Outro dia, percebi que tinha deixado de fazer uma coisa que queria fazer. Não porque não pudesse, não porque fosse impossível, nem porque tivesse acontecido alguma coisa que me impedisse. Simplesmente fui adiando.
Primeiro pensei que não era o momento. E enquanto esperava o momento certo, encontrei algumas boas razões para não fazer.
Só mais tarde percebi: eu estava com medo.
O curioso é que o medo nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes, ele se apresenta como prudência, bom senso, falta de tempo, necessidade de esperar mais um pouco. E, quando percebemos, já tomou a decisão pela gente.
O medo nem sempre nos manda correr. Às vezes, ele faz o contrário: nos convence a ficar.
Ontem, 22 de setembro, morreu Zuenir Ventura. Jornalista, escritor, cronista e membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir atravessou mais de seis décadas de jornalismo. Em seu livro-reportagem “1968: O Ano Que Não Terminou”, reconstruiu os principais fatos políticos, comportamentais e culturais do Brasil e do mundo daquele ano que terminou com a instituição do AI-5. Escreveu sobre o assasinato do lider ambientalista Chico Mendes, a violência e as desigualdades do Rio de Janeiro e também sobre pessoas, encontros, cultura e as pequenas histórias que ajudam a contar uma época. Morreu aos 95 anos, deixando uma obra que fez do jornalismo uma forma de olhar o Brasil.
Há uma frase de Zuenir de que gosto especialmente. Ele escreveu:
“É preciso mexer com a moldura, com os sentimentos e com as atitudes. É preciso levantar o ânimo, porque o medo é mau conselheiro.”
Bem, mas o medo sabe algumas coisas. Sabe que existem riscos. Sabe que nem toda porta precisa ser atravessada, que nem todo caminho é seguro, que algumas escolhas podem nos trazer consequências que ainda não conseguimos prever. O medo pode nos fazer parar diante do perigo. E, em muitas situações, parar é exatamente o que precisamos fazer.
O problema começa quando ele deixa de aconselhar e passa a decidir.
Quando transforma possibilidade em ameaça, dúvida em certeza, cuidado em paralisia. Quando nos convence de que é melhor não ir, não tentar, não dizer, não começar. Quando um “não sei o que vai acontecer” transforma-se, dentro da nossa cabeça, em “vai dar errado”, transformando o desconhecido em algo tão perigoso que a segurança de permanecer onde estamos passa a valer mais do que aquilo que desejamos viver. Aí o medo se torna um mau conselheiro.
Porque ele costuma argumentar muito bem. Tem sempre uma razão plausível à mão. E quase nunca precisa gritar para ser obedecido.
Mas então podemos mexer com a moldura!
O medo muda a moldura antes mesmo de mudar a realidade. O mesmo acontecimento pode parecer uma ameaça ou uma possibilidade, dependendo de onde colocamos a nossa atenção. Dependendo de como enquadramos o olhar.
O medo costuma apertar a moldura. Deixa menos espaço para o que pode dar certo e amplia tudo aquilo que pode dar errado.
Mexer na moldura não significa fingir que o risco não existe. Significa olhar de novo e perguntar se aquilo que estamos enxergando é tudo o que existe para ser visto.
Depois, Zuenir fala dos sentimentos. Essa parte é mais complicada porque parar e prestar atenção ao que sentimos e ao que isso está fazendo conosco nem sempre é confortável. Há coisas dentro de nós que preferimos não olhar tão de perto.
Às vezes, o medo é só a parte mais visível de alguma outra coisa que estamos sentindo. Penso que é justamente por isso que ele parece tão convincente. Quando não sabemos exatamente o que estamos sentindo, fica mais difícil saber o que fazer com aquilo.
Por que estamos com medo? Que tipo de sentimento essa situação nos desperta além do medo? É insegurança? Vergonha? Ansiedade? O sentimento de que não somos tão bons quanto gostaríamos? Ou, quem sabe, o de descobrir que somos capazes de muito mais do que imaginávamos?
Nem sempre é fácil responder.
E então chegamos às atitudes.
Porque podemos mexer na moldura, podemos olhar para os nossos sentimentos, mas chega uma hora em que alguma coisa precisa acontecer. É preciso escolher se vamos continuar parados ou se daremos um passo.
Nem sempre será um passo grande. Poderá ser apenas aquele telefonema que estamos adiando, uma conversa que precisamos ter, uma inscrição que finalmente fizemos, um convite que aceitamos, uma porta que abrimos sem saber exatamente o que encontraremos do outro lado.
E principalmente, a atitude de levantar o ânimo.
Não se trata de fingir que não temos medo. Nem de repetir que tudo vai dar certo. É procurar o que pode nos ajudar a recuperar a disposição para continuar em movimento mesmo sem a garantia de que dará.
Levantar o ânimo pode ser conversar com alguém. Sair de casa. Caminhar um pouco. Voltar a uma música que nos faz bem. Rir. Pedir ajuda. Lembrar de uma vez em que também tivemos medo e, ainda assim, conseguimos atravessar a ponte.
É “sacudir a poeira”, como se diz, e retomar a luta. Não uma luta contra o medo, necessariamente, mas contra aquilo que ele pode fazer quando ganha espaço demais dentro da gente.
A força da ação nem sempre tem discurso, certeza ou sensação de invencibilidade. Muitas vezes, ela tem apenas um pequeno movimento na direção da vida.
Levantar o ânimo pode ser isso: encontrar dentro de nós alguma coisa que ainda queira ir adiante.
E então me lembrei de outro escritor que também soube olhar para a vida de frente: João Guimarães Rosa.
Em Grande Sertão: Veredas, ele escreveu:
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
Não que a vida queira que sejamos corajosos o tempo todo. Isso seria impossível. Há dias em que temos medo, dias em que recuamos, dias em que precisamos mesmo parar.
Mas há também aqueles momentos em que percebemos que estamos adiando alguma coisa que desejamos porque o medo encontrou uma boa justificativa para nos convencer a ficar.
Nesses momentos, talvez seja hora de mexer na moldura. Olhar para o que estamos sentindo. Mudar alguma atitude. Levantar o ânimo.
E dar um passo.
Mesmo com medo.
Porque, diante dele, alguma coisa em nós decidiu continuar.