Celebramos as mães, mas ainda temos dificuldade de enxergar plenamente as mulheres

Em 1932, o Dia das Mães passou a fazer parte oficialmente do calendário brasileiro. Um decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas definiu o segundo domingo de maio como a data da celebração. A iniciativa contou com o apoio da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada por Bertha Lutz, importante nome da luta pelos direitos das mulheres no país. O momento tinha forte significado histórico, já que, naquele mesmo ano, as brasileiras conquistaram oficialmente o direito ao voto.

A origem da data carregava um sentido simbólico de reconhecimento da mulher-mãe e da importância social da maternidade. Mas rapidamente o mercado transformou esta data em um dos dias mais importantes do ano, percebendo que a celebração poderia ser uma das mais lucrativas do calendário do comércio. Presentes e campanhas publicitárias emocionadas passaram a ocupar espaço maior do que a própria reflexão sobre o significado da maternidade e da condição feminina.

Curiosamente isso não acontece da mesma forma com o Dia Internacional da Mulher. Instituído oficialmente pela Organização das Nações Unidas em 1975, o 8 de março ainda provoca desconforto em muita gente conservadora. Certamente você já ouviu frases como: “Dia da mulher é todo dia. Que bobagem”, dita sem a menor reflexão sobre o seu significado histórico. Quase ninguém, porém, questiona a existência do Dia das Mães.

Claro, o Dia das Mães representa algo socialmente confortável. Ele celebra a doçura, a renúncia, o amor incondicional, entrega, equilíbrio e a sacralidade associada às mães. Já o Dia Internacional da Mulher pertence a outra dimensão: direitos, desigualdade, liberdade, reconhecimento e transformação social. Fala sobre mulheres para além dos papéis que historicamente lhes foram atribuídos.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes questões do nosso tempo. Celebramos as mães, mas ainda temos dificuldade de enxergar plenamente as mulheres. Com um agravante: costumamos dar aos pais o direito de falhar, de se ausentar ou errar sem que isso os defina.

Poucos ainda conseguem olhar para além dos estereótipos que construímos. Nem toda mulher que se torna mãe consegue viver essa experiência da mesma maneira. Há mulheres profundamente realizadas na maternidade. Há mulheres cheias de culpa, exaustão, solidão e sobrecarga. Há mães extraordinárias. Há mães que erram. Como qualquer ser humano.

Já não passou da hora de pararmos de sustentar essa imagem idealizada falsa e confusa de mãe, como se amar os filhos anulasse automaticamente as dores, os conflitos e os limites da mulher que ela é?

Muitas mulheres são deixadas de lado profissionalmente após terem filhos. Ou mesmo quando não têm, mas estão em “idade de ter”. Muitas vivem relacionamentos em que sua liberdade se reduz, enquanto a dos homens permanece preservada. Muitas aprendem a silenciar sentimentos, desejos e necessidades em nome da família, do equilíbrio da casa e do bem-estar coletivo. Tudo isso enquanto continuam sendo incentivadas a se mostrarem fortes, gratas e plenamente realizadas.

Para o caso de querermos construir uma sociedade mais madura, saudável e justa, é fundamental compreender o verdadeiro lugar da mulher dentro dela. Só então as mulheres que desejam ser mães poderão olhar para seus filhos com mais verdade, consciência e dignidade. Isso certamente contribuirá para a formação de seres humanos mais preparados para as transformações de que tanto precisamos.

Além da definição de mãe como “mulher que deu à luz um ou mais filhos e os cria ou criou”, existe também um sentido mais profundo: “lugar de origem, de onde algo se desenvolve, se aperfeiçoa e se ramifica”. Se a vida nasce a partir das mulheres, é essencial que a mulher seja, antes de tudo, acolhida e reconhecida em sua integralidade. Assim, ao se tornar mãe, poderá nutrir vidas capazes de gerar uma diferença verdadeiramente positiva no mundo.

Digo tudo isso sendo mãe. Sou mãe de quatro filhos, dos quais me orgulho imensamente. Sou muito feliz com a minha maternidade. E sinto que sou feliz justamente porque aprendi a olhar para ela com honestidade, sem idealizações que apaguem a complexidade da vida real. Mas aprendi isso com muita luta contra os rótulos que me foram impostos.

Neste Dia das Mães, compre presentes para a sua, se quiser. Mas não esqueça que existe uma reflexão bem necessária: Pergunte-se de que forma você ajuda a reproduzir expectativas impossíveis sobre esta mulher. E lembre-se, mulheres inteiras criam seres humanos mais inteiros também. É preciso que essa nova consciência floresça e ganhe corpo. Pelo bem de toda a humanidade.

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