Capital até 1º de agosto deste ano.

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