
Quando eu tinha 32 anos e duas filhas de três anos e meio, me separei do pai delas. No meio daquele processo doloroso, numa tarde qualquer, resolvi ir ao cinema para me distrair. Escolhi Homens de Preto. Ficção, aventura, alienígenas e muito humor. Queria justamente isso: uma história leve, divertida, que me permitisse esquecer a vida por algumas horas.
Quando as luzes se acenderam, saí da sala, sentei num banco do shopping e chorei de soluçar.
Achei aquilo um tanto absurdo.
Eu sabia, evidentemente, que as lágrimas não eram por causa do filme. Mas que comporta era essa que o filme havia aberto?
Só mais tarde compreendi que o filme havia tocado em uma pergunta que já morava em mim, mas que até aquele momento ainda não tinha parado para escutar.
Lembro-me de pensar exatamente isso: Onde espero chegar se nem sei se gosto mais do verde ou do vermelho…
E as questões que se derivaram disso:
De onde eu vinha e para onde queria ir?
O que realmente desejava da vida?
Eu não chorava pela separação. A separação me trazia o sentimento de fragilidade, mas essa fragilidade era mais ampla do que a separação.
Chorava por algo que ainda não tinha encontrado palavras.
Chorava porque, apesar da idade, de um casamento e de duas filhas, ainda não me conhecia direito.
E talvez seja justamente isso que aconteça com a maioria de nós.
É curioso como conseguimos nomear dezenas de tonalidades de azul, diferenciar o aroma entre o alecrim e o manjericão ou distinguir um vinho frutado de um amadeirado. Mas, quando o assunto é a vida interior, nosso vocabulário costuma encolher drasticamente. Sentimos um aperto no peito e dizemos apenas: “estou mal”.
A ansiedade, por exemplo, pode esconder medo, solidão, luto, culpa, raiva, desejo ou uma decisão que estamos adiando há tempo demais.
Quando não conseguimos compreender por que sentimos o que sentimos, nossa insônia, irritação, fadiga ou aquela sensação persistente de que algo está fora do lugar, nos fazem permanecer exatamente dentro desses estados, num labirinto sem saída.
Costumamos olhar primeiro para as manifestações do sofrimento e só depois, quando der ou, pior, se der, tentamos descobrir o que realmente estamos sentindo.
A experiência me fez suspeitar que precisamos fazer o contrário.
Talvez o caminho seja justamente o inverso: antes de tentar resolver o sofrimento, compreender de que sentimento ele verdadeiramente fala.
Nomear antes de interpretar.
É quando encontramos as palavras que começamos, enfim, a compreender o que vivemos. E isso transforma profundamente a maneira como seguimos vivendo.
Enquanto uma emoção permanece sem linguagem, ela continua difusa, espalhada pelo corpo, pelas noites insones, pela angústia que atravessa os dias. Quando encontra palavras, ganha contorno, forma. E tudo aquilo que ganha forma pode ser observado, acolhido e transformado.
Talvez seja por isso que certas conversas nos aliviem tanto. Não porque resolvam imediatamente os problemas, mas porque ajudam a traduzir uma experiência que antes era apenas um peso sem forma.
Então, diante de um aperto no peito, talvez a pergunta mais importante não seja sobre o sentimento em si, mas sobre aquilo que ele veio revelar:
O que, em mim, está tentando ser ouvido?
O que esse sentimento está protegendo?
O que perdi?
Do que tenho medo?
Que desejo ainda não reconheci?
Que decisão estou adiando?
E essas preciosas perguntas não existem necessariamente para produzir respostas rápidas.
Existem para ampliar a consciência e entender a fundo o que precisamos.
Aí que está a verdadeira chande de deixarmos o sol entrar.
Hoje, quando penso naquela mulher de 32 anos chorando num banco de shopping depois de uma sessão de comédia, lhe abraço com ternura.
Ela ainda não sabia nomear o que estava vivendo.
Mas algo dentro dela já esperava por palavras.
Portanto, penso que maturidade emocional tenha menos a ver com controlar o que sentimos e mais com ampliar o vocabulário com que conversamos com nós mesmos.
Dar nome ao que sentimos não elimina a dor.
Mas transforma um sofrimento difuso em algo com o qual finalmente podemos dialogar.
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Nota de rodapé
Durante muitos anos, uma amiga querida me apresentava assim para quem ainda não me conhecia:
— Esta é a Ana. Ela é muito legal, mas abraça árvores e chorou vendo Homens de Preto.
E todo mundo ria. Eu também. Porque sou dessas pessoas que sabem rir de si mesmas. Mas, no fundo, aquela história guardava uma vitória silenciosa: foi a partir do dia em que chorei naquele shopping que comecei, de verdade, meu caminho de autoconhecimento.





