Lula reage à tarifa de 25% dos EUA contra o Brasil: “Quem tinha que aumentar a taxa seríamos nós”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu nesta terça-feira (2) à proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Ao comentar a medida anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Lula contestou as justificativas apresentadas por Washington e afirmou que os números da relação comercial mostram justamente o contrário do que alega o governo norte-americano.

Segundo o presidente, os Estados Unidos acumulam um superávit bilionário no comércio com o Brasil há mais de uma década. Por isso, argumentou, se algum país tivesse motivos para elevar tarifas, seria o próprio Brasil.

“O superávit americano, nos últimos 15 anos, foi de US$ 415 bilhões. Então, quem tinha que aumentar a taxação seríamos nós, não eles”, declarou durante evento em Catalão, no interior de Goiás.

LULA DIZ QUE HOUVE TENTATIVA DE NEGOCIAÇÃO COM TRUMP

Ao responder à nova ofensiva comercial norte-americana, Lula revelou detalhes das conversas mantidas diretamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo o presidente brasileiro, os dois líderes haviam concordado em conceder um prazo para que as equipes técnicas dos dois governos buscassem uma solução para as divergências comerciais antes da adoção de novas medidas.

“Vocês viram que faz pouco tempo que fui aos Estados Unidos. Tive três horas de conversa com o presidente Trump. O secretário do Comércio dele começou a dizer que havia taxação e eu disse que havia divergência entre o ministro de Comércio dele e o meu ministro do Comércio”, relatou.

Lula afirmou ainda que apresentou documentos ao governo norte-americano demonstrando que a balança comercial favorece os Estados Unidos.

“Então, eu disse a ele [Trump], nós dois vamos dar 30 dias para eles provarem quem está certo e quem está errado. Se eu estiver errado, eu aceito; se você estiver errado, você aceita. E demos 30 dias. Até agora já conversaram três vezes e não houve acordo.”

A conversa citada pelo presidente ocorreu durante encontro realizado na Casa Branca, em maio, quando os dois governos discutiram comércio bilateral, combate ao crime organizado internacional e exploração de minerais estratégicos.

O QUE MOTIVOU A NOVA TARIFA DE 25% DOS EUA

Imagem gerada por IA

A reação de Lula ocorreu poucas horas após o governo dos Estados Unidos anunciar uma proposta para aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.

A medida é resultado de uma investigação aberta em julho de 2025 com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

Segundo o relatório divulgado pelo USTR, determinadas políticas brasileiras seriam “irrazoáveis” e estariam restringindo ou onerando o comércio norte-americano.

A investigação analisou temas como comércio digital, plataformas de redes sociais, sistemas de pagamento eletrônico como o Pix, propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso ao mercado de etanol, acordos comerciais preferenciais e desmatamento ilegal.

Com base nessas conclusões, o órgão propôs a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros.

A decisão definitiva ainda não foi tomada. O processo seguirá com consulta pública e audiência antes que o governo norte-americano anuncie uma posição final.

PIX, REDES SOCIAIS E DESMATAMENTO ESTÃO ENTRE AS CRÍTICAS DOS EUA

Entre os pontos mais sensíveis do relatório está a inclusão do Pix na investigação comercial.

O governo norte-americano sustenta que determinadas políticas brasileiras relacionadas aos meios eletrônicos de pagamento favoreceriam concorrentes locais em detrimento de empresas estrangeiras.

O documento também faz críticas a decisões da Justiça brasileira envolvendo plataformas digitais e redes sociais, alegando que empresas americanas teriam sido alvo de restrições consideradas excessivas.

Outro argumento utilizado por Washington envolve o combate ao desmatamento ilegal.

Segundo o relatório, apesar de possuir legislação ambiental robusta, o Brasil ainda enfrentaria dificuldades para aplicar plenamente suas normas de proteção ambiental.

Além disso, o USTR questiona políticas relacionadas à proteção da propriedade intelectual, combate à corrupção, comércio de etanol e acordos comerciais firmados pelo Brasil com países como México e Índia.

GOVERNO BRASILEIRO REBATE ACUSAÇÕES

O Palácio do Planalto divulgou uma nota oficial contestando as conclusões da investigação americana.

Segundo o governo, os argumentos apresentados pelos Estados Unidos não encontram respaldo nos dados do comércio bilateral e ignoram o fato de que os norte-americanos acumulam sucessivos superávits na relação econômica com o Brasil.

Dados apresentados pelo governo apontam que os Estados Unidos registraram saldo positivo de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil entre 2011 e 2025.

A nota também faz uma defesa enfática do Pix, classificando o sistema como uma infraestrutura pública administrada pelo Banco Central e acessível a empresas nacionais e estrangeiras sem discriminação.

Em relação ao meio ambiente, o governo destacou a redução dos índices de desmatamento e reafirmou a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030.

LULA VOLTA A CRITICAR POSTURA DOS ESTADOS UNIDOS

Durante o discurso, Lula afirmou que responderá às acusações com dados e informações sobre a relação comercial entre os dois países.

“Como eu não tenho navio para fazer as guerras que o Trump gosta de fazer e não tenho bomba atômica, a minha guerra é a guerra da verdade contra a mentira.”

O presidente também voltou a criticar setores da oposição que apoiaram medidas tarifárias anunciadas anteriormente pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros.

Sem citar diretamente nomes, Lula mencionou manifestações públicas de integrantes da família Bolsonaro relacionadas às decisões comerciais do governo Trump.

INDÚSTRIA VÊ RISCO PARA EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS

A possível adoção da tarifa também preocupa o setor produtivo.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou acompanhar com preocupação o avanço da proposta e defendeu a continuidade das negociações entre os dois países.

Segundo a entidade, a imposição de novas barreiras comerciais pode prejudicar cadeias produtivas integradas e reduzir a competitividade da indústria brasileira no mercado norte-americano.

“O momento exige diálogo e análise técnica. De nossa parte, estamos prontos para contribuir com as negociações”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.

DECISÃO FINAL DEVE SAIR EM JULHO

O governo dos Estados Unidos abriu consulta pública sobre a proposta e receberá manifestações até 1º de julho.

Uma audiência pública está prevista para 6 de julho e servirá para reunir contribuições de empresas, entidades e representantes governamentais.

A expectativa é que a decisão final seja anunciada até 15 de julho.

Até lá, Brasil e Estados Unidos tentarão encontrar uma solução negociada para evitar que a nova tarifa amplie a tensão comercial entre as duas maiores economias do continente americano.


Com informações da Agência Brasil

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